João Lourenço ocupa 13.ª posição do ranking dos Mais Poderosos 2019 do Jornal Negócios

O Presidente da República, João Lourenço desce da 10.ª posição para a 13.ª do ranking dos Mais Poderosos 2019 do português Jornal Negócios, apesar de as relações diplomáticas com Portugal terem ganho um novo impulso nos últimos dois anos .

Esta circunstância deve-se ao facto de Angola se encontrar numa situação económica difícil e da sua influência em Portugal se reduzir por esta via, a que acrescem as especulações sobre uma eventual venda das participações da Sonangol no BCP e na Galp.

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Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O provérbio aplica-se como uma luva às relações entre Angola e Portugal. Politicamente são uma coisa, economicamente outra coisa. No primeiro caso as relações estão, como disse João Lourenço em Março deste ano, no “pico da montanha”, no plano económico, o poder angolano em Portugal tem vindo a minguar por duas ordens de razão: antes de mais por o Presidente da República afastou da esfera do Governo os poderosos com interesses em Portugal, depois porque a crise está a ter um impacto significativo nos cofres públicos, o que tolhe a sua capacidade de intervenção.

Internamente, João Lourenço continua a limpar o Estado das teias deixadas pelo seu antecessor, José Eduardo dos Santos, uma tarefa que se afigura hercúlea e ainda está longe de conclusão. Esta opção tem efeitos práticos na forma como o chamado poder angolano se manifesta em Portugal. Assim, se antes de 26 de Setembro de 2017 (dia da tomada de posse de João Lourenço), os investimentos de diversas personalidades angolanas em território português, casos de Isabel dos Santos ou do general Kopelipa, podiam ser vistos como extensões do poder do Estado, depois dessa data tudo mudou.

O chefe de Estado angolano afastou o círculo próximo de José Eduardo dos Santos, materializando esta decisão em inúmeros actos de gestão, dos quais os mais relevantes foram o afastamento de Isabel dos Santos da presidência da Sonangol e do seu irmão, José Filomeno dos Santos, do Fundo Soberano, sendo que este esteve preso preventivamente entre Setembro de 2018 e Março de 2019, acusado de má gestão. Além disso anulou muitos dos negócios do Estado que envolviam o clã Dos Santos e o seu afinco em moralizar a gestão do erário público parece ter chegado ao poder judicial, observação sustentado pela condenação recente de Augusto Tomás, ministro dos Transportes entre 2008 e 2017, a 14 anos de prisão, por peculato, violação das normas de execução do plano do orçamento sob forma continuada, abuso de poder e participação económica

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No início deste ano, em entrevista à RTP, João Lourenço fez um diagnóstico cru da realidade que encontrou: “Angola atingiu níveis de corrupção insustentáveis que estavam a afastar os investidores externos”.

João Lourenço, a quem se gaba as qualidades de xadrezista, resolveu o caso Manuel Vicente, a pedra no sapato das relações diplomáticas e abriu as portas para o restabelecimento da normalidade diplomática entre Portugal e Angola.

Um sinal expressivo desta reaproximação foi o facto de João Lourenço ter convidado Marcelo Rebelo de Sousa para a sua festa de aniversário, a 5 de Março, um dia antes de o chefe de Estado português iniciar uma visita oficial ao país. Esta boa relação com Ti Celito (nome pelo qual os angolanos baptizaram Marcelo) é também extensível ao Governo português. António Costa visitou Angola em Setembro de 2018 e garantiu “total sintonia” nas relações bilaterais. Aliás, durante essa visita, João Lourenço teve um claro gesto de boa vontade (que não constava no programa oficial) ao enviar o seu ministro das Finanças, Archer Mangueira, a um encontro de empresários, para que este explicasse como Angola pretendia resolver o pagamento das dívidas em atraso às empresas portuguesas.

O QUE FAZER COM O BCP E A GALP?

Por força da crise económica, Angola viu-se forçada a reduzir o volume de obras públicas, circunstância que acabou por minguar a carteira de encomendas das construtoras portuguesas. Por outro lado, as participações que o Estado angolano mantém em Portugal, através da Sonangol, no BCP (19,49%) e na Galp ( posição indireta de 8,5% através da Esperanza, a qual detém 45% da Amorim Energia que por sua vez controla 33,34% da empresa), também têm sido alvo de especulação, existindo diversos rumores de que estão à venda, possibilidade que tem sido desmentida pela petrolífera.

É através destes dois investimentos que hoje o poder de Angola se sente em Portugal, embora de forma diferente. No BCP existe claramente um ascendente dos chineses da Fosun, enquanto na Galp se firmou uma aliança estratégica entre a Sonangol e a Amorim Energia, agora gerida por Paula Amorim, deixando de lado Isabel dos Santos.

A tese, repetida à exaustão, de que Angola e Portugal estão condenados a entender-se continua a fazer sentido, na medida em que Angola continua a ser determinante na actividade de muitas empresas portuguesas, tanto ao nível das exportações como através de uma presença directa. E o poder de Angola em Portugal também se mede por aqui.

OS INIMIGOS DE JOÃO LOURENÇO

José Eduardo dos Santos: Quando escolheu João Lourenço para lhe suceder, o ex-líder de Angola estava longe de imaginar que ele e a sua família iriam ficar no centro do furacão.

Isabel dos Santos: Uma das primeiras medidas de João Lourenço foi afastá-la da liderança da Sonangol. Desde então a empresária, que não voltou a Angola, tem aproveitado todas as ocasiões para o atacar.

José Filomeno dos Santos : O antigo presidente do Fundo Soberano e filho de José Eduardo dos Santos passou pela humilhação da prisão e aguarda julgamento por má-gestão e peculato.

Tchizé dos Santos: Foi suspensa de deputada do MPLA e, tal como a irmã Isabel dos Santos, está numa espécie de exílio na Europa. Não esconde uma forte antipatia por João Lourenço e usa as redes sociais para o criticar.

Leopoldino Fragoso do Nascimento “Dino” : O general Dino, aliado de Isabel dos Santos na Unitel, é um dos fiéis de José Eduardo dos Santos, o homem que controla o grupo de comunicação Medianova ( dono da TV Zimbo, Rádio Mais e jorna O País) acredita num regresso ao passado através do afastamento de João Lourenço

Hélder Vieira Dias “Kopelipa”: Antigo braço-direito de José Eduardo dos Santos, já foi forçado a devolver a gestão de portos comerciais ao Estado. É um dos alvos na luta contra a corrupção.

José Maria “Zé Maria”: O general, antigo chefe do Serviço de Inteligência e Segurança Militar, está em prisão domiciliária por ocultação de documentos. Mantém-se fiel a José Eduardo dos Santos.

OS AMIGOS DE JOÃO LOURENÇO

Diamantino Pedro Azevedo: É ministro dos Recursos Naturais e goza de grande influência junto do Presidente da República. Tem em suas mãos a restruturação do sector petrolífero.

Manuel Augusto: O ministro das Relações Exteriores é uma figura de inteira confiança a quem João Lourenço confia dossiês sensíveis. Tem um visível ascendente sobre os outros ministros.

Norberto dos Santos “Kwata Kanawa”: O governador da província de Malanje é amigo de longa data de João Lourenço, laços ainda mais reforçados pelo facto de serem compadres.

Jorge Dombolo : Foi colega do actual Presidente da República no Instituto Industrial de Luanda e têm uma longa relação de amizade. É secretário da área da organização e membro do bureau político do MPLA.

Eugénio Laborinho: Em Julho, João Lourenço foi buscá-lo a Cabinda, província onde era governador, e nomeou-o ministro do Interior, um cargo relevante tendo em conta as prometidas eleições autárquicas.

Mário António: No ano passado João Lourenço promoveu- o de tenente-general a general. É um aliado seguro de João Lourenço. É membro do bureau político do MPLA.

OS ALIADOS DE JOÃO LOURENÇO

Aldemiro Vaz da Conceicão: Foi um dos homens-fortes de José Eduardo dos Santos. João Lourenço chamou-o para director do Gabinete de Acção Psicológica e Informação da Casa de Segurança.

Fernando Garcia Miala : Chegou a estar preso, acusado de um golpe de Estado contra José Eduardo dos Santos. O antigo chefe do Serviço de Inteligência Externa (SIE) é hoje o chefe do Serviço de Inteligência e Segurança do Estado (SINSE) e uma figura temida pelo seu poder.

Manuel Vicente: O ex-vice-presidente é instrumental para João Lourenço, que o defendeu com unhas e dentes do processo que tinha em Portugal. Em troca, Manuel Vicente tem-lhe oferecido lealdade.

José de Lima Massano: Ocupa um lugar-chave, o de governador do Banco Nacional de Angola. Por ele passa o processo de saneamento da banca angolana, decisivo para a recuperação económica do país.

Ricardo Viegas de Abreu: É o ministro dos Transportes, pasta na qual substitui o agora condenado Augusto Tomás. Tem uma vasta experiência no mundo financeiro, importante para a estratégia do Presidente.

Marcelo Rebelo de Sousa : João Lourenço convidou o Presidente português para a sua festa de aniversário realizada a 5 de Março de 2019. Um sinal claro da boa relação que os dois chefes de Estado criaram .

Fonte: Jornal Negócios.

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