José Eduardo Agualusa: “Eu preferia ter sido governado por Eduardo dos Santos do que por Savimbi. Não tenho dúvida disso”

Numa grande entrevista concedida ao jornal i desta sexta-feira, 9 de Junho, o escritor angolano José Eduardo Agualusa, falou do último livro, “A Sociedade dos Sonhadores Involuntários”, um ajuste de contas com a realidade e uma tentativa de os sonhos derrubarem os pesadelos.

Eu prefiro ser governado por Eduardo dos Santos do que por Savimbi. Não tenho nenhuma dúvida disso”.

Nascido no Huambo a 13 de dezembro de 1960, quando questionado como via no processo histórico o MPLA e a UNITA : se como dois movimentos gémeos ou um pior que o outro? O escritor foi peremptório na sua resposta.

“Na origem, não são movimentos iguais. São muito diferentes do ponto de vista cultural. A UNITA representa um certo pensamento rural, pouco urbano. É formada por pessoas de origem camponesa, criada e educadas em missões protestantes. É essa a base cultural da UNITA. E o MPLA é claramente um movimento urbano, formado por intelectuais com uma grande mundividência. Isso separa muito os dois movimentos. Mas se me disser que têm em algumas circunstâncias comportamentos iguais, é verdade. Mas também tinham muitas diferenças. Nas zonas da UNITA, que eu visitei durante a guerra como jornalista, não havia nem sombra de democracia. Eu preferia ter sido governado pelo José Eduardo dos Santos do que pelo Savimbi. Não tenho a menor dúvida a esse respeito. Não acho que Savimbi tivesse dado melhor presidente que José Eduardo dos Santos “, disse Agualusa.

A única vez que tive problemas com a liberdade de expressão foi em Portugal, e não em Angola “. 

Falando sobre democracia, direitos e liberdade de expressão, questionado se era uma pessoa relativamente odiada em alguns círculos em Angola, o escritor afirma :” Nos círculos do poder , certamente. Mas volto a insistir, tenho livros editados em Angola, tenho editora angolana. Não há nenhuma dificuldade para me lerem lá [ em Angola]. Isso acontece comigo e com outros”.

“É uma ditadura muito especial. Este regime [ angolano], nunca se preocupou muito com os livros porque sabe que os livros chegam a poucas pessoas. Há é uma preocupação com as entrevistas e colunas de opinião. Eu fazia uma coluna num jornal angolano e alguém do regime comprou o jornal e afastou os cronistas incómodos ” . E chegou mesmo a afirmar ” que a única vez que tive problemas com a liberdade de expressão foi em Portugal,e não em Angola”.

“Eu nunca pediria asilo à embaixada portuguesa,  com medo de ser entregue à polícia política pelo embaixador”. 

Para o escritor, Portugal é mais papista que o Papa em relação a Angola. Este sentimento não é verdadeiramente um sentimento, mas o resultado de dividendos e migalhas de negócios que são dados pela elite angolana às elites portuguesas.

” Publiquei um texto numa revista da TAP, a convite deles , que se chama O dia em que prenderam o Pai Natal , é o meu conto mais traduzido. Uma senhora que já lá não está pediu-me o texto. E foi esta mesma pessoa que me contou, incomodadíssima, que o meu texto tinha sido vetado pela direcção da TAP com medo de incomodar alguns passageiros angolanos. E o texto não entrou. Não aconteceria em Angola. Portugal sempre foi mais papista que o Papa”.

“Há é medo de perder negócios. Isso é dito pelo próprio ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, que foi a Angola pedir desculpa pelas investigações em Portugal . […..] Eu nunca pediria asilo político à embaixada portuguesa, com medo de ser entregue à polícia política pelo embaixador”, acrescenta José Eduardo Agualusa.

Fonte: Jornal i .