“kizomba” a dança angolana que está a conquistar o mundo

Num pátio amarelado de Luanda, entre um labirinto de ruas, os jovens mexem-se ao som de uma música animada. É a kizomba, a dança angolana que está a conquistar o mundo.
“Stop! Os homens ficam parados, agora apenas as meninas se mexem. Assim, assim está bom”. Vitor Espeção discursa para os seus alunos, como faria um oficial ao comando de suas tropas, no bairro de Mabor.
Os dançarinos obedecem. Sob o olhar atento de um grupo de crianças, os jovens rebolam.
“É o que gosto nesta dança”, comenta entusiasmado o professor: “a alegria e a harmonia”.
Nas décadas de 1950 e 1960 em Angola dançava-se nas grandes farras, conhecidas por “kizombadas” muitos estilos musicais tipicamente angolanos, como o merengue angolano o semba, a maringa e o caduque (que deu origem à rebita). A kizomba, como dança, tem origem exatamente nessas farras, com dançarinos de renome como Mateus Pele do Zangado, João Cometa e Joana Perna Mbunco ou Jack Rumba, que eram os mais conhecidos.
A palavra significa “festa” em kimbundu, uma das línguas mais faladas no país.
A kizomba inspira-se na semba, considerada a dança tradicional do país. Dança-se em casal, mas com um ritmo mais lento. É menos agitada, mas mais sensual que a semba.
“É um estilo muito tranquilo, muito suave. Não se fazem muitos movimentos e dança-se com calma”, descreve Elsa Domingos Cardoso, uma estudante de 22 anos. “Seja kizomba ou semba, dançar deixa-me feliz”.
Nos últimos anos, a kizomba invadiu as pistas de dança de toda a Europa e mais além.
“É normal que funcione em todos os lugares”, considera Mario Contreiras, um arquiteto de Luanda convertido em promotor da kizomba.
“O nosso mundo precisa de carinho”, explica. “Nós dançamos a kizomba abraçados. Na Europa e no mundo não existe um equivalente. Então quando descobrem uma dança que vem de África em que as pessoas se abraçam, mesmo sem se conhecer (…), eles gostam”.
A kizomba tornou-se uma tendência, com cursos em Paris, Nova Iorque, Joanesburgo ou Lisboa.
Através dela, Angola, até então conhecida pela sua guerra civil e o seu petróleo, abre caminho na cena mundial da dança.
Mas Zelo Castelo Branco confessa que não reconhece a “sua” kizomba que é praticada no exterior. De tanto viajar, diz, “perdeu a alma”.
“Todos dançam kizomba, tudo bem. Mas os que a ensinam no exterior mudaram o estilo”, lamenta o DJ. “Já não é a tradicional e familiar que dançamos com as nossas mulheres, filhos, parentes (…), é extravagante, é quase a ‘tarraxinha'”.
A tarraxinha é uma variação da kizomba, mais lenta e parecida com a “pole dance”. Em Angola, um país cristão, a tarraxinha está reservada quase exclusivamente aos adultos.
Mateos Vandu Mavila, um dos chefes da tropa que treina no bairro de Mabor, não se atreve a incluí-la no programa quando atua em festas ou casamentos.
“Tudo depende da idade das pessoas que participam na festa”, assegura. “Nós não concordamos que os jovens dancem a tarraxinha (…), é sensual demais”.
Mario Contreiras lamenta a confusão entre a kizomba e a tarraxinha. “O mundo tentou associar a kizomba à sensualidade e a um certo erotismo. Para nós é algo muito sério, é a nossa forma de expressão, é a nossa cultura”.
Para defender esta cultura, este arquiteto juntou-se ao projeto “Kizomba nas ruas”, criado em 2012. Todos os domingos ao anoitecer, transforma o passeio marítimo de Luanda numa pista de dança para uma turma informal, gratuita e aberta a todos.
“O objetivo é promover a kizomba (…), dar a oportunidade de aprender e valorizar a cultura angolana”, declara Manuel Miguel, de 26 anos, um dos artífices da operação.
Para Mario Contreiras, “Angola é festa e kizomba é Angola”.