Lisboa: MPLA e o 27 de Maio de 1977, são temas de Mestrado no ISCTE

Uma estudante portuguesa defendeu nesta terça feira, no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL), uma tese de mestrado com o tema “O Movimento Popular de Libertação de Angola, o primeiro Governo angolano e o reforço do autocratismo com o 27 de Maio de 1977″.

Para a estudante de Estudos Africanos, da Escola do Sociologia e Ciências Públicas do ISCTE, Palmira Reis, o facto de nunca ter ouvido falar do que realmente aconteceu no 27 de Maio de 1977, incentivou-a a investigar sobre o tema .

“Eu vivi cinco anos, em Angola, mas nunca tinha ouvido falar do 27 de Maio, então decidi investigar”

Palmira Reis não deixou de explicar as dificuldades que encontrou para terminar a sua investigação, referindo que quase não se tem nada escrito sobre o 27 de maio e que as poucas bibliografias que existem foram escritas pelas vítimas e familiares

“Desta forma é impossível fazer o cruzamento de dados” referiu

O investigador e o orientador da mestranda Eugénio Costa Almeida, disse que por se tratar de um tema ainda com muitos “tabus” foi muito difícil obter bibliografias.

Eugénio Costa Almeida, acredita que tais dificuldades podem ser ultrapassadas, após o Presidente da República, João Lourenço ter assumido em público que houve excessos durante os acontecimentos do 27 de Maio de 1977.

“Tivemos muitas dificuldades, razão pelo qual tivemos que contornar o tema que inicialmente era só o 27 de Maio “

Na ocasião, o historiador Alberto Oliveira Pinto, aproveitou para desafiar os estudantes do ensino superior a investigarem sobre o 27 de Maio de 1977

“É a primeira vez que este tema é tratado numa universidade portuguesa” Referiu

A prova pública de mestrado acontece depois do ministro da Justiça e dos Direitos Humanos de Angola Francisco Queiroz ter dito que o “27 de maio de 1977” devia ser visto com sentido de Estado e muita responsabilidade, tendo como um dos princípios a reconciliação nacional.

Francisco Queiroz, reconheceu ter havido excessos com execuções e detenções sumárias. “É uma matéria que deve ser vista com sentido de Estado e com muita responsabilidade e tendo sempre como fundamentais os princípios da reconciliação, da historicidade do facto, do contexto histórico, e ainda o princípio de que estes fenómenos devem passar também por uma avaliação de perdão”.

A 27 de maio de 1977, uma alegada tentativa de golpe de Estado, numa operação aparentemente liderada por Nito Alves – então ministro do Interior desde a independência (11 de novembro de 1975) até outubro de 1976 -, foi violentamente reprimida pelo regime do então Presidente angolano, António Agostinho Neto.

As tropas leais a Agostinho Neto, com apoio de militares cubanos, acabaram por estabelecer a ordem e prenderem os revoltosos, seguindo-se, depois, com a eliminação das fações, tendo sido mortas cerca de 30 mil pessoas, na maior parte sem qualquer ligação a Nito Alves, tal como afirma a Amnistia Internacional (AI) em vários relatórios sobre o assunto.

 

3 comments

Texto muito bem elaborado e levanta uma temática há muito tabu social e político na História de Angola. Se não conhecermos a história, dificilmente saberemos para onde rumar! Brava

o tema central desta tese não é o “27 de Maio”. E não é verdade que o tema do “27 de Maio” tenha sido abordado apenas por vítimas ou familiares dos trágicos assassinatos. Dalila Cabrita Mateus e Leonor Figueiredo escreveram sobre o “27 de Maio” e não são vítmas deste processo. Américo Cardoso Botelho, Margarida Paredes, Inácio Marques, David Birmingham, Lara Pawson, entre outros investigadores, não são vítimas nem familiares e escreveram ou abordaram nos seus livros, artigos e teses sobre o “27 de Maio”. Vários angolanos (Iko Carreira, Dino Matross, Adolfo Maria, Hugo Azancot de Meneses, Joaquim Pinto de Andrade, etc.) ligados ao MPLA publicaram memórias onde se pode conhecer a história do MPLA. Além dos livros, existem teses de mestrado e doutoramento de portugueses e brasileiros, onde o “27 de Maio” não sendo o tema central da pesquisa é abordado sob diferentes perspetivas.

Subscrevo o que a Sraª. Verónica Leite Castro disse no comentário que descreveu existindo muitas edições que retratam este tema e dado o silêncio de muitas figuras ainda vivas entre famílias conhecidas, e outras espalhadas por toda Angola, nunca o regime anterior criou condições, mas sim capturou muitas figuras para governação do regime JES, figuras conhecidas que renderam aos benefícios instalados, e foram muito poucas figuras que ao longo desse anos deram sinais de persistência doloroso processo 27Maio. Acho que muitas famílias, tiveram o papel de educação e acolhimento de filhos órfãos que alguns tiveram ainda “privilégio” na sua formação académica e foram salvaguardados no exercício da sua vida profissional, e existem centenas ou milhares crianças hoje adultos que não tiveram as mesmas oportunidades e caíram no abandono levando desestruturar familiarmente a caminhos desviantes. É Importante que no futuro na reconciliação nacional estas vitimas tenham um reconhecimento em todos aspectos do direito de justiça que o assiste na plenitude humana.

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