Mais crianças a estudar à noite por falta de escolas em Luanda

A escassos 30 metros da escola 1009, também conhecida como “17 de Setembro”, em homenagem ao primeiro Presidente de Angola, Agostinho Neto, no Distrito Urbano da Samba, está Cecília Kiambata, trajada de bata branca e mochila às costas.

 

O rosto franzino denuncia  a faixa etária a que pertence. Não passa dos treze “cacimbos”. Embora o relógio marcasse 17h30, a menor não regressava das aulas, mas dirigia-se à escola.

publicidade

Concluiu a 6ª classe o ano passado, mas, por não haver escola do primeiro ciclo na sua zona onde pudesse frequentar a 7ª classe à tarde, os pais não tiveram outra saída senão matriculá-la  à noite na escola, com todos os riscos possíveis, para não perder o ano.

Por causa desta situação, Cecília Kiambata deixou de levar uma vida de adolescente. Já não consegue brincar com os amigos porque, enquanto eles regressam a casa por volta das 17h00, vindos da escola, ela tem de começar a preparar-se para ir à escola.

“Já não consigo brincar com os meus amigos como antes, porque à hora em que regresso a casa, os pais deles já não os deixam sair”, realçou, com tristeza, a menina.

publicidade

Faça já a sua assinatura: formulário de assinatura
Contactos editoriais: jornalkandandu@gmail.com

Publicidade: vivenviaspress@gmail.com

Além de ficar impossibilitada de estar com os amigos nos dias úteis da semana, Cecília  deixou de jantar à mesma hora com a família e, ao contrário do que acontecia até ao ano passado, agora é ela que encontra os pais em casa.

Esperança de Fátima Kiambata, mãe de Cecília, disse que o seu coração passou a bater mais forte desde que a filha de 13 anos começou a estudar à noite. “Só a matriculámos de noite para não ficar um ano sem estudar. Mas confesso que não tem sido fácil lidar com esta situação. O meu coração só fica no lugar quando ela chega a casa”, contou a mãe.

Devido ao índice elevado de criminalidade em Luanda, a mãe de Cecília  intensifica as orações a favor da filha. “Peço sempre a Deus para a proteger, diariamente”, frisou Esperança Kiambata.

Cecília Kiambata não é a única a passar por esta situação. Na escola em que estuda, outros meninos encontram-se na mesma condição. O mesmo problema verifica-se na escola “Herói de Cangamba”, no bairro da Coreia. À semelhança do que se verifica na escola “17 de Setembro”, muitas crianças com a idade de Cecília Kiambata também estudam à noite no estabelecimento de ensino.

Realidade invulgar

Gil Tito, responsável pelo ensino do primeiro ciclo da escola “17 de Setembro” no período nocturno, informou que é uma realidade completamente nova, porque não tem sido hábito crianças menores  estudarem à noite.

Gil Tito disse que  a situação só está a acontecer por haver um grande défice de escolas do primeiro ciclo no Distrito Urbano da Samba. “A título de exemplo, no perímetro em que se encontra a escola “17 de Setembro”, só há três escolas do primeiro ciclo, contando  com a nossa”, acentuou Gil Tito, para acrescentar que, ao contrário das outras, na escola “17 de Setembro” o primeiro ciclo só é ministrado no período nocturno.

Gil Tito acrescentou que uma das grandes barreiras é a convivência com adultos. “Os menores sentem-se inibidos”, esclareceu Gil Tito. Matricular crianças no período nocturno foi a solução que a escola encontrou para que não ficassem fora do sistema de ensino. “Importa dizer que eles são colocados no período nocturno com a anuência dos pais ou encarregados de educação”, adiantou Gil Tito.

Na escola “17 de Setembro”, a situação já tem quatro anos. Além de meninos com 13 anos, há lá outros com 14, 15 e 16 anos. Uma das preocupações dos responsáveis da escola tem a ver com a segurança. Embora exista segurança na escola, Gil Tito disse que os meliantes conseguem, às vezes, pular o muro para se apropriarem de pertences de alunos.

Nos dias em que não conseguem entrar para o recinto da escola, os marginais ficam nos arredores à espera de alunos. “Temos ouvido relatos de que alguns alunos so-frem assaltos durante o regresso a casa.”

A gravidez precoce é outro problema social que preocupa a direcção da escola. O número de adolescentes grávidas é preocupante, encontrando-se entre as causas a falta de acompanhamento dos pais. “Num universo de dez alunas, apenas quatro vivem com os pais. A maioria vive com tios, irmãos e avós”, acentuou.

Danos à saúde

O psicólogo Fernandes Manuel não concorda com a existência de crianças a estudarem à noite, por provocar danos à saúde a médio ou longo prazo.

Fernandes Manuel disse que os menores estão ainda na fase de desenvolvimento, pelo que, estudando à noite, podem apresentar “graves problemas emocionais” no futuro. O psicólogo acrescentou que são pessoas que ainda se encontram numa fase de desenvolvimento do ponto de vista cognitivo, psicomotor, emocional e social.

Além disso, o especialista em Psicologia admitiu que os adolescentes que estudam à noite podem apresentar fraco desempenho escolar,  pelo facto de as suas mentes não estarem ainda preparadas para desenvolver actividades nocturnas.

“Para eles, a noite  é para descansar”, alertou  o psicólogo, para quem a capacidade de eles memorizarem informações e de terem rendimento escolar fica reduzida. Do ponto de vista psicossocial, essas crianças podem apresentar problemas de relações interpessoais e desenvolver um forte clima de insegurança, ansiedade e depressão, por estarem a estudar num período em que se registam maiores índices de criminalidade.

“Quem tomou essa decisão não avaliou as consequências que podem surgir depois na vida dessas crianças”, lamentou o psicólogo, para quem, se há algum documento legal que autoriza crianças a estudarem à noite, deve ser urgentemente revisto, porque estudar à noite pode mutilar essas crianças.

“O período nocturno é para os adultos, por terem já personalidade e estrutura física formatadas e capacidade para interagir socialmente a qualquer momento”. De uma for-ma geral, o psicólogo disse reprovar a iniciativa.

Em escolas da capital há turmas com mais de 100 alunos  

O director nacional do Ensino Geral, Pacheco Francisco,  disse ser difícil ter o número exacto de crianças fora do sistema de ensino.  Na estatística não entram apenas as que não conseguem vaga, mas também as que não são levadas pelos pais à escola por razões que não são conhecidas das autoridades do sector da Educação.

Devido ao grande défice de escolas, há turmas com mais de 100 alunos, quando o recomendável é ter entre 35 e 40 alunos. O abrandamento registado no processo de construção de escolas em todo o país, devido à crise financeira, está a aumentar o número de crianças fora do sistema de ensino. “A taxa de natalidade não deixou de crescer”, acentuou o director nacional do Ensino Geral, para quem a construção de escolas deveria acompanhar o crescimento da população.

Pacheco Francisco disse ser impossível saber em cada ano lectivo o  número de crianças que devem ser matriculadas pela primeira vez. “Nós não sabemos o número de crianças que no próximo ano lectivo vão ter idade para começarem a estudar”, afirmou Pacheco Francisco, que disse ser importante que o Ministério da Educação tenha conhecimento do número de crianças que nascem no país para que seja planificada correctamente a construção do número desejável de escolas e onde devem ser construídas.

No seu entender, as administrações municipais deviam trabalhar com a “carta escolar”, documento elaborado pelo Ministério da Educação, que estabelece a médio e curto prazo as necessidades para o sector da Educação.

Director nacional afirma que a situação não deve continuar

O responsável pelo Ensino Geral, no cargo há dois meses, disse não ser do seu conhecimento que crianças de 13 anos estejam a estudar à noite em Luanda, mas, ainda assim, preconiza que a solução para o fim da situação anormal passa pela construção de mais escolas.

Oriundo da província do Namibe, Pacheco Francisco disse haver no país muitas escolas do ensino primário e um “número muito reduzido” de escolas do primeiro ciclo. O facto de o número de escolas do ensino primário não ser proporcional ao do primeiro ciclo tem criado grandes constrangimentos nas salas de aula.

Pacheco Francisco informou que o número de alunos que terminam a 6ª classe é superior à capacidade das escolas do primeiro ciclo, nas quais se lecciona a 7ª classe.

Estas escolas não conseguem acolher todos os alunos que transitam para a 7ª classe, porque têm também alunos da 8ª e 9ª classes. “Com certeza que os responsáveis dessas escolas acomodam essas crianças nesse horário para não ficarem fora do sistema de ensino”, acentuou Pacheco Francisco, que disse ser necessário que sejam construídas mais escolas do primeiro  ciclo nas zonas onde muitas crianças estudam à noite.

“É uma situação que não deve continuar. Eu mesmo, na condição de pai ou de encarregado de educação, não iria permitir que o meu filho com esta idade estudasse à noite”, declarou Pacheco Francisco.

Em Luanda, há bairros com um número reduzido de escolas para um grande número de crianças em idade escolar, uma realidade que provoca “grandes constrangimentos”, reconheceu Pacheco Francisco.

O director nacional do Ensino Geral disse que à noite só devem estudar pessoas que tenham a partir de 17 anos. “Abaixo de 17 não”, disse Pacheco Francisco, que se interrogou: “O que fazer quando há poucas vagas no período diurno?”.

Pacheco Francisco atribuiu também a responsabilidade às administrações municipais pela falta de escolas em alguns bairros porque, quando se faz a distribuição de terrenos para a construção, as autoridades locais esquecem-se de deixar áreas para a construção de equipamentos sociais.

 

“Num bairro tão grande, as vezes, só há um pequeno es-paço para construir uma escola de seis salas”, afirmou Pacheco Francisco, argumentando que “para mil casas, tem de se deixar um espaço para, pelo menos, quatro escolas”.

Fonte: JA

Deixe o seu comentário