Março, o mês por excelência dedicado ao chamado “Sexo Frágil”.

Alias, este género, de frágil tem muito pouco.

Enfim…viva o Março – Mulher.

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Este detalhe (Março-Mulher), me parece ser um pressuposto razoável, para dedicarmos uma reflexão em volta do género feminino.

Não obstante ser mulher, esposa, mãe de família e profissional, sinto-me pouco apropriada e capaz de abordar o tema de forma conclusiva e cabal. Afinal este tema, tem sido nas últimas décadas, dos mais polémicos, controverso, empolgante e de interpretação muito subjectiva.

Homens e Mulheres têm debatido de forma folgorante e polêmico sobre o assunto, as conclusões costumam ser desavindas quer nos debates que assumem a faceta de “guerra dos géneros”, assim como nos debates em que se procura perceber o papel “ou melhor, papeis” da mulher na sociedade moderna.

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Talvez não acreditem, mas nem mesmo entre nós mulheres, em debates formais ou informais, entre “supostas intelectuais” ou “leigas”, têm sido fácil convergir nas multi dimensões em volta do tema. Alias, provavelmente as maiores discordâncias, talvez verifiquem-se em debates recheados de presença do género feminino. Provavelmente para a rapaziada, nessas ocasiões de acesos debates sobre o assunto, a intervenção delas, transpareça logo que de “frágil” exista bem pouco. Nesses casos sou tentada a convergir, quando dizem de forma jocosa… “género problemático”.

Qual é então o verdadeiro papel da mulher na sociedade da era moderna?

Claramente, hoje, quando se fala da mulher, é impossível circunscrever-se a um único papel, porquanto a dimensão feminina encontre presença não somente no lar (outrora urbe natural desta), mas em muitos outros: de facto elas, ora são donas de casa, ora esposas, ora mães de família, ora trabalhadoras e curadoras do lar, ora trabalhadoras em variadas profissões formais, ora empresárias e como se não bastasse, precisam dedicar ainda parte do tempo a reivindicar ou “sindicalizar, como temerosamente fazem-me lembrar em casa” para ter uma participação efectiva na sociedade da qual são membros.

Por cima destas multi-dimensões, ainda temos de aceitar os juízos de valor e as reprovações dos igualmente “multi- supervisores”, sendo, ora o chefe no trabalho, ora o marido em casa, ora os filhos, ora o professor/a e a própria sociedade em geral. Impiedosamente, todos estes desvalorizam o esforço imprimido nesses titánicos afazeres e desatam e juízos precipitados e muitas vezes impiedosos. Confesso que pessoalmente, passo-me vezes sem conta.

“NÓS NÃO SOMOS MÁQUINAS….” apetecia-me gritar certas vezes.

As falhas das mulheres são muito pouco toleradas e nossas causas são muitas vezes “perdidas à partida”….até mesmo nos casos em que sejam arbitradas ou escrutinadas por outras mulheres. Mais uma vez aqui, tenho de concordar com o meu esposo, quando constata que chega a ser pior. Vale dizer que até a própria “solidariedade feminina” evapora-se.

Pelas razões acima descritas, o movimento feminino, ou feminista “permitam-me o dúbio” têm assistido um folgorante crescimento. Lançando-se contra os estigmas enraizados nesta sociedade marcadamente “Machista”. Ouso afirmar que o referido machismo têm crescido até como modelo de auto – defesa do próprio “Homem” que se sente amedrontado e ultrapassador essa mulher que têm vindo a demonstrar excelência em todos os campos e papeis em que participa. A mulher hoje procura por igualdade de oportunidade e circunstância, procurando quebrar barreiras.

Por estigma, ganhamos até um novo estado civil, o de “mãe-solteira”. Até neste particular, a arbitragem solidária da mulher, ficou silenciada, tendo sido um homem a defender-nos. Em Maio de 2014, o Papa Francisco, em um de seus inesquecíveis discursos, disse o seguinte: “Não existe mãe solteira. Mãe não é um estado civil”. Desde então, o termo “Mãe Solo” se popularizou e debates fervorosos acerca da discriminação, voltaram a tona.O que percebo nestes casos, é uma grande confusão institucionalizada por nós, seres humanos. Misturamos mãe, com o facto de sermos casadas ou solteiras, como se isso assegurasse a presença de pais e mães na relação familiar. Como se as pessoas casadas, já levassem consigo na bagagem, o “selo de qualidade” que as solteiras hipoteticamente não possuem, e talvez nunca terão.

Aqui surge-me uma curiosidade…Já ouvimos com tanta intensidade o termo “pai solteiro”? Quantas vezes alguém ouviu dizer: “Ah, aquele ali, é pai solteiro!”. Eu nunca ouvi.

Para não pensarem que estou a “sindicalizar” em vão, convido a pensarmos na problemática dos adjectivos que trocam de sinónimos. Por exemplo no nosso calão de Angola e também na língua de Camões, ao nosso filho ou irmão varão, o podemos chamar de “Puto”. Tentem chamar à coitada da menina!

Nem os animais escapam do estigma. O boi por exemplo é garanhão. Mas a Vaca é meretriz. Quanto aos sinónimos…melhor pararmos por aqui, só para não chamar a ira dos “Machos”. Até porque a intenção do texto não é de “guerra do género”, mas sim de partilhar reflexão em volta do papel da mulher na sociedade de hoje.

Em sociedades como a nossa de Angola, e não só….quantos homens furtam-se à paternidade? Já a mulher é obrigada nestas circunstâncias em ser super-mulher, para cobrir a ausência do “coitado do fugitivo”. Se esta mulher, até pedir ajuda aos seus pais, que em regra geral costuma ser a avó materna do menino, ainda é rotulada de folgada. Não quero com isto colocar juntos o trigo e o joio, pois reconheço excepções, porém como o termo mesmo diz, não costuma ser a regra. Nestas ocasiões o “homem” escuda-se meramente no: “Eu não queria, como foi possível”? como se do acto da copulação humana nascessem plantas. E como se ainda tivesse sido molestado e violentado, contra sua “responsável vontade”.

Portanto podemos afirmar com evidências, que o fulcro do debate que se trava em torno da mulher, é a luta que diariamente ela enfrenta para alcançar a sua justa posição de igualdade em relação ao homem. Como é óbvio, trata-se de igualdade social, política e económica, respeitando-se as características e as tendências naturais de cada sexo/género, reivindicando-se, apenas, oportunidades sociais iguais para todos, sem discriminação de espécie alguma, e é neste ponto que a luta feminina ganha grandeza.

Prefiro remarcar o acima descrito, sendo que a igualdade a que a mulher reivindica, é sem prejuízo das característica e tendências naturais de cada sexo. Digo isto porque na luta pela autodeterminação da mulher, muitas vezes sobe-se de tons, e se transparece que o homem seja inútil na vida da mulher e que a utilidade do “varão” seja descartável. Admita-se que a espécie masculina joga um fundamental papel no “ecossistema da humanidade”. Não somente na necessária cooperação da procriação. Algumas companheiras dizem que mesmo na procriação, a utilidade seja questionável, mas costumo responder que até ao momento não conheço sémen produzido de forma orgânica. Dizia eu, portanto que o homem é extremamente útil na vida da mulher e da família. Prova disto é que muitas vezes nos encontramos encurraladas em dicotomias, falando mal do homem como parceiro e exaltando ao mesmo tempo nosso Pai, de forma “babada” como se costuma dizer.

Regressando ao nosso ponto principal, é inquestionável que a mulher têm vindo a conquistar sua digna posição de igualdade em relação ao homem, ao longo das últimas décadas.

Como tal até as regras que regem as sociedades, se têm estado a adequar ao novo paradigma. Basta lembrar que num passado não muito distante, a mulher era considerada coisa, e não um ser. O Direito ao divórcio, por exemplo, era de exclusividade do homem, podendo ademais este, relacionar-se de forma oficial com várias mulheres. À mulher era proibido aparecer em público sem que a face fosse coberta por um véu.

Na antiga Índia por exemplo, no Código de Manu, em seu artigo 415, dizia: “A mulher durante a sua infância depende do Pai, na mocidade do marido; em morrendo, do marido de suas filhas; se não possuir filhos; dos parentes próximos de seu marido, porque uma mulher, nunca deve governar-se a sua vontade”.

A evolução e conquistas de direitos por parte da mulher, porém, não ocorreu de forma homogénea, sistemática e contínua em todo o mundo, sendo que ainda hoje, em determinadas sociedades, permanecem parte das sevícias acima descritas. Reservando à mulher, um papel de subalterna ou subsidiária e uma posição de “coisa” de um marido.

Doutro lado assistimos, nalgumas partes do globo, uma deturpação da auto afirmação da mulher, onde estas promovem e legitimam hábitos, antigamente exclusivamente masculinos, como a poligamia, objectificação do corpo e a promiscuidade dilagante, assim como o abandono de filhos em prol de “uma vida libertina e mondana”. O caminho ainda é longo, versus uma maior afirmação e maior reconhecimento da mulher, que se tem destacado com honra, classe e verticalidade nas multi tarefas em que é chamada. Talvez o perfeito celeiro de ensaio para essa trilha, seja o núcleo familiar, onde se produz a matéria prima que alimenta as comunidades, a sociedades e o Estado. Pois, como observa La Bigne de Villeneuve, uma família fecunda, pode ser o ponto de partida de um Estado. Pois acredito que se maximizarmos os sucessos na coabitação igualitária, responsável e de paz nas famílias, poderemos mais rapidamente e de forma mais sólida, alcançar maiores patamares de igualdade do género quer na dimensão social, económica, assim como na dimensão política, para tal, os dois géneros devem lutar juntos e de forma sincronizadas para o alcance deste desiderato, porque entendo que as relações igualitárias, tornam a vida de todos mais fácil, saudável e feliz. Nem sempre é fácil colocar este preceito em prática, mas é obrigação de todos nós, em particular modo, daqueles na condição de chefes e coordenadores de família, dar o máximo de si, em prol de uma relação mais equilibrada e mais igualitárias.

Aos homens convido aceitarem com naturalidade o advento da mulher na sociedade.

Às mulheres, convido a sermos menos impetuosa e revanchista no nosso processo de natural afirmação; porque afinal, “NÃO SE TRATA DE GUERRA DOS GÉNEROS” mas sim de “AFIRMAÇÃO DE UMA POSIÇÃO DE IGUALDADE”.

Viva as mulheres

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