MPLA: Alargar para melhor reinar

Começa hoje, sábado, 15 de Junho,  o 7.° Congresso Extraordinário do MPLA, presidido pelo líder do partido e chefe de Estado angolano, João Lourenço, com dois grandes temas em análise e discussão: o processo das primeiras eleições autárquicas do país, que estão previstas para 2020, e o alargamento do Comité Central do partido, dos actuais 363 membros para 497, ou seja quase 500 membros. Sob o lema “MPLA e os Novos Desafios”, o encontro vai decorrer no Complexo Turístico do Futungo de Belas. Este é o segundo congresso extraordinário que o MPLA realiza no espaço de nove meses (o 6.° Congresso Extraordinário foi realizado a 8 de Setembro de 2018, e ficou marcado pelo adeus à política do ex-Presidente José Eduardo dos Santos), será a oportunidade para se perceber qual será a estratégia do partido e do Executivo de João Lourenço a adoptar em relação às autárquicas, a afirmação da estratégia do gradualismo, algo que não agrada à oposição e a certos sectores da vida política, académica e social que defendem a sua generalização a todo o país e não apenas em alguns municípios. 

Um dos grandes temas e motivações deste congresso extraordinário será mesmo o alargamento do Comité Central do MPLA dos actuais 363 para 497 membros, ou seja, entrarão para aquela estrutura do partido mais 134 novos membros, em nome de uma “necessária renovação”. Aquilo que se diz, “Alargar para renovar”, não passa de uma estratégia de João Lourenço de “Alargar para melhor reinar”. O que será que este alargamento vai trazer em termos de melhorias de funcionamento de uma já burocrática e dispendiosa estrutura partidária? Colocar 134 novos e jovens membros no meio de uma máquina ou estrutura já envelhecida e avessa a mudanças pode parecer aquela ideia de “colocar óleo novo em motor velho” e que aparentemente pode dar a ideia de melhor desempenho do máquina, mas na realidade o óleo novo metido num motor velho pouco ou nada acrescenta ao desempenho da máquina. O que vamos ter com a entrada destes novos 134 membros do Comité Central não é uma verdadeira renovação num partido que ao longo do tempo sempre ofereceu uma certa resistência (para não dizer grande) quando se tratava da renovação das suas estruturas e dos seus quadros. 

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João Lourenço há muito percebeu que era necessário alargar as bases de apoio no seio do partido, que era preciso ter o controlo pleno de estruturas do partido como o Comité Central. Vendo-se na impossibilidade de afastar já uma certa linha dura ainda muito “devota” ao antigo líder, pouco “fiel e hostil” ao novo líder, a estratégia seria numa primeira fase alargar a estrutura. Em nome de uma já desejada renovação consegue, alargar a estrutura permitindo a entrada de novos membros que obviamente lhe serão “eternamente gratos” pela entrada no Comité Central e que lhe vão jurar fidelidade canina. Este “alargamento extraordinário” que acontece num congresso extraordinário faz parte de uma estratégia que começa agora e que será consumada no próximo congresso ordinário do MPLA. João Lourenço sabe que o tempo pode não ser um bom aliado, que as resistências dentro e fora do partido existem e persistem, que 2022 está próximo e até lá é preciso renovar o discurso. O discurso de combate ao nepotismo, a impunidade e a corrupção começa a estar já gasto e ele sabe que não vai resistir até 2022. Precisa de mexer as peças no seu “tabuleiro de xadrez” e ensaiar uma nova jogada. 

Este congresso extraordinário é antecedido do caso Tchizé, deputada e militante do MPLA. Tchizé dos Santos (filha do ex-presidente do MPLA, José Eduardo dos Santos) que chegou a pedir um processo disciplinar contra o líder do partido, João Lourenço e que foi suspensa do Comité Central e alvo de um processo disciplinar. Este caso poderia ser o mote para o MPLA alargar a discussão para temas como a democracia, liberdade de expressão e disciplina interna. O MPLA precisa de ter uma nova forma de abordar certos factos e situações da vida política, económica, cultural e social. O MPLA precisa de estabelecer uma nova relação com os seus militantes. Já que faz “alargamentos extraordinários” precisa também de alargar o diálogo, criar espaços para debater o contraditório. O “MPLA real” precisa de ir ao encontro de um “MPLA virtual” que nasce e cresce todos os dias nas redes sociais e que tem sido uma alternativa ou espaço de excelência para alguns militantes manifestarem o seu descontentamento ou discordância em relação às actuais lideranças do partido. O “Caso Tchizé ” é um exemplo do problema que o MPLA tem em lidar ou controlar os seus “revús virtuais”, que se movem livremente por um espaço difícil de controlar e demasiado solto, fazendo opinião (e até mesmo oposição), debatendo publicamente assuntos internos do partido, desafiando as suas lideranças, questionando as suas políticas e desmontando estratégias perante os milhares de seguidores que têm nas plataformas virtuais. É preciso deixar de lado algumas ideologias já arcaicas e obsoletas e procurar um olhar sério e atento para as novas tecnologias. Por fim, é preciso também que os militantes e dirigentes do MPLA percebam que precisam de estabelecer uma nova relação com os cidadãos; é preciso olhar o cidadão com um fim em si mesmo e não um meio para se atingir um fim. É preciso olhar para o cidadão não apenas como a garantia de um voto e manutenção no poder; é preciso olhar, falar e ouvir o cidadão 365 dias ao ano e não apenas antes e durante as eleições e depois esquecer-se dele. É preciso que muitos militantes percebam que ser do MPLA não deve ser ostentar cartão do partido, garantia de um bom emprego, de um bom carro, de ligação ou frequência aos tais círculos do poder, não é usar o cargo ou nome do partido para rotular, perseguir ou prejudicar o próximo, não é só bater palmas e fazer selfies em congressos ordinários e extraordinários . É preciso deixar de lado a chamada mentalidade de trincheira: Quem não é por nós é contra nós. É preciso que o principal e mais importante compromisso seja com o país e com os cidadãos. 

Bom dia e bom congresso camaradas. 

Obs.: Este congresso extraordinário tem um dado curioso: a ausência total do clã Dos Santos. José Eduardo dos Santos, antigo líder e presidente emérito do MPLA , Isabel dos Santos e Tchizé dos Santos estão num “exílio forçado e dourado” pela Europa e Zenu dos Santos está impedido de sair do país e bem distante disto tudo. Longe vão os tempos em que José Eduardo dos Santos e família eram as figuras de destaque nos congressos do MPLA e merecedores de directos e destaques na imprensa. Neste congresso extraordinário serão obviamente “ignorados com sucesso” como se diz na gíria . Novos tempos, novas vontades, novos protagonistas. É assim a vida …

1 comments

Isto é o MPLA do Passado do presente e o futuro a Deus pertence!!!! porquê da entrada de 134 novos membros???será para o Sr. Presidente ter a sua ala garantida? quem os elegeo com que critério?é verdade que se deve dar oportunidade aos mais novo com outras ideias outras filosofias outra culturas muito mais abrangentes, não há Democracia no MPLA há imposição de postos de quem pode!! a Democracia é uma fachada!!!!! não apoio a Tchizé, mas reconheço que ela em parte tem muita razão dizer as verdades muitas vezes é imcomodo mas é a realidade.

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