Nicolau Santos: “Com enorme expectativa e com enorme curiosidade”

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Armindo Laureano: Nicolau, há nove anos que um chefe de estado angolano não visita Portugal. A última visita foi de José Eduardo dos Santos em março de 2009. E em novembro deste ano, dia 23 e 24 João Lourenço visita Portugal. A nível do meio jornalístico português, como é que está a ser vista? Qual é o impacto, e como está a ser comentada esta visita de João Lourenço, as vossas abordagens, a estratégia, como é que vocês olham para isto?

Nicolau Santos: Bom, com enorme expectativa e com enorme curiosidade. Efectivamente as relações anteriores foram esparsas, foram descontínuas no tempo e parecia que em Angola tudo era imutável, portanto vir há dois anos, ou um ano não fazia grande diferença. Hoje em dia não, hoje em dia há muita coisa para dizer; há aspectos que necessitam eventualmente de ser esclarecidos, o facto de o Presidente João Lourenço no seu discurso de posse não ter mencionado Portugal, embora depois já tenha respondido a perguntas sobre isso, foi um sinal; a questão de o engenheiro Manuel Vicente e do processo que existia foi outro sinal de determinação do Presidente João Lourenço em defender os interesses angolanos, mas eu suponho que existe uma enorme expectativa para tentar perceber efectivamente qual é o papel que o Presidente João Lourenço pensa que Portugal pode desenvolver em Angola. É um facto, tanto quanto se sabe, que nos últimos 6 meses ou no último ano foram trazidos de Angola muitos portugueses que trabalhavam lá, que as empresas entraram em dificuldades, deixaram de pagar, etc., mas apesar de tudo existem muitas empresas portuguesas a trabalhar em Angola, muitas empresas portuguesas a exportar para Angola, muitos portugueses a trabalhar em Angola, e eu penso que isso não vai desaparecer de um dia para o outro. Portanto, acho que dentro das dificuldades, dos problemas, das questões que pontualmente surgem, os portugueses gostam genuinamente de Angola, de estar e viver em Angola, e acho que os angolanos quando vêm à Europa será difícil também não passarem por Portugal, não irem ver um jogo de futebol de algum clube português, etc., portanto eu acho que nós temos traços culturais, históricos muito fundos e que não desaparecem por alguém decidir que agora vamos fazer de outra maneira. Portanto há uma expectativa sobre aquilo que o Presidente João Lourenço virá dizer, quer na área política, quer do ponto de vista empresarial, que eu penso que terá encontros também com empresários portugueses para tentar perceber melhor o seu pensamento, mas não antevejo que venha a ser passada uma mensagem de afastamento e hostilidade, pelo contrário, acho que alguns equívocos possam ter sido gerados por esse primeiro discurso inicial, que serão afastados.

AL: Era isso que também lhe queria perguntar, como é que olha para a governação hoje em Angola?
NS: Bom eu penso que, eu estou surpreendido, em primeiro lugar, com o ritmo das mudanças, ou talvez antes disso, eu estou surpreendido, porque havia muitas dúvidas se o Presidente João Lourenço não teria feito vários pactos com o Presidente José Eduardo dos Santos, de deixar as coisas na mesma como estavam, durante três anos ou dois anos, etc., não tocar em ninguém, não mexer em ninguém. Portanto, em primeiro lugar provou-se que o Presidente João Lourenço pensa pela sua cabeça e actua por si, em segundo lugar que não pactua e que tinha uma análise muito crítica sobre a situação que se vivia, o que eu acho que só abona a favor dele; em terceiro lugar a rapidez com que ele tem actuado em relação a uma série de sectores e de áreas; e em quarto lugar, à profundidade com que o tem feito. Se nós olharmos um pouco, e mesmo à distância de 7 mil km para o que se passa em Angola, eu diria que praticamente todos os apoiantes, principalmente do ponto de vista económico, militar, do Presidente José Eduardo dos Santos foram afastados, ou estão na penumbra neste momento, e portanto isto era impensável há dois anos. O Presidente João Lourenço leva um ano de mandato, portanto é extraordinário o que ele tem feito, é extraordinário as novas definições que ele fez, políticas, estratégicas a nível internacional, e é extraordinário o facto de ele ser hoje em dia, um presidente que está não só muito mais próximo da população angolana, como um presidente que é altamente cosmopolita e  que tem visitado um conjunto de capitais – internacionais, obviamente, tentando encontrar apoios para Angola que são necessários, porque Angola vive uma fase difícil, como muitos países vivem, uma situação que ele herdou, mas que está a tentar mudar. Portanto eu diria que o Presidente João Lourenço é neste momento um exemplo de que as democracias podem funcionar em África e que as pessoas fazem toda a diferença. E o Presidente João Lourenço está a fazer toda a diferença ao que se passou, eu não diria nos últimos 37-38 anos porque acho que é demais, porque houve fases muito boas do Presidente José Eduardo dos Santos, mas seguramente nos últimos 4-5 anos é radicalmente diferente.

 

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