Nós os transparentes

Os transparentes somos nós, “os jovens”, que não conseguimos perspectivar o futuro, que não vivemos nossa juventude de forma saudável nem mesmo correcta, simplesmente porque “não nos é dada essa possibilidade”. Pois, nós os transparentes, parte de uma sociedade governada por políticos e políticas cuja caducidade há muito foi auferida, há mais de 38 anos experimentamos nossa “transparência existencial” aos olhos do regime que partiu, surripiou e devastou o Estado. Seus actos e sua forma de governar foram e ainda são tão nocivas ao país que assistimos quotidianamente a agudização dos problemas sociais e consequente deploração da vida dos cidadãos. E no ápice do subversivo sentimento da transparência, nós os transparentes, que ironicamente constituímos mais de 60% da população deste Estado, acabamos por refugiar-nos em caminhos pouco abonatórios; a toxicodependência e o álcool são os mais comuns, esses caminhos por mais pequenos que se mostrem, sempre encontrarão jovens dispostos ou forçados a alarga-los.

 

Tristemente, acabamos de anotar a continuidade do nosso estado, pois continuamos transparentes, incorpóreos aos olhos de quem governa. Continuamos sem ser alcançados pela íris de quem lidera o chamado “novo paradigma político” que, na verdade, de novo tem muito pouco, uma vez que os membros (governantes) dessa legislatura são os mesmos das anteriores. Como referiu Rafael Marques num dos seus artigos publicado no portal de notícias Maka Angola; “ Só os rostos mais insuportáveis do séquito de José Eduardo dos Santos foram afastados; de resto, o pessoal político não mudou. Não foram abertas as portas a uma nova classe de tecnocratas, jovens com ideias e dinamismo, prontos a servir o país. (…) Os jovens que têm capacidade técnica e conhecimento científico para servir o governo e a sociedade continuam fora do processo político e da administração. Mantêm-se em funções aqueles que melhor aprenderam a fazer mal ao país, com algumas excepções simbólicas”.

 

Uma juventude sem horizonte; é o que que me parece que somos. Estamos longe de saber o que é ser feliz, longe de ostentar um futuro risonho. As perspectivas de emprego são quase nulas. A primeira habitação é outro problema que experimentamos; há cada vez mais jovens com dificuldades de desfazerem-se dos cuidados dos pais, de abandonarem a casa dos progenitores, resultado do difícil acesso a habitação própria. As casas são caríssimas e as regalias para as adquirir são nulas. E, como se já não tivéssemos problemas suficientes, ainda nos é adicionado à lista os problemas na saúde. Somos a franja da sociedade mais afetada por doenças como o Paludismo e a Febre-amarela, as taxas de incidência de doenças sexualmente transmissíveis e da gravidez precoce também são elevadíssimas entre nós. Ainda assim, a única questão que é discutida é o aborto, quando o problema deveria centrar-se nos motivos que levam alguém a recorrer à interrupção voluntária da gravidez.

 

As insuficiências do Sector Educativo também nos afetam com maior incidência que qualquer outro grupo social. Somos nós, os transparentes, que lideramos, os índices nacionais de abandono ou desistência escolar, uma liderança que se torna assustadoramente imbatível quando estes índices focam apenas o Ensino Superior. Por outro lado, a formação e o ensino não estão a ser feitos de forma sustentada. Está-se a formar quadros que não fazem falta ao país.

 

A juventude está assim – ou melhor, nós os transparentes sobrevivemos assim. Todavia, somos uma juventude que não desiste, que não baixa os braços. Uma juventude que tem valores e sentido de participação cívica que, infelizmente, não tem sido apoiada nem tão pouco reconhecida pelo governo. O que nos faz sentir inúteis e transparentes. Uma das mais recentes demonstrações da consciência e sentido de participação cívica disseminado entre a juventude angolana, é o protesto “Acaba De Me Matar”, que nasceu nos musseques de Luanda e tem as redes sociais como palco e lugar de manifesto; uma forma que os transparentes encontram para protestas contra as medidas governativas que vêm sendo adotadas. O protesto estendeu-se às 18 províncias e já começa a ganhar o mundo. Por esse motivo, deve servir de alerta para aqueles que governam o País, no sentido de perceberem que é necessário mudar de rumo e não vale a pena tomar medidas políticas sem envolver os jovens na sua construção. Digamos que este é um grande passo para uma longa jornada.

Mas e até lá, continuaremos transparentes?

1 comments

Meu caro, meus parabéns pelo rico texto que nos (jovens) enquadra na perfeição. Realmente, são poucos textos que últimamente tenho lido e que retrata a realidade de forma tão clara e concisa. Mais uma vez parabéns e que alguem de direito possa ler e ajudar o actual quadro de nós os jovens – os transparentes.

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