A Nossa Senhora de Paris, o Quinzinho do Cazenga e o Chibanga de Maputo

Na passada segunda-feira, 15 de Abril, o mundo assistia estupefacto a um incêndio incontrolável a devastar a Catedral de Notre-Dame de Paris, um dos monumentos mais famosos do mundo, visitado anualmente por 13 milhões de pessoas (recebe cerca de 30 mil pessoas por dia), mais do que a própria Torre Eiffel. Considerado um dos mais belos exemplos da arquitectura gótica francesa, durante muitos séculos, a catedral foi o monumento mais alto de Paris e, em 1889, perdeu o lugar para a Torre Eiffel.

A construção original da catedral estendeu-se de 1163 a 1345 e foi tida como a grande realização da arquitectura gótica que depois se difundiu pela Europa. Mas ao longo dos séculos seguintes sofreu várias alterações, em 1845 foi alvo de uma profunda reestruturação. Durante a Guerra dos Cem Anos, o Rei Henrique VI da Inglaterra foi coroado Rei de França na Catedral de Notre-Dame (em 1431). A 2 de Dezembro de 1804, Napoleão I foi ali coroado Imperador da França. 

Uma obra gloriosa do período gótico cuja majestade e grandeza são por todos admiradas. Notre-Dame representa a Razão, representa a afirmação do Iluminismo, representa o progresso da arquitectura, da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Para o mundo católico, a Catedral de Notre-Dame é um local de peregrinação obrigatória. No entanto, apesar do seu papel religioso, e de acordo com uma lei de 1905, a Catedral de Notre-Dame está entre as 70 igrejas parisienses que pertencem ao Estado francês. A Igreja Católica é o beneficiário designado do espaço, com direito a usar o edifício para fins religiosos “a título permanente” e a Arquidiocese de Paris é responsável pelo pagamento aos funcionários, pela segurança e pela manutenção do edifício (incluindo a limpeza e o aquecimento), tudo isto sem receber apoios do Estado. 

Mas foi o escritor francês Victor Hugo (1802-1885) que a consagrou num dos seus romances mais conhecidos: Nossa Senhora de Paris (Notre-Dame de Paris). O livro foi originalmente publicado em 1831 e nele o escritor criou um vasto painel de enredos que tiveram como pano de fundo e elemento simbólico, o então monumento gótico da capital francesa. A dupla constituída pelo corcunda Quasímodo e pela bela Esmeralda são o centro da acção. Nossa Senhora de Paris divide-se em 11capítulos, o terceiro dos quais, um dos mais breves, se concentra na catedral e na cidade de Paris e também num tempo histórico: 1492, no reinado de Luís XI. Paris a então cidade brutal e violenta, cheia de contrastes e desigualdades sociais, repleta de intrigas palacianas e de uma hipocrisia eclesiástica. Paris era uma cidade de uma dureza implacável. Terá sido por estas e outras situações que Victor Hugo se indignava com  sucessivas acções de restauro do edifício da catedral, o descuido, a degradação e todo o prejuízo que a descontrolada acção humana causava ao monumento. Razão pela qual terá escrito com certa profecia: Tempus edax, homo edacior ou seja, O Tempo é cego, o Homem é estúpido. 

O coração de Paris quase deixou de bater e a Europa via arder um dos seus maiores símbolos. A “Idosa Rainha das nossas Catedrais” como lhe chamou Victor Hugo, era atingida por um incêndio de grandes proporções, que teve origem num curto-circuito, numa altura em que se procedia a obras de requalificação. O movimento solidário agitou Paris e o mundo, e, 24 horas depois, os mecenas surgiram e 500 milhões de dólares num ápice para a sua reconstrução. O Presidente francês, Emmanuel Macron viu subir a sua popularidade e já prometeu reconstruir a Nossa Senhora de Paris em cinco anos. Política, religião e interesses económicos bem juntos e misturados como manda a realidade social em França e até os coletes amarelos passaram para um plano secundário na agenda mediática nacional.

Como escreveu, e bem, o Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, em mensagem enviada ao seu homólogo francês: “Uma dor que nos trespassa o olhar e logo nos marca a alma, Paris sempre Paris ferida na Catedral em chamas. Uma tragédia francesa, europeia e mundial.”  Na verdade, uma parte da alma histórica, cultural, social e religiosa de Paris, da Europa e do mundo, ardia naquele dia aos nossos olhos.

O Quinzinho do Cazenga

Horas antes do incêndio de Notre-Dame em Paris, na zona de Alverca em Portugal, tombava, traído pelo coração, uma das almas futebolísticas da nossa Angola. Joaquim Alberto da Silva “Quinzinho”, o miúdo do Rodoviário, o jovem do ASA e senhor no Futebol Clube do Porto, não resistiu a um ataque cardíaco fulminante durante um jogging matinal, perto de casa.

Aos 45 anos, Quinzinho, o pai, marido, amigo, irmão, futebolista e ídolo das nossas claques partia ao encontro do eterno mestre, o inglês Bobby Robson, seu antigo treinador no Futebol Clube do Porto. Morreu na semana Santa e foi na sexta-feira santa que familiares, amigos e antigos companheiros se despediram dele no cemitério Novo de Alverca. Mantorras, Paulo Silva, Castela, Aurélio Soares, Miúdo Chico e outros companheiros de selecção nacional angolana lá estiveram para dizer “adeus” e “obrigado” ao homem que marcou o primeiro golo de Angola num CAN, em entrevistas feitas pela Vivências Press News e gentilmente cedidas e reproduzidas pela Rádio Cinco (infelizmente sem a devida citação da fonte primária como viemos a saber).

Partiu o homem, permanece o mito. Ficará para sempre a honra e a lenda. A garra de um jogador que marcou uma geração. Ficam as histórias contadas pelos jornalistas nos desportivos portugueses sobre a relação entre o mestre Bobby Robson e o discípulo Quinzinho. Desde a exigência do hat-trick para dançar samba ou kuduro ou da sugestão para tirar a carta de condução como analogia para controlar a velocidade e a força que trazia consigo. Faltou a bandeira nacional no caixão, a homenagem do ASA e a presença institucional do Estado. Valeu o apoio, a presença e o assumir das despesas fúnebres por parte do Consulado de Angola em Lisboa. A Pátria deve saber honrar os seus valorosos e destacados filhos. Boy, Boy, Boy, descansa em paz.

O Chibanga de Maputo

Na terça-feira, 16 de Abril, morreu Ricardo Chibanga, conhecido no mundo taurino por ser o primeiro matador de touros africano. Estava internado desde o passado dia 2 de Março, na sequência de um Acidente Vascular Cerebral (AVC). O toureiro faleceu em sua casa , na Golegã, aos 76 anos.

Ricardo Chibanga nasceu a 8 de Novembro de 1942, na antiga cidade de Lourenço Marques, hoje Maputo, em Moçambique. Desde cedo ganhou fascínio pelos trajes e pela perícia dos toureiros que via na praça da sua terra. Conseguiu chegar até Lisboa com apoio de um empresário e entretanto, o matador Manuel dos Santos levou o rapaz para a Golegã, onde Patrício Cecilio o ensinou a lidar. Fez provas de novilheiro praticante e, em 1965, vestiu o seu primeiro traje de luzes em Lisboa.

Chibanga confirmou a sua alternativa em Madrid, na temporada de 1972, e tornou-se assim no décimo sétimo matador de touros português. Foi aclamado em países como México, Reino Unido,Venezuela, Canadá e Estados Unidos. Foi aplaudido por gente famosa , como Pablo Picasso, Salvador Dalí e Orson Welles. Era muito popular, as suas actuações atraíam centenas de pessoas às praças. Ricardo Chibanga rompeu barreiras e venceu preconceitos. De Moçambique que trazia para os relvados Matateu, Eusébio, Coluna, Hilário, Vicente e outros, tinha também nas praças um matador de excelência.

Chibanga foi enterrado na passada quarta-feira no cemitério da Golegã, terra que o consagrou e que o viu partir. 

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