Nova parceria estratégica: França destronou Portugal como aliado de Angola

“Queremos recuperar o atraso, e essa recuperação tem de ser feita com os melhores, e a França pode ser hoje um dos nossos melhores aliados para nos ajudar a enfrentar esta batalha”, disse ao Expresso o ministro angolano das Relações Exteriores, Manuel Augusto.

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Com esta declaração, o chefe da diplomacia angolana justifica a “nova parceria estratégica” estabelecida entre Luanda e Paris, no fim da visita que o Presidente João Lourenço efectuou a França.

Depois de um longo período de distanciamento provocado pelo caso “Angolagate”, só quebrado no consulado de François Hollande, a escolha de França como primeiro país da Europa a receber uma visita de Estado do Presidente angolano inaugura uma nova era nas relações entre os dois países.

Ao apostar em França, Luanda sentiu-se na obrigação de elevar o nível de representatividade política do seu novo embaixador em Paris, nomeando para o cargo um antigo ministro das Relações Exteriores, João Miranda.

“A era em que Portugal surgia como uma espécie de porta-voz de Angola acabou, e isso ficou bem vincado no estabelecimento agora de uma nova conexão com a França, que pode vir a ser para nós uma nova porta de entrada na Europa”, garantiu um dos governantes que integrou a comitiva angolana.

Com as autoridades francesas, Angola concertou posições para ajudar a resolver a crise política que há anos se arrasta na República Democrática do Congo. “A França reconhece a capacidade de liderança de Angola neste processo e quer tirar partido da sua experiência na resolução de alguns conflitos em África”, disse um alto funcionário da Presidência angolana.

“A nossa posição passa pelo cumprimento do Acordo de São Silvestre, que consagra a realização de eleições mas a não recandidatura de Joseph Kabila. Isto para que não venhamos a ter de pagar com uma factura alta um eventual agravamento do clima de instabilidade naquele país”, esclareceu fonte do Ministério da Defesa angolano.

Nesta concertação, Luanda actua em estreita ligação com o Rwanda, depois de o chefe de Estado deste país, Paul Kagamé, actual presidente em exercício da União Africana, ter afastado a nuvem de desconfiança que, durante o reinado de José Eduardo dos Santos, existia em relação a Angola.

“Agora, com o novo Presidente, tem uma relação privilegiada”, revelou fonte do gabinete de João Lourenço.

Entrada na francofonia

Com esta visita a França, Angola sinalizou também a sua entrada, como observador, no mundo da francofonia, “para se ligar mais estreitamente a uma network de vários milhões de pessoas de outras paragens do mundo”, conforme acentuou fonte da delegação angolana em Paris.

Na mesma linha, o Presidente angolano inicia na segunda-feira uma visita oficial à Bélgica. João Lourenço tem já agendado um almoço privado com o primeiro-ministro belga, Charles Michel.

“Éramos o único país africano de língua oficial portuguesa fora dessa comunidade e, tendo em conta a nossa localização geopolítica na África Central rodeada de francófonos, não poderíamos deixar de estar atentos a essa realidade”, sublinhou o chefe da diplomacia angolana.

Manuel Augusto enfatizou, por outro lado, a presença, como convidado, de Angola na próxima cimeira dos BRICS, a ter lugar na África do Sul.”Temos ambições, e isso não escondemos a ninguém”, disse o ministro.

Luanda não deixa, no entanto, de manter a porta aberta a países como Portugal, embora “a razão histórica, por si só, já não chega”, no entender de um diplomata angolano.

“Ultrapassado o famoso irritante, estamos empenhados em retomar a normalização das relações, e na próxima semana o director para os assuntos políticos do MNE português irá a Luanda preparar a visita do primeiro-ministro, António Costa”, revelou Manuel Augusto.

António Costa deverá deslocar-se a Angola na primeira quinzena de Julho.

Fonte: Expresso

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