O canto do cisne de José Eduardo dos Santos

Ao fim de quatro década, o Movimento Popular de Libertação de Angola assiste hoje, durante o seu congresso extraordinário, ao render da guarda ao nível da sua liderança. Chega ao fim o reinado “eduardista” em Angola.

“Vamos enterrar um ciclo cujo modelo de liderança estava há muito falido”, disse ao Expresso o militante Walter Ferreira, presidente da Plataforma Juvenil para a Cidadania.

Ao longo de 39 anos, José Eduardo dos Santos neutralizou inimigos externos, domesticou adversários internos e montou um partido à sua imagem e semelhança. Durante esse período o agora ex-Presidente da República e ex-líder do MPLA criou uma clientela de servidores, a quem agraciou com um vasto cabaz de benesses em troca da cumplicidade com as suas políticas

Foram 39 anos em que o poder de José Eduardo dos Santos, erguido com punhos de aço, se impôs como pedra granítica, debaixo de uma cultura delirante de adulação à sua personalidade. Anos em que o MPLA, que governa Angola desde a independência, se distanciou do eleitorado e mergulhou numa crise de identidade, tornando-se, como disse um dia o dirigente histórico Lopo do Nascimento, “uma sociedade comercial anónima, sem ideologia “.

Os órfãos de “Zedu”

Bastarão algumas horas, neste congresso de um só dia, para o poder de Eduardo dos Santos se evaporar de vez, deixando deserdada uma legião de “órfãos” que nunca quis perceber que, após a subida de João Lourenço à Presidência da República, há exactamente um ano, nada voltaria a ser como dantes. Depois de anos de glorificação, Eduardo dos Santos abandona a liderança do MPLA em estado de decadência política, gerada pelo desgaste da imagem e pela insistência num modelo de governação bicéfalo encenado para tentar subalternizar o papel do seu sucessor.

Foi a imposição desse poder bicéfalo e a tentativa de manter intocáveis os interesses dos filhos e do seu séquito de seguidores que, ao acentuar clivagens no seio do MPLA, acelerou em sentido contrário a ascensão da autoridade de João Lourenço como novo chefe de Estado.

“Ao ter apostado numa estratégia que toda a gente via como ‘suicida’, fez estalar, sem sucesso, uma guerra aberta contra João Lourenço e não soube controlar o seu próprio processo de envelhecimento”, afirma o professor universitário Horácio Fernandes.

Depois de ter passado o último ano a assistir ao aumento da contestação à sua liderança no MPLA, a quebra de popularidade e a ridicularização da figura de Eduardo dos Santos foram-se agravando, à medida que se revelava, gradualmente, o envolvimento dos filhos em alegados escândalos de corrupção por apropriação abusiva de bens públicos.

“A obsessão pelo poder fê-lo cometer o erro de querer continuar a comandar o país à distância, como se o seu sucessor pudesse ser seu criado”, considera o sociólogo Amadeu Bonifácio.

Com o testemunho entregue a João Lourenço, que granjeia o apoio da “velha guarda” do MPLA e de uma nova geração de dirigentes, Eduardo dos Santos poderá dedicar mais tempo à sua fundação, a FESA, que, sem o auxílio do Estado, perdeu o brilho de outros tempos . “Esperemos que possa, finalmente, escrever o livro de memórias”, diz o professor de História Jorge Seabra.

Sem a sombra tutelar de “Zedu”, o novo líder do MPLA tem o caminho aberto para encetar as reformas políticas e económicas que se impõem, com vista a restaurar a confiança dos cidadãos e dos investidores. Com a imagem do MPLA moralmente debilitada, os militantes têm esperança de que João Lourenço saiba desempoeirar velhos dogmas, libertando o partido do servilismo e, como diz Luisa Inglês, secretária-geral da OMA, “expulsar” os corruptos.

Sepultado o passado, João Lourenço deverá, na opinião do economista Gervásio Domingos, eliminar o clientelismo político, refrescar a equipa governativa. É preciso reduzi-la, despartidarizá-la e torná-la menos dispendiosa e mais eficaz e competente.

“A mobilização nacional para colocar o país na rota do desenvolvimento poderá ser facilitada com a ascensão de João Lourenço à liderança do MPLA, quebrando o medo de abertura ao debate de ideias contrárias ou críticas ao pensamento político prevalecente para enterrar a mentalidade caduca de partido único ainda vigente “, diz José Oliveira, jornalista e investigador da Universidade Católica.

Fonte : Expresso.

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