O MPLA e o seu muro das lamentações

“Não podemos continuar impávidos e serenos perante pronunciamentos e outros comportamentos públicos reprováveis, nas redes sociais e não só, por parte de militantes, dirigentes e deputados nossos, que em nada dignificam o nosso Partido.” 
João Lourenço, Presidente do MPLA

O mundo dos “camaradas” mudou. Militantes, dirigentes e deputados do MPLA estão a usar as redes sociais para criticar um partido “dividido” ou afirmar “correntes de opinião” dentro dele. Criticar as várias lideranças, denunciar perseguições ou até ameaças de expulsão, seja no Facebook, Instagram, WhatsApp ou Twitter, os críticos internos usam as plataformas virtuais para lamentar situações reais do seu “glorioso MPLA”. Um debate ideológico com recurso a meios tecnológicos que vai crescendo nas redes sociais e acaba pondo dois lados em confronto: O MPLA real versus o MPLA virtual. Alguns alegam que as estruturas do Partido não permitem abertura suficiente para o debate de ideias, projectos ou alternativas. Dizem que, como a estrutura partidária não cria vasos comunicantes, não estabelece espaços para debater o contraditório, sendo as redes sociais a alternativa ou o espaço de excelência para manifestarem o seu descontentamento ou discordância em relação às actuais lideranças do MPLA. 

O que temos assistido nos últimos tempos no Facebook, Instagram, WhatsApp e Twitter não deve ser minimizado, pois agora é no meio virtual que muitos militantes do MPLA encontraram o seu muro das lamentações, na ausência de espaços nos órgãos ou nas estruturas internas que deviam “provocar”, estimular e promover o debate real e a liberdade de expressão. 

O partido que governa o país há quatro décadas tem perante si um novo desafio em termos de disciplina partidária. Desde que as redes sociais surgiram que muitas estruturas e lideranças partidárias passaram a ter dificuldades em compreendê-las e em lidar com elas. Sempre foram vistas como um inimigo das ideologias e da disciplina partidária. Dentro de certas estruturas do partido, as redes sociais sempre foram vistas não como um espaço de liberdade, mas como um espaço de uma certa libertinagem ou até promiscuidade, daí a relação agridoce que o MPLA vai mantendo com elas. Quando teve de as aceitar como facto incontornável, em resultado do desenvolvimento e das dinâmicas do mundo, acabou por criar estruturas para vigiar, controlar e seguir os seus militantes nas redes sociais. Uma nova vaga de “militantes virtuais” surgiu para cumprir com zelo e fidelidade canina tudo o que era publicado, comentado e questionado. E foi aqui também que muitos dos militantes encontraram um dos maiores espaços para quebrar regras e protocolos, desafiar estatutos e até pôr em xeque a então rígida disciplina partidária. 

Este aviso à navegação virtual que o presidente do MPLA, João Lourenço, fez na última reunião extraordinária do seu Comité Central demonstra bem a preocupação do partido para resolver este problema com os seus revús virtuais, que se movem livremente por um espaço difícil de controlar e demasiado solto, fazendo opinião, debatendo publicamente assuntos internos do Partido, desafiando as actuais lideranças e questionando as suas políticas, e desmontando estratégias perante os milhares de seguidores que têm nestas plataformas. João Lourenço conhece bem a máquina do Partido e sabe que ainda existem militantes que vivem num circuito fechado, numa redoma de vidro. Sabe que estes militantes só falam com os camaradas do Partido, que só se preocupam com os camaradas, que estão mais preocupados com o seu próprio poder do que com o bem comum das pessoas. Uma classe militante que há muito adoptou a chamada mentalidade de trincheira: Quem não é por nós é contra nós. É preciso que o principal e mais importante compromisso seja com o país e com os cidadãos. 

É preciso, também, que o MPLA perceba que há uma nova geração de militantes que vai mostrando algumas resistências ao funcionamento da sua máquina partidária, que reage by any means necessary à tal ausência destes espaços de liberdade de expressão no interior das estruturas, que recusa certas formatações, que não é muita dada a ideologias. É esta mais recente geração de militantes que, quando não encontra espaços ou liberdades no interior das estruturas partidárias, acaba por criar, ela própria, espaços, canais ou vasos comunicantes neste novo mundo virtual para questionar o chamado poder real. E é dessa nova geração de militantes que vai depender o futuro do Partido. É um MPLA que sabe que é urgente e necessária a renovação no seu seio, mas que há anos a vai adiando para as calendas gregas. Os jovens, tidos como o futuro, o amanhã, começam a sentir-se excluídos do presente. É esta nova geração que não encontra espaço dentro do Partido, que vai criar espaços alternativos nas redes sociais. É uma geração que começa a perceber que há mais vida para além dos partidos e que existe espaço de intervenção político/social bem fora das amarras de certas máquinas partidárias. 

Quanto mais a política partidária for um palco de vaidades, de combate de egos, de intolerância democrática e de radicalismos, de afirmação de interesses de grupos, de ausência de estruturas internas para o debate de ideias e do contraditório, enquanto for tudo isso e mais alguma coisa, mais espaço vai criando para que as redes sociais se tornem o verdadeiro Muro das Lamentações dos seus militantes. Estes serão os próximos desafios para as actuais lideranças do MPLA: a promoção do debate interno e de gerações, a afirmação da democracia interna, a sua atitude e a dos seus militantes face ao desenvolvimento tecnológico actual (redes sociais, fake news, comunicação/ informação virtual, domínio e gestão das TIC), um novo olhar do país para além da visão partidária, fazer da política um verdadeiro espaço de espírito de missão, cidadania e de sentido patriótico e onde  o cartão do Partido seja apenas um elemento de identificação e não de afirmação política, económica e social. 

Armindo Laureano
Director da Vivências Press News

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