O pedido de um “diplomata doméstico” ao Presidente Marcelo

Meu caro Presidente Marcelo Rebelo de Sousa,

Remeti esta carta para o Palácio de Belém na expectativa de que a recebesse ainda antes da sua partida para Angola, de que a levasse consigo para Angola e colocasse o assunto na agenda da discussão com o seu homólogo, o Presidente João Lourenço. Na verdade, já lhe queria entregar esta carta em Novembro quando recebeu o PR João Lourenço na Sala das Bicas, lá do seu palácio, mas Vossa Excelência estava sempre muito ocupado e solicitado. Mas também não queria que a minha solicitação fosse criar um novo “irritante” naquela altura.

Não é lobby que estou a fazer, pois isso ainda não foi regulamentado no meu país, mas a meter uma cunha e espero que não me cobre uma gasosa por isso. É melhor que seja mesmo um favor, pois se o seu homólogo fica a saber que o senhor me cobrou uma gasosa por ele ainda é capaz de lhe pôr sal na gasosa e ela fica logo com um sabor “irritante” e, como sabe, deixámos o “irritantes” do passado, os “insignificantes” do presente para olhar para os “importantes” do futuro. Se fosse no Governo do primeiro-ministro Passos Coelho, eu diria estar perante uma “troika de funções”, mas como estamos no governo do primeiro-ministro António Costa falo desta minha “geringonça de funções” como jornalista, “diplomata doméstico” e militante cultural. Olhe, este estatuto de “diplomata doméstico” foi-me atribuído por um diplomata sénior cá de Lisboa, que nunca conversa de café me disse que ele e os seus superiores achavam que eu estava a “esticar-me” e a retirar-lhes um certo protagonismo e monopólio de informação com esta coisa de fazer jornalismo. 

Por isso, meu caro Presidente Marcelo, após a advertência do diplomata sénior, profunda conversa com amigos e família, e de muitas insónias e aturada reflexão, decidi que quero ter o honrado estatuto de Cooperante. E é neste sentido que lhe peço que interceda junto do seu homólogo angolano. Lembra-se quando os portugueses diziam que estavam a trazer “novos mundos ao Mundo” e chamavam àquilo os Descobrimentos? Pois, anos depois da independência do meu país, houve muitas pessoas que vieram do seu país e de outros da Europa do Leste que foram contratados para trazer novos mundos ao mundo em que vivíamos. Na verdade, havia uns que eram mais mundanos do que outra coisa e passavam a viver dos prazeres de outros mundos.

Entendeu-se chamar a este processo Nova Cooperação e aos seus actores Cooperantes. Tinham viaturas com chapa de matrícula AIT, cartões da Angoy – Lojas Francas (Jumbo), Angoship, Catermar e até da Loja 7. Mas peço que não confunda Cooperante com Itinerante, pois acho a palavra muito parecida com Irritante. Sei que a cooperação consigo até é fácil, vejo que coopera com as pessoas nos beijos, abraços, sorrisos, afectos e selfies que vai espalhando por aí aos quatro ventos.

Caro Presidente Marcelo, será que este candidato à Cooperante pode contar com a sua cooperação? Era até para aplicar o princípio da reciprocidade e teríamos os cooperantes de lá e os cooperantes de cá. É que isto de ser “diplomata doméstico” cria mesmo um certo irritante e como Cooperante teria até um estatuto e função digna. Já agora deixe que lhe pergunte: vocês em Portugal também têm diplomatas domésticos? Ou é só mesmo uma função atípica da diplomacia angolana? Ou terá sido chacota do dito diplomata sénior?

Interceda por mim e fale com o seu homólogo angolano, assim passo a ser já um Cooperante ou “Coopera”, como também eram chamados os tais. Posso contar com a sua cooperação? 

Espero deferimento.

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