Órfãos do 27 de maio querem memorial

A criação em Luanda de um memorial de homenagem às vítimas dos trágicos acontecimentos de 27 de maio de 1977 é o pedido mais polémico da carta que mais de duas dezenas de órfãos, cujos pais desapareceram há 40 anos em Angola, dirigiram no dia 17 deste mês ao Presidente José Eduardo dos Santos. 

Os jovens solicitam ainda que o Presidente tome medidas no sentido de lhes ser entregue uma lista com todos os desaparecidos, bem como a realização de exames de ADN às ossadas das vítimas e a sua restituição às famílias para que lhes possam dar sepultura digna. Pedem também a emissão de certidões de óbito e respectiva entrega às famílias, ” em conformidade com a declaração do Bureau Político do MPLA datada de 26 de maio de 2002″; e o reconhecimento civil dos progenitores de todos os órfãos no seu bilhete de identidade. 

A carta começa por lembrar que ” em maio de 2017, assinalam-se em Angola 40 anos do início de um terrível processo de repressão política que culminou na morte de largos milhares de angolanos. Resultou daí uma fractura social que perdura até aos nossos dias, pois vivemos numa sociedade que não conhece o paradeiro de milhares de jovens patriotas, que serviam e acreditavam no MPLA e que a partir de 27 de maio de 1977, num intervalo que se arrastou por cerca de dois anos”. E justificam assim a iniciativa: “Uma parte dos filhos desses jovens combatentes somos nós, órfãos do 27 de maio de 1977. Passados 40 anos, não havendo qualquer explicação ou inquérito oficial do Estado Angolano sobre estes trágicos acontecimentos estamos convictos da necessidade em dirigir a Vossa Excelência, pela primeira vez em conjunto, algumas palavras que expressam o nosso sentimento de profunda mágoa .”

Os subscritores do documento sublinham que as suas famílias olhavam para José Eduardo dos Santos como ” alguém que iria promover condições necessárias para o início de um julgamento que fosse justo e com todas as garantias e prerrogativas que foram negadas aos nossos pais. Tragicamente, 40 anos volvidos, somos confrontados com a memória dessa ferida e com a dura realidade de termos alcançado da Presidência da República e do Estado Angolano uma única coisa : O SILÊNCIO. ”

E continuam: ” Essa parte do passado que foi o 27 de maio de 1977 foi apagada da nossa história pela imposição forçada da amnésia colectiva. Das vítimas e das circunstâncias em torno da sua morte o país pouco sabe. Quando e como foram assasinados ? Porque não tiveram garantias mínimas de defesa em tribunal, de maneira a responderem às acusações que lhes eram imputadas ? Quem foram e onde estão os seus algozes ? São perguntas como estas, entre muitas outras , que exigem ainda hoje um necessário esclarecimento ” . 

O primeiro subscritor da carta é João Ernesto Valles Van-Dúnem ( Che), filho de José Van- Dúnem e de Sita Valles, presos, torturados e fuzilados um mês depois dos acontecimentos. Seguem-se Epiménides Pereira, Luís Carlos Fortunato, Josina Valentim, Frederico Valles, Rui Tukayana, Ulika dos Santos, Henda Rasgado, Nelson Vieira Lopes, Songuile Kassange, Morais Saiundo, Cláudio Pereira, Vladimir Vieira Lopes, Aníbal Rasgado, Kiluanje Policarpo, Ivan dos Santos, Vladimir Valentim, Vânia Mendes, Jesus Rasgado, Sahamy Rasgado, Magog Tarsis Pereira, Kussi Emanuel Bernardo, João Bernardo, João Monteiro de Almeida e Álvaro Rasgado. 

Fonte : Expresso 

3 comments

Lamentando esse triste e trágico acontecimento respeitando os mortos os órfãos e mtos outros discordo em absoluto dessa ideia de memorial. Porque? Quem fez o 27 de maio? Quem morreu ? Muitos….a favor e contra? Muitos. Quem esta no poder? Muitos. Criar mais feridas. Apontar o dedo a quem? Revolucao. Que se encontrem os mortos? Muito bem de acordo. Mad a meu ver nao apontem o dedo a ninguem. Todos nos q vivemos naquela althra Fomos CULPDOS. Todos.Ideologia ambição vinganças medíocres etc etc. Paz aos mortos e muito mais Paz para os vivos.

O 27 de Maio de 1977!
Neste dia e momento, curvo-me nesse vazio onde sinto que soltas vozes ecoam do horizonte e num apsse se me
envolve o son que me atordoa com a sensação de medo ?! ou de temor , que enquanto for vivo “o estratega da tampa” , já mais haverá memorial e muito menos Certidões . Pois foi Ele então , o escolhido pelo Outro a colocar a tampa pesadíssima sobre os “nossos” cadáveres . Ela se destapará um dia. Solidários!
Luanda 27/Maio/2917

Deixe o seu comentário