Os jovens e as Autárquicas

Há alguns meses, escrevi e partilhei neste espaço a crónica “ Nós os transparentes”, um artigo que reclamava a transparência dos jovens diante da íris dos vários governos que o país vai tendo, que lamentava a ausência de políticas objetivas para resolver – ou minimizar – os inúmeros problemas enfrentados por esta franja da população que, pontualmente, representa 70% dos nacionais. Um simples desabafo de um jovem que, com esmorecimento e insatisfação, vem anotando à continuidade do nosso estado, pois continuamos incorpóreos perante aqueles que nos governam. Tanto assim é, que os jovens com capacidade técnica e conhecimento científico para servir o governo e a sociedade continuam fora do processo político e da administraçãoMantêm-se em funções aqueles que melhor aprenderam a fazer mal ao país, com algumas excepções simbólicas.

No entanto, emerge a possibilidade de nos desfazermos do nosso estado de transparência e materializarmos nossas ambições socias e sobre tudo políticas. A implantação do regime democrático no nosso país permitiu a consagração de direitos, liberdades e garantias inalienáveis aos cidadãos, estabelecendo os princípios basilares da democracia e assegurando o primado do Estado de Direito democrático, tendo em vista a construção de um país mais livre, mais justo e mais fraterno. Contudo, a construção de uma nação democrática não se faz “por decreto”. A verdadeira democratização faz-se pelas mãos das autarquias, na construção de um país mais justo e equilibrado. Angola deverá ser dos países mais centralizados do continente africano (basta olharmos para os sistemas político, administrativo e financeiro), uma excessiva centralização administrativa que tem atrasado e prejudicado o desenvolvimento das comunidades, afinal, e como temos vindo a verificar, é impossível responder à demanda de milhões de cidadãos, é impossível garantir direitos e serviços públicos para milhões de pessoas, e desta forma é impossível consolidar uma base tributária universalizada, sem que haja um mínimo de autonomia, capacidade e sofisticação burocrática local para responder às exigências dos cidadãos. Por isso, a criação de autarquias no nosso país responde à necessidade essencial de qualquer Estado moderno de criar instituições de governação descentralizada.

As autarquias deverão representar também a porta de entrada de novos players na política nacional.

Temos ainda hoje um país onde quase tudo está por fazer. Torna-se imperativo “fazer o que é necessário” e serão os Governos Locais a abraçar várias gerações de desafios e a garantir o acesso das populações a serviços tão elementares como a água e o saneamento, a energia elétrica e a iluminação pública, as vias e os arruamentos, a educação, a prática desportiva e a fruição cultural, entre tantos outros. Num país tão desigual, onde cada território encontra um ponto de partida diferente, com necessidades de investimento também diferentes, os Governos Locais transformarão Angola, contribuirão para a correção das desigualdades e das assimetrias, darão aos cidadãos aquilo que podemos considerar o verdadeiro acesso à democracia – a oportunidade de melhorar a sua qualidade de vida.

À vista disso, s os jovens (os transparentes) que somos, e continuaremos a ser por muitos anos ainda, a massa, o grosso votante em todos os pleitos realizados em nosso território, temos o poder de mudar o cenário politico e seus actores, podemos, se quisermos, vir a ser o grupo com o maior número de candidatos eleitos nas eleições autárquicas (2020), uma vez que, estas, ao contrário das presidenciais e/ou legislativas, estarão abertas à participação de todos os cidadãos (incluindo os apartidários). E é aqui, neste ponto, que devia surgir a mudança anteriormente mencionada.

Por que não fazer das autarquias uma via de inserção de sangue novo na política nacional, uma vez que, os partidos ora existentes, têm demostrado alguma relutância em faze-lo? Que tal fazermos das autarquias veículos de descobrimento de jovens com ilustrada competência, com capacidade de liderança, com talento e vocação política? Que tal colocarmos jovens despidos de qualquer compromisso partidário, jovens que queiram só e apenas servir suas comunidades e não os estatutos dos partidos? Esta é certamente uma mudança que pode ser assegurada por cada um de nós os jovens (os transparentes). Podemos fazer do Governo Local um instrumento para a captação de jovens, e também um mecanismo através do qual estes possam ganhar experiência governativa, para que no futuro consigam, com mestria, ocupar cargos mais altos, posições que os permita reproduzir a boa governação da sua autarquia para o país inteiro.

É imperioso compreender que; as mudanças e consequente displacement de gerações são inevitáveis, ainda que os mais velhos, hoje agarrados ao poder, se recusem a fazer a passagem de testemunho e pastas, o universo se encarregará de o fazer, pois ninguém vive para todo o sempre, e desta forma, chegará o tempo em que os mais novos, os transparentes, terão de conduzir o país. Por isso, é importante que estes comessem a ser preparados hoje, é necessário que os jovens desenvolvam suas competências agora para que tenhamos amanhã grandes líderes, exímios políticos, homens capazes de transportar o país para vários e bons portos.

Para terminar, desejo reiterar a questão: por que não transformar as autarquias numa forma de captação e inserção de jovens na vida política nacional?

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