Os nomes que a vida nos dá

Por gosto e por hábito profissional sou um participante do meu tempo. Gosto de estar e de me envolver nas coisas de que gosto, procurar respostas mesmo até nas coisas sem resposta, de viajar pelas entranhas do tempo em busca de factos, histórias, experiências, vivências e até para esclarecer dúvidas. Como se estivesse a descer um poço de verdadeiras e múltiplas liberdades. E uma das liberdades que mais me encanta é a experiência humana na atribuição dos nomes.

A forma como atribuímos os nomes às pessoas, às coisas, aos lugares e aos animais tem algo de interessante e revelador. É um processo que implica uma negociação prévia entre as partes envolvidas. Quando mais novo sempre tive animais em casa e por norma quem trouxesse ou fosse o “dono” do animal tinha o privilégio de propor um nome para o mesmo, mas teria de passar depois pelo crivo e aprovação dos outros membros do agregado familiar, já que todos teriam a incumbência de alimentar, cuidar e tratar do animal, tendo por isso “voto na matéria” na hora de dar nome aos animais (eram mais cães, poucos gatos e havia nomes para pássaros e até porcos). Houve mesmo situações de empate técnico neste processo de atribuição de nomes aos animais, que prontamente era solucionado por um “voto de qualidade” por parte de um dos mais velhos lá de casa. Lembro-me que tivemos um cão que chegou a nossa casa em Dezembro de 1992 e por ter chegado na época natalícia recebeu o nome de Natal. Foi das poucas vezes que houve unanimidade na atribuição do nome a um animal lá em casa. Este Natal era a nossa coqueluche e ainda viveu perto de 10 anos. Era tão ligado à família que quando morreu teve um enterro com elogios fúnebres, minuto de silêncio e algumas lágrimas à mistura.

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Já ouvi histórias de muitos casais que ficam divididos na altura de escolherem os nomes para os filhos, muitos chegam a viver uma crise no lar por causa desta situação. Um dos parceiros sugere um nome e o outro simplesmente recusa. Há casos até em que são feitos acordos prévios, do tipo: se for menina o nome será atribuído pelo pai, se for um menino, o nome é atribuído pela mãe, ou o contrário. Vezes há em que se pretende honrar, homenagear alguém muito querido ou próximo da família. Eu tenho como primeiro nome Armindo, que é uma homenagem da minha mãe à sua mãe, minha avó materna, a velha Cristina Armindo (e tenho uma irmã que se chama Cristina). Outros há que por influência da conjuntura política vigente. Lembro-me de no tempo do comunismo estavam em voga em Angola nomes como: Natacha, Ludmila, Tatiana, Nikita, Nina, Nádia, Irina, entre outros para as mulheres, e Ivan, Dimitri, Lenine, Igor, Yuri eram muito populares entre os homens. Há ainda nomes que surgem ou nos são atribuídos, pelas circunstâncias ou momentos da vida. Numa determinada fase e momento da nossa vida, mais no período que vai entre a adolescência e a juventude, acontece muitas vezes irmos em busca de uma nova identidade, de uma pseudo-afirmação, em que parece que não nos sentimos bem, não nos sentimos preenchidos com o nome que nos foi atribuído. Reclamamos para nós o direito e a liberdade de escolha e como que num grito de revolta, e também de aceitação entre os amigos, lá vamos procurando nomes com os quais nos identificamos. Muitas vezes é uma coisa passageira, euforia, deslumbre do momento, mas noutras o nome cola-se mesmo à pessoa.

Interessante é perceber como os dias da semana e certas circunstâncias podem influenciar na escolha dos nomes Katerça (que nasce numa terça-feira), Kaquarta (que nasce numa quarta-feira), Kassessa (que nasce numa sexta-feira), Sabalo (que nasce num sábado) e o Mingo (que nasce num domingo). Ou mesmo o Divua (azar ou azarado), Kubanza (pensar), Massoxi (lágrimas), Balumuka (despertar), Nvunda (confusão), Kamaka (problema), Zenu (veio, chegou) entre outros.

Há histórias de fidelidade e constância a nomes que surgiram das ruas, entraram em casa e ficaram até hoje. No bairro da Samba tive um vizinho, entretanto já falecido e de seu nome José Martins “Ti Martins”, que por uma certa circunstância da vida viu de um momento para o outro o seu nome alterado e aceite pelos filhos, vizinhos, amigos, clientes e até por ele próprio. O “Ti Martins” passou de Martins para Martimor e já conto a história de um nome atribuído pelas circunstâncias da vida. O “Ti Martins” era um exímio serralheiro é dono da Serralharia Liberdade. Todos os seus filhos rapazes (teve 9 filhos: as três primeiras filhas de uma anterior relação; com a minha vizinha Fátima teve 6 filhos, sendo quatro rapazes e duas raparigas), com a excepção do Eliseu Martins (terceiro dos rapazes), foram como que “obrigados” a aprender o ofício do pai, sendo o Jó Martins “Mascote” (segundo dos rapazes) o único que levou avante a arte e o ofício que aprendeu do pai.

Sendo o “Ti Martins” um homem que lidava e convivia abertamente com muitos jovens do bairro, muitos dos amigos dos seus filhos acabaram também por ir trabalhar na sua serralharia e aprender o ofício. Dentre estes rapazes havia um, já falecido e que foi meu colega na 6.ª classe na escola Povo em Luta, de nome Félix de Jesus Nzage “Filipito”, que sendo um adepto ferrenho do Sport Lisboa e Benfica (SLB) via na altura muitas semelhanças em termos de postura, atitude e autoridade entre o seu patrão José Martins e John Mortimore. John Mortimore, antigo jogador e treinador inglês, treinou o SLB por duas vezes (entre 1976 e 1979, e depois entre 1985 e 1987), venceu dois campeonatos nacionais de Portugal (épocas 1976/77 e 1986/87), duas taças de Portugal e uma Supertaça. E o jovem Filipito decide, a determinada altura, passar a chamar o seu patrão por “Martimor”, fazendo aqui não apenas uma associação de personalidades entre dois homens, mas também a junção entre os nomes Martins e Mortimore que acabaria por resultar no “Martimor”. E foi assim que o meu vizinho Ti Martins aceitou o novo nome e passou a ser chamado por todos nós, pelos filhos, pelos netos e até pela própria esposa pelo nome de Martimor. O nome que a vida lhe deu teve tanta força que acabou “apagando” literalmente o nome de registo. O Martimor apossou-se por completo do Martins.

Até hoje, entre amigos de infância, discutimos se é o nome que faz a pessoa ou se é a pessoa que faz o nome. Mas sei que depois do caso Martimor, houve casos de muitos jovens do nosso bairro em que os nomes de rua acabaram por aniquilar, por extinguir os chamados “nomes de casa” e até hoje muitos de nós somos chamados por amigos, colegas e familiares pelos tais nomes que a vida nos deu. O Jó passou a ser o Mascote, o Kahito passou a ser o Dólar, o Jorge tornou-se Magas, o Nequinho é o Fontana, o seu irmão Kito passou a ser o Djoy, o Guerrito, o Lee, o Dudu agora é Jardel, o Justino “Ju” passou a ser o Sidal, o Zeca é Miller, o Inocêncio Ângelo “Big” passou a ser o Coke, o kota Alferes Canoa passou a ser o Kota Kaká. Eu próprio de Mindocas na infância (diminutivo de Armindo), a vida já me deu nomes como Babska, Ti Lau, Mindão e Vivências. É curiosa a quantidade de nomes que a vida nos dá e como eles se vão enraizando. Cada um deles com o seu tempo, a sua história, as suas memórias e as suas vivências. São nomes que a vida nos dá e que levamos para toda a vida.

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