Os que nunca sabem

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O Presidente João Lourenço e a esposa visitaram dois hospitais em estado calamitoso, como todos os hospitais públicos de Angola. Eles sabiam o que iam encontrar e a visita funcionou para tornar visível a situação social em que ele recebeu o país. Achei ótimo mais esse sinal.

Logo em seguida, comecei a ler umas pessoas que reagiram como se não soubessem daquela calamidade. Entre elas alguns intelectuais que sempre afirmaram um conhecimento profundo da realidade nacional e negavam esse conhecimento de quem chamava atenção para certos problemas, temas, assuntos, mentiras, gatos escondidos com o rabo de fora, e fico por aqui.

Então, senhoras e senhores, não sabiam mesmo? Mas isso nós sabemos há décadas. Não levem  a mal: que mais da realidade angolana vocês não sabem? É que quem não sabia aquilo, ou andou distraído muitos anos ou não quer saber de certas coisas centrais na vida nacional ou tem o kumbu lá fora e resolve por esse canal. Neste terceiro caso, acho bom trazê-lo de volta e não venham depois dizer  que não sabiam do apelo.

Passando para outro registo, mais ainda no negacionismo ou no “sabiam/não sabiam” tem aparecido gente em grupos do facebook a elogiar com saudade tempos coloniais, a dizerem também que conheciam muito bem a realidade de então e não viram opressão   (ao ponto de negar arrogantemente que nós a conhecessemos) e a negar ainda que tivesse havido resistência clandestina. Com paciência demonstramos, com exemplos, a constância dessa resistência (até a Pide dizia que nunca parou) e, aí, com calma olímpica dizem “eu não sabia”. Ah!

Juntando os dois momentos históricos, acho que podemos chegar a uma triste conclusão: Angola produz (ou passaram por ela) pessoas com super conhecimento da realidade, monopolizam até esse conhecimento  mas, de repente, não sabem o básico, o dia-a-dia, o principal. Claro que deviam ter vergonha, mas não têm nem lhes vou pedir que tenham. Vamos continuar a olhá-los com o mesmo olhar que sempre lhes dedicamos e a pensar certas coisas. Por exemplo, agora veio-me à caixa das memórias a foto duma frase, escrita numa parede de algum lugar do mundo durante as rebeliões estudantis dos anos 60 – precisamente quando lutavamos pela independência . Era uma frase muito simples: “mas que raio de merda é esta?”     

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