Pan Africanismo Palopiano

Recentemente um conjunto de intelectuais, em maioria   francófonos, realizou na histórica cidade senegalesa de São Luís um encontro de reflexão sobre o continente, na qual apareceram comunicações importantes. Uns vivem nos seus respectivos países, outros  circulam entre vários e outros ainda passam a maior parte do tempo na Europa ou Estados Unidos, vários  com dupla nacionalidade.  Entre  eles o historiador Achille Mbembe, o filosofo Kwame Anthony Appiah e o escritor Alain Mabanckou.  Um livro conduzido por este foi publicado e esperamos novas iniciativas. Mesmo que não surjam, os efeitos da reflexão a nível individual – de participantes ou não – será considerável, no sentido de gerar um nova vaga de analises e propostas.

Algumas entidades africanas e não africanas têm também  promovido encontros semelhantes em língua inglesa sobretudo, onde por vezes surgem documentos valiosos.

Tudo isto decorre do alargamento da intelectualidade africana com espírito crítico e do próprio desafio representado pela persistência da situação continental, sempre na cauda da corrida mundial de desempenhos.  Não é exatamente um “movimento” novo mas tem a virtude de demonstrar a existência em África de intelectuais desligados dos poderes que procuram pensar em conjunto. Uma parte dos trabalhos apresentados não corresponderam às expectativas e mesmo algumas das abordagens carecem de aprofundamento. Porém, o importante é começar e continuar. Quer dizer, as iniciativas deste tipo não pode ser atos isolados ou intermitentes mas sim uma movimentação constante, capaz de lançar alguma luz e acabar com  a grande noite que se  abate sobre África, conforme refere (desde a capa) um livro de Mbembe.

A participação lusófona é mínima neste quadro, em parte porque os nossos intelectuais exprimem-se numa língua que os demais ignoram e raramente são traduzidos ou aparecem como muito partidarizados.

Na verdade, organizar o pensamento com base nas línguas oficiais não é a melhor forma no médio e longo prazo, mas a curto prazo é um ponto d e partida quase inevitável e com potencial de repercutir para além desses limites. A situação da intelectualidade afro-lusofona aconselha um encontro na base dos cinco PALOPs, para apresentação geral de ideias sobre as nossas sociedades e busca de dialogo com outros centros de pensamento voltados para contextos que, afinal, não são muito diferentes dos nossos.

Quando começamos a luta pela independência de Angola não tínhamos quaisquer reservas á inclusão nos grupos clandestinos de companheiros de outras então colônias residentes em Angola. No caso dos grupos em que militei haviam até ideias de criar um federação de Estados, pelo menos do lado do Atlântico e, nos primeiros núcleos do exilo, personalidades como Amilcar Cabral, Mario de Andrade, Marcelino dos Santos ou Hugo de Menezes, trabalhavam juntos, independente do facto de terem nascido em 4 países diferentes. Primeiro com o Movimento Anti-Colinialista (MAC) clandestino em Lisboa e atividades culturais abertas na medida do possível de então.  As evoluções posteriores são conhecidas. Na maior parte dos casos houve dispersão das lutas por país, gerando até desconhecimento das realidades dos demais. Mas alguns de nós continuamos a considerar que todo o cidadão dos PALOPs é um compatriota, seja de onde fôr.

Hoje as facilidades de contacto e os níveis de liberdade são muito maiores e esta Angola que existe fora de Angola pode ser uma base de estímulo  para fazer algo como a referida reunião de São Luís do Senegal.  Pensar as nossas realidades  sem nos olharmos como estrangeiros.

O pan-africanismo tem uma história de discursos congregadores e práticas de fragmentação. Na verdade a estreiteza de dimensões e de recursos da maior parte dos países africanos, torna-lhes muito difícil a descolagem, daí a importância das entidades de integração nas cinco macrorregiões  e cuja capacidade efetiva ainda  está por demonstrar –  até por serem determinadas por poderes em muitos casos nada propícios ao bom funcionamento, desde os direitos humanos à gestão publica e privada.

Mas há também poderes com preocupações e comportamentos a coincidirem com os anseios das sociedades.  No território de um deles poderíamos iniciar um ciclo de debate sério, com boa margem de repercussão. Entre pensadores dos PALOP para começar.

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