Papéis de prisão – um acervo para muitos estudos

O livro PAPÉIS DE PRISÃO é enorme em todos os sentidos: na diversidade de materiais que encerra; nas áreas do saber e da cultura que abrange; na qualidade dos testemunhos sobre a violência colonial, a resistência e as contradições da sociedade; na variedade de sentimentos que assolam um preso político que esteve encerrado em várias cadeias e no campo de concentração do Tarrafal durante doze anos.

Este livro de mais de mil páginas é constituído por anotações de factos e de conversas, comentários, análises sobre a situação, teorizações sobre literatura e cultura em geral e desenhos que Luandino Vieira inscreveu em cadernos que conseguiu conservar ou mandar para fora do cárcere, durante os anos em que esteve preso pelo regime colonial português em consequência das suas actividades nacionalistas em prol da independência de Angola.

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Das suas conversas com presos de delito comum dos musseques de Luanda, na cadeia, Luandino tira apontamentos e faz comentários sobre a realidade social de Luanda, regista letras de canções e tece considerações sobre o papel das línguas na literatura angolana e a linguagem da própria literatura em língua portuguesa (Luandino, na prisão, estudou o kimbundu, que fala e escreve).

De várias observações feitas no campo de concentração do Tarrafal apercebemo-nos das tensões entre os presos, das contradições existentes de ordem étnica e racial, da vontade de se saber o que se passa no Mundo, de projectos e especulações sobre o que seria e como deveria ser a Angola independente.

E há os tocantes relatos intimistas: a saudade do filhito e da mulher, a saudade da liberdade. E há a qualidade literária dos textos – sejam pequenas observações, sejam reflexões sobre vários temas – a qualidade a que nos habituou este consagrado elemento da literatura angolana, que é Luandino Vieira.

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Estamos perante uma obra plena de materiais de ordem sociológica, política, antropológica, literária que são preciosos para ajudar a compreender o facto colonial e muitos aspectos até agora escondidos do processo nacionalista que, necessariamente, reflectia as contradições da sociedade em que se inseria, as suas alienações, frustrações e ambições.

Os materiais foram organizados por uma equipa constituída por Margarida Calafate Ribeiro, Mónica V. Silva e Roberto Vechi e publicados pela editora “Caminho” em Novembro de 2015, com o apoio da Fundação Gulbenkian, em cuja sede foi solenemente apresentado este livro: PAPÉIS DE PRISÃO.

Logo após a sua publicação fiz-lhe referência pública. Volto a fazê-lo aqui, dada a importância desta obra e a relativa falta de atenção a que tem estado sujeita por parte de intelectuais da «Banda»

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