Portugal: MNE Português garante segurança da rede de comunicações dos Negócios Estrangeiros

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, garantiu nesta quinta-feira a segurança da rede de comunicações do ministério, admitindo que Portugal, como outros países, está sujeito a várias ameaças, nomeadamente de ciberataques. Ameaças essas, disse, conduzidas por “elementos que podem ser não estatais ou de origem estatal” e que “por vezes resultam em incidentes que têm sido resolvidos”.

A resposta do ministro dos Negócios Estrangeiros surge como reacção a uma notícia publicada pela revista Visão, segundo a qual piratas informáticos de várias proveniências, incluindo russos, terão conseguido entrar nas redes do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

“Garanto a segurança da rede de comunicações do Ministério dos Negócios Estrangeiros, em particular da nossa rede de segurança adicional, que é a chamada cifra” – usada para comunicações de carácter confidencial”, declarou o governante, escusando pronunciar-se sobre casos concretos que envolvam a segurança do Estado.

“A questão da segurança das nossas redes é prioritária, a avaliação da rede do MNE é permanente e as acções no sentido de a reforçar perante as diferentes formas de ameaças de que vamos tomando nota são também permanentes”, afirmou. Sem comentar situações específicas, Santos Silva frisou que o ministério vai “tomando medidas para resolver os incidentes positivamente e robustecer permanentemente a segurança da rede de comunicações”.

O domínio da cibersegurança, indicou, é um dos mais importantes ao nível da segurança internacional, das alianças e organizações a que Portugal pertence, bem como da segurança nacional. “O alerta foi dado pela primeira vez em Julho de 2017, quando o Palácio das Necessidades registou uma falha suspeita nas comunicações”, lê-se no artigo.

Segundo a Visão, um relatório preliminar do Centro Nacional de Cibersegurança detectou quebras na segurança do Ministério dos Negócios Estrangeiros e intromissão de piratas informáticos de vários países.

Fontes ligadas à análise do organismo responsável ouvidas pela Visão descrevem o processo como uma “auditoria”, mas o termo é rejeitado quer pelo Centro Nacional de Cibersegurança, quer pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros, que preferem a definição de “colaboração” entre as duas entidades.

Visão conta que, à data da eleição de António Guterres como secretário-geral das Nações Unidas, muitas das comunicações entre Nova Iorque e Lisboa podem ter caído nas mãos de vários hackers, que a partir daí entraram nas redes do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

“Nesse cenário, o que seria mais secreto ou sensível são as comunicações relacionadas com as demonstrações de apoio ou as mudanças de sentido de voto dos vários países. Há umas quantas conversas que não convêm que se saibam”, explicou à Visão o embaixador jubilado em 2013, Francisco Seixas da Costa.

O caso não teve consequências maiores, mas o facto de as comunicações terem sido violadas durante um momento crucial da política externa de Portugal levanta preocupações sobre a segurança nacional.

A análise continua a ser preliminar, devido ao volume de informação que está a ser investigada. Mas os primeiros dados recolhidos apontam para uma intrusão do grupo de piratas informáticos Fancy Bear ligados aos serviços secretos russos (FSB, ex-KGB) e que podem estar ligados aos ataques informáticos que antecederam as eleições presidenciais e que os EUA dizem terem sido coordenados “ao mais alto nível” pela Rússia.

Parte da informação violada permite conhecer a estrutura da rede do Ministério dos Negócios Estrangeiros “nos vários consulados e embaixadas, bem como credenciais de acesso usadas por administradores das redes diplomáticas”, escreve a Visão. Outra das fragilidades é o acesso a redes de internet públicas por parte de funcionários do MNE, que permitem infectar ficheiros cifrados.

Diz ainda a Visão que “fazer dos Fancy Bear a única ameaça à rede do MNE é redutor. Os serviços secretos chineses têm preferência por informação relacionada com a economia e propriedade industrial – e as redes de consulados e embaixadas também poderão ser usadas para vincular esse tipo de informação”.

O assunto terá até sido já discutido no Parlamento, com uma audição à porta fechada, onde o ministro dos Negócios Estrangeiros e Comunidades Portuguesas, Augusto Santos Silva, terá expressado preocupação com a proliferação de ataques de hackers que se tentam introduzir em redes diplomáticas.

“Há muito que se sabe que os Estados andam a fazer isto uns aos outros. É uma evolução previsível da espionagem”, afirmou à revista o director de Serviços de Auditoria da S21SEC, Luis Grangeia.

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