Portugal: O poder angolano já não é o que era

O poder angolano em Portugal está em trajectória descendente, sobretudo na vertente económica. O início de um novo ciclo político em Angola, materializado na eleição de João Lourenço para o cargo de Presidente do país, em Agosto de 2017, também contribuíram para desmontar um “status quo” que se impunha, tanto no plano interno como externo.

Angola, que em tempos recentes tinha meios financeiros para fazer investimentos no estrangeiro, perdeu essa capacidade com a queda do preço do petróleo, mais acentuada em 2015, e a consequente diminuição drástica das receitas da Sonangol.

A 6 de Abril de 2011, quando o então primeiro-ministro português, José Sócrates, pediu ajuda externa, as portas abriram-se ainda mais para Angola. Em 2006, Sócrates havia visitado o país, tendo conseguido quebrar o gelo com que José Eduardo dos Santos recebia governantes do PS.

Nesse mesmo ano, a Sonangol entrou, de forma indirecta, no capital da Galp. Em 2007, a petrolífera angolana comprou 2% do BCP e em 2012 tornou-se o maior accionista do banco, com 11,7% do capital.

Posições nas cotadas valiam 2,6 mil milhões de euros

Em 2009, o então chefe de Estado angolano visitou Portugal e as relações bilaterais consolidaram-se, até porque o Palácio de Belém era habitado por Cavaco Silva, porventura o político português mais respeitado pelo então poder angolano.

Em 2010, já com a economia nacional a dar os primeiros sinais de perigo, José Sócrates proclamava que o investimento angolano em Portugal “era muito bem-vindo”. Em Novembro de 2011, numa visita a Luanda, Passos Coelho, que entretanto havia chegado a primeiro-ministro, reafirmava a mensagem, dando-lhe ainda mais ênfase: o investimento angolano em Portugal é ” muitíssimo bem-vindo”. Os angolanos aproveitaram o tapete estendido e investiram em Portugal.

Em 2013, segundo cálculos publicados no livro “O Poder Angolano em Portugal “, as participações angolanas em empresas cotadas na bolsa portuguesa estavam avaliadas em 2,6 mil milhões de euros, repartidos pela então Zon (Isabel dos Santos), BCP (Sonangol e Interoceânico de Carlos Silva), Galp (Sonangol e Isabel dos Santos), BPI (Isabel dos Santos), Impresa e Cofina (Newshold de Álvaro Sobrinho).

Além destes investimentos, existiam muitos outros espalhados por áreas como a construção, casos da Construtora do Tâmega e da Soares da Costa. Posições na banca com Isabel dos Santos no então BIC (agora Eurobic) e o general Hélder Vieira Dias Júnior “Kopelipa ” no BiG, que ainda se mantém e na Controlinveste ( agora Global Media), através de António Mosquito.

Manuel Vicente, o conselheiro especial de João Lourenço

O processo de que Manuel Vicente foi alvo em Portugal ditou o seu futuro político, hipotecando as hipóteses de suceder a José Eduardo dos Santos. Um cenário que até agradou a alguns sectores do MPLA. João Lourenço bateu-se em defesa de Manuel Vicente, o qual tem retribuído, dando informação sobre a Sonangol e os meandros do poder que frequentou .

Isabel dos Santos empurrada do BPI

O que mudou de então para cá? Foi, por um lado, a dificuldade dos poderosos angolanos acederam a financiamento e, por outro, a de algumas estratégias, como as de conquistarem influência na comunicação portuguesa, terem falhado. Em paralelo, a origem do dinheiro começou a ser questionada e Comissão Europeia começou a fazer um escrutínio maior dos investimentos. A crise interna angolana fez o rosto.

Em Abril de 2016, o Governo de António Costa aprovava um decreto-lei que colocava um fim a limites accionistas na banca. Aquilo que podia ser entendido como uma lei geral foi analisada como uma forma de demolir o bloqueio que Isabel dos Santos tinha no BPI, permitindo que o CaixaBank assegurasse o controlo do banco. Resultado: Isabel dos Santos saiu mesmo do BPI e os espanhóis assumiram o controlo total da instituição.

Este caso foi um sinal de mudança nas relações económicas entre Portugal e Angola. O fim do processo Manuel Vicente abre uma era diplomática que João Lourenço quer diferente, mas ainda marcada pela incerteza.

” A lei portuguesa que colocou um fim à limites accionistas na banca visou Isabel dos Santos e o BPI.”

Protagonistas de um poder que se esfumou

José Eduardo dos Santos – Controlou durante 38 anos os destinos de Angola e todas as decisões estratégicas passavam pelo seu gabinete. Entre 2010 e 2016 esteve sempre na lista dos Mais Poderosos do Negócios e em 2013 ocupou mesmo a terceira posição.

Isabel dos Santos – Tem sido o maior alvo de João Lourenço. O novo Presidente demitiu-a da Sonangol e retirou-lhe várias concessões. Tem interesses fortes em Portugal, mas o seu grau de influência é escasso. Esteve na lista do Negócios entre 2012 e 2017.

Hélder Vieira Dias “Kopelipa ” – Tem investimentos pessoais em Portugal e estará a ser investigado pelo Ministério Público. O seu poder derivava do lugar de confiança que ocupava junto de Eduardo dos Santos. Esteve nos Mais Poderosos em 2012 e 2014.

Carlos Silva – Viu-se forçado a sair da administração do Millennium BCP e a sua relação com Manuel Vicente, do qual era aliado, ter-se-á deteriorado. Sempre foi muito discreto e perdeu capacidade de influência. É conhecida a sua rivalidade com Álvaro Sobrinho, que foi seu amigo e colega. Esteve nos Mais Poderosos entre 2014 e 2016.

Álvaro Sobrinho – Surgiu no lugar 37 da lista dos Mais Poderosos em 2015. Já havia sido afastado do BESA, mas tinha um poder destrutivo de natureza efémera em relação a Ricardo Salgado que usou no caso GES. Quis ser influente na comunicação social portuguesa e falhou. É actualmente o maior accionista privado do Sporting Clube de Portugal com quase 30% das acções do clubes Alvalade .

Fonte: Negócios

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