Portugal: Serviço de Informações de Segurança (SIS) alerta polícias para efeito “rastilho” do abuso da força

Um relatório do Serviço de Informações de Segurança (SIS), feito na sequência dos incidentes do Bairro da Jamaica, vem chamar a atenção para os potenciais riscos de intervenções policiais em bairros críticos, com uso desproporcional da força.

No entender dos analistas do SIS, actuações desta natureza podem servir de “rastilho” ( é este o termo utilizado no relatório) a respostas mais violentas, como aquelas que acabaram por suceder, com incêndios e cocktails Molotov arremessados contra esquadras, mas também contribuir para um sentimento de injustiça por parte da população que nada tem a ver com a violência.

O documento foi partilhado por todas as forças e todos os serviços de segurança esta semana e é entendido por fontes policiais como um aviso à PSP, que tem responsabilidade sobre a maioria das designadas “zonas urbanas sensíveis (ZUS)”.

Não é a primeira vez que o SIS produz um relatório desta natureza. Em 2017, na sequência de despejos no bairro 6 de Maio, na Amadora, os espiões alertaram para o efeito da mediatização excessiva das operações policiais naqueles bairros, relacionando- a com o sentimento de revolta, discriminação e estigmatização dos seus habitantes, a maioria negros.

” Nada de que não tenhamos noção. Todas estas intervenções são analisadas”, garante um oficial da PSP que acompanha estes casos. Aliás, alguns altos responsáveis contestaram internamente, junto da Direcção Nacional, a actuação da brigada no Bairro da Jamaica.

Esta posição crítica sobre o modus operandi poderá assumir maior consistência quando for conhecido o resultado do inquérito a cargo da Inspecção Nacional da polícia portuguesa.

Fontes que estão a acompanhar o processo acreditam que, tendo em conta o que já foi apurado, os agentes podem mesmo vir a ser alvo de processos disciplinares.

Na Polícia de Segurança Pública (PSP) há uma preocupação particular, tendo em conta uma avaliação da sua “inteligência”. Pode existir “uma agenda oculta das organizações criminosas instaladas em ZUS para afastar a polícia e movimentarem-se à vontade”, salienta fonte das autoridades.

Para os analistas da PSP, “a guetização interessa aos gangues para tornarem os bairros plataformas de venda de drogas e armas”. E “as acusações de racismo inserem-se nessa estratégia, sendo o Jamaica só um exemplo. Os gangues têm interesse em provocar divórcios entre a população local dos bairros e a PSP, para poderem actuar à vontade na sua actividade criminosa”.

Fonte: Diário de Notícias.

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