Privatização da areia ameaça emblemática Praia Morena de Benguela

O areal da emblemática Praia Morena, em Benguela, celebrizada na voz de vários cantores angolanos, tem vindo a diminuir nos últimos anos, não pela ação do mar, mas pela construção desordenada de equipamentos, que agora enfrenta a contestação popular.

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“É um bem público, a praia, que está ser usurpada por indivíduos, alguns endinheirados e com influência na nossa sociedade, em detrimento do acesso livre que as pessoas tinham, infelizmente, ao que resta da Praia Morena. Depois disto, já não resta nada”, começou por explicar à agência Lusa Felisberto Amado.

Aos 56 anos, este arquiteto benguelense é um dos rostos da contestação da sociedade local à construção de empreendimentos de lazer que vai tomando conta do areal da Praia Morena, que em dias de sol, sobretudo aos fins de semana, recebe milhares de angolanos e de turistas.

Contudo, só nos últimos meses já foram construídos dois restaurantes em pleno areal, cada vez mais diminuto. A gota de água foi o início da construção de um Complexo Desportivo, com uma área total de 1.312 metros quadrados, na praia, que levou a população a mobilizar-se em defesa do acesso à praia, inclusive com manifestações no local, já vedado e em obra.

“Dois empreendimentos já estão construídos e a funcionar, o terceiro foi a gota que fez transbordar o copo, mas há quem diga que estão previstos mais dois”, conta Felisberto Amado.

Um grupo de cidadãos avançou mesmo com uma providência cautelar e já este mês o tribunal aceitou os argumentos, decretando, anunciaram os promotores, a paragem desta obra, cuja placa no local sinaliza a aprovação da mesma de 16 de janeiro de 2018, em plena zona conhecida como “Pequeno Brasil”, na Praia Morena, promovida alegadamente por um investidor estrangeiro.

“É um cartão postal de Benguela, é cantada por alguns artistas de renome da nossa sociedade e que, infelizmente, contra todas as regras, urbanísticas e civilizacionais, está a ser privatizada”, critica Felisberto Amado.

Considerada uma das províncias mais turísticas de Angola, onde inclusive funciona o segundo aeroporto internacional do país – depois de Luanda -, a revolta cresce, conta o arquiteto e rosto mais visível da sociedade civil local, ao ver as praias de Benguela, ao longo de vários quilómetros, até à Baía Azul, hoje “completamente ocupadas e de forma anárquica”, mas “que deviam ser potenciais turísticos”.

Por ironia, como aponta Felisberto Amado, precisamente em frente ao que resta da Praia Morena, entre as construções dos últimos meses, funciona uma faculdade que leciona o curso de licenciatura em Gestão e Ordenamento do Território.

“Em frente está tudo o que se aprende que não se deve fazer”, afirma o arquiteto, alertando desde logo para os riscos que as próprias construções já feitas na praia enfrentam, devido às calemas (marés vivas) que costuma “varrer” todo o areal.

“E as autoridades nada fizeram”, critica ainda, explicando que só a “abertura” que se vive em Angola, após as eleições gerais de agosto passado, permitiu a mobilização da sociedade para contestar a “privatização” daquela histórica praia.

“Tem de haver princípios que todos têm de cumprir. Não pode ser uns que cumprem e estão sujeitos à lei e outros que a lei não lhes toca. Isso cria injustiças, desequilíbrios e revolta nos cidadãos”, explica.

A prioridade, defende Felisberto Amado, passa por salvar o que resta da praia e dar o exemplo sobre o ordenamento do território: “Não se pode recuperar tudo, mas se facto se estancar, passa-se uma mensagem à sociedade que há regras e que têm de ser cumpridas, seja por quem for. Se não for assim, vai ser um Deus nos acuda”.

Fonte: Lusa

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