“João Lourenço é um exemplo de que as democracias podem funcionar em África”

A escolha dos entrevistados será muito eclética e com entrevistas livres, leves , soltas e dinâmicas. Na primeira edição, a escolha vai para Nicolau Santos, presidente do conselho de administração da agência Lusa, precisamente no mês em que assinala 38 anos de exercício da actividade jornalística. E outras seguirão.

Prontidão Informativa é também o regresso do jornalista Armindo Laureano ao género jornalístico que muito aprecia e se empenha, tendo já sido por isso agraciado com o Prémio Maboque de Jornalismo 2014 na categoria de entrevista.

 

 

Armindo Laureano: Nicolau Santos, nascido e criado em Luanda, só voltou em missões oficiais, angolano de segunda geração, não foi fácil adaptar-se à vida cá em Portugal, e quando cá chegou com 20 anos em 1975, é conhecida uma frase sua “levei cinco anos para ser lisboeta e 10 anos para ser português”. Esta afirmação continua válida?

Nicolau Santos: Continua completamente válida. Completamente válida, e eu tenho muita consciência de que os meus primeiros cinco anos em Lisboa foram muito difíceis, e depois, enfim, acabei o curso universitário que estava a tirar, tinha vindo de Angola já no terceiro ano, mas aqui tive de voltar ao segundo ano por causa das equivalências, acabei o curso em Lisboa, mas os primeiros cinco anos foram claramente muito difíceis. Só para ter uma ideia, um aspecto caricato, eu quando vim de Angola trazia um cabelo afro, completamente afro. Bom, e o que aconteceu é que nos primeiros meses caía-me tanto cabelo, mas tanto, que cada vez que eu tomava banho tinha que cortar o cabelo. Pronto, (risos), deixei de ter uma cabeleira afro porque a mudança foi radical. O estilo de vida, a comida, eu fui viver para o outro lado, para o Pragal, para a parte de cima de Almada, tínhamos de nos levantar todos os dias às 5h30, 6 da manhã para estar na universidade às 8, apanhar autocarros, barcos, etc., e portanto foi uma alteração completa.

AL: E viveu com o rótulo de retornado?

NS: Não, isso eu recusei sempre. Eu sempre achei que havia uma distinção entre os retornados e os devolvidos. Os retornados são os que tinham ido para lá e tinham voltado. Eu já lá estava, de segunda geração, como aliás foi dito, portanto eu tinha, quanto muito, sido devolvido à origem. E portanto essa foi a diferença. Não, eu nunca senti isso, sempre me recusei, aliás a minha mãe e o meu pai também, nunca recorremos ao IARN, nunca nos envolvemos em actividades de contestação, etc., tivemos sempre bastante  longe disso, sobrevivemos sem isso, felizmente , e nunca me senti retornado. E continuo a sentir-me meio angolano.

AL: Angolano para toda a vida…

NS: Sim. Eu, enfim, a minha actual mulher, que é portuguesa, embora tenha nascido em Moçambique, não compreendo como é que nós, – um grupo de amigos, que veio todo de Angola – que adoramos comer moamba, por exemplo. Ela que é uma excelente cozinheira, acha que a moamba não é uma comida muito elaborada; eu acho que é a melhor comida do mundo (risos), mas não há volta a dar. E portanto uma moamba é sempre qualquer coisa de extraordinário e é o que nos reúne à mesa, e com os amigos, e a música, a poesia, e falar de Angola… Enfim, é isso.

AL: Ainda guarda memória daqueles tempos em Luanda, no bairro onde nasceu?

NS: Sim, eu guardo muitas memórias, e aliás estive lá agora em vários sítios, estive no restaurante São João, que fica mesmo na esquina da rua – que altura chamava-se Fernão de Sousa, agora não sei como se chama. São dois prédios de três andares, nós morávamos no último andar. Nessa rua o meu pai foi atropelado uma vez a sair de casa, portanto lembro-me de tudo, a minha mãe era diretora do colégio Augusto Gil, que é nessa rua a descer que vai dar à Brito Godins, à antiga Brito Godins , e que agora tem uma pizzaria à frente, antes de se entrar para o colégio, o colégio Augusto Gil. Lembro-me de tudo, é evidente. Depois fomos viver para a rua Barbosa Bocage que tinha a farmácia Maculusso de um lado e a Sagrada Família do outro. A baía está lindíssima, a baía hoje em dia está muito melhor do que existia, muitíssimo mais bonita.

 

 

AL: Então faz parte daquele grupo de “Nós os do Maculusso”?

NS: Eu não  gosto de me intitular “Nós os do Maculusso”; acho que é um pouco exagerado, porque o grupo “nós os do Maculusso” tem uma história de libertação obviamente, que eu não tenho. Vivia na rua no Maculusso, na Farmácia Maculusso e portanto gosto muito do bairro Maculusso.

AL: Nicolau, quem nasceu para ser jornalista não chega a banqueiro. Perdeu a banca, mas ganhou o jornalismo?

NS: Bom, isso é uma história muito curiosa porque quando acabei de me formar, em 1980, cheguei a casa e disse à minha mãe – o meu pai até tinha entretanto falecido – “mãe, tirei o curso, agora vou ser jornalista”. Bom, a minha mãe quase que desmaiou, e durante anos, e anos e anos foi me dizer “oh filho, tu agora podias deixar de ser jornalista e ter um emprego sério, ir por exemplo para um banco”. E passados estes anos todos, e com o que aconteceu aos bancos, eu digo “mãe, apesar de tudo talvez não tenha sido mau eu ter sido jornalista, em vez de ter ido para a banca (risos)”.

AL: O jornalismo é um ofício  que entra pela vida, condiciona a vida das pessoas, e entra também de forma muito forte na vida das pessoas.

NS: Ah, sim, eu não tenho nenhuma dúvida que o jornalismo é uma paixão. Quem vem para jornalista, fica toda a vida jornalista. E portanto acho que o jornalismo é realmente uma das melhores profissões do mundo. Infelizmente  estamos a viver tempos muito difíceis.  Eu quando comecei no jornalismo em 1980 aqui em Portugal, o jornalismo era uma profissão…

AL: Há 38 anos…

NS: Era uma profissão quase marginal, as pessoas não eram bem vistas, as pessoas que estavam no jornalismo não eram pessoas… Eram pessoas que tinham feito a tarimba, muitas delas não tinham estudos, eram bons jornalistas mas tinham ido para jornalismo, mas por vocação mas não por especialização. Depois disso as coisas mudaram muito. Houve muitas pessoas com frequência universitária ou mesmo cursos universitários que entraram no sector. A entrada das televisões privadas no mercado levou a que os salários dos jornalistas aumentassem muito nos anos 90, final dos anos 80. Portanto o jornalismo conheceu em Portugal um período de ouro nessa altura, passou a ser uma profissão muito respeitada, e hoje infelizmente estamos a entrar numa fase de declínio muito acentuado. Há uma enorme, uma brutal quebra de receitas, na rádio, na televisão, nos jornais. Há uma fuga, quer de leitores, quer de ouvintes, espetadores, mas também fuga de publicidade, para o Google, por exemplo, ou para o Facebook, e isso é dramático. As redacções estão-se a despovoar de pessoas com mais experiência, com mais idade, com mais memória, e estão a ser contratados jovens de inúmeros talentos, nomeadamente para poderem trabalhar em multiplataformas, mas que não têm uma série de memórias que existem e que são necessárias. Por exemplo, eu lembro-me que no Expresso, quando morreu o General João de Matos, havia duas pessoas na redacção que sabiam quem era o General Matos. Eu, e por acaso a actual directora de Informação da Lusa, que é a Luísa Meireles, que trabalhava lá. Mais ninguém sabia quem era o General João de Matos. E portanto, isto é para dar uma ideia de que, eu não digo que o jornalismo hoje está pior, acho que estes jornalistas actuais, a trabalhar nas redes multimédia são de longe muitíssimo superiores à minha geração. Têm é um problema de falta de memória e falta de condições. Hoje as condições são muito mais duras para os jornalistas do que foram nos anos 80, 90, 2000, a partir daí as coisas começaram-se a degradar.

AL: Falando nisso, Nicolau, eu estive num congresso de jornalistas portugueses e uma das grandes preocupações foi mesmo esta. A precariedade do trabalho dos próprios jornalistas também, em Portugal ao abandono da profissão, e é de facto importante que é consensual esta ideia das actuais redacções em Portugal estarem a ficar sem memória. Quer comentar?

NS: É, esse é um problema crucial. Eu percebo que, face à quebra das receitas, as administrações têm de fazer alguma coisa. Mas tem de haver um equilíbrio entre preservar memória, preservar a experiência, preservar o saber fazer com as novas tecnologias, com a distribuição de toda a informação nas diferentes plataformas, com a produção, não só de texto, mas sobretudo de vídeo, hoje em dia, de vídeo, de voz, passou a ser fundamental em matéria de jornalismo, mas eu penso que há uma batalha fundamental a travar. É necessário cada vez mais um jornalismo de qualidade face ao que se passa nas redes sociais e às chamadas fake news. Hoje em dia as pessoas, camadas da população que olham, ou lêem o que está nas redes sociais e acreditam que é verdade absoluta o que está lá. Não têm nenhum filtro de que aquilo não é jornalismo, aquilo não foi confirmado, aquilo não se sabe se é verdade, se não é verdade, mas as pessoas acreditam. E portanto acho que o jornalismo hoje em dia é muitíssimo mais importante. Agora não sei se tem condições para exercer esse papel.

 

 

AL.: Agora deixou de haver essa mediação, o jornalista deixou de ser um mediador entre a informação e o publico. Como é que isso se vai relacionando? Porque eu hoje falo que o jornalismo concorre com essas novas formas de comunicação que também vêm colaborar com uma certa e determinada informação. Como é que o Nicolau vê isso? É um desafio para o jornalismo ou se calhar a perda do seu papel de influência?

NS: Bom, eu penso que é um enorme desafio para o jornalismo e para os jornalistas. E eu condeno e critico aquilo que se tem vindo a passar em muitas redacções, que é, seguir o que está a acontecer nas redes sociais. É fundamental que os jornalistas das redacções tenham a sua própria agenda. E que não vão atrás das redes sociais, porque está a dar, porque há muita gente que está a ver uma notícia. Isso não é jornalismo, isso é outra coisa, não é jornalismo. E portanto, eu penso que isso é um enorme desafio. Há um risco, porque eu tenho assistido a uma colagem excessiva das redacções, nomeadamente ao que se passa nas redes sociais. Agora, devo dizer que não é fácil combater isto. Eu acho que isto se combate com jornalismo de qualidade, com jornalistas que sigam os princípios básicos do jornalismo, que é, face a cada notícia, é necessário confirmá-la, é necessário saber se é verdadeira, é necessário confrontar as fontes com informação, é necessário escrever bem, boa informação, e passar essa informação. Ou seja, apesar de tudo os sites que têm uma marca jornalística por trás, são muito visitados. Portanto há alguma esperança de que, talvez possamos ter um papel neste mundo informativo global. Agora, que é difícil é, porque houve muita gente que interiorizou que o facto de escrever alguma coisa no Facebook passou a ser jornalismo. E isso não é jornalismo, ponto final.

AL: Não é o caso do Nicolau que é um jornalista de papel. Nasceu no papel, gosta do papel, gosta do cheiro, mas reconhece que hoje – e foi dito por si – que a aposta deve ser nesses vectores do vídeo e dos projetos online, são os vectores que estão a crescer muito hoje?

NS: Não tenho nenhuma dúvida, hoje em dia a possibilidade que nós temos de crescer em matéria – já agora é algo que é importante para todos os órgãos de comunicação social, que é aumentar receitas – é sobretudo nos projectos online e nos projectos de vídeo. Eu penso que se nós fizermos boas histórias que possamos passar nessas duas plataformas elas terão leitores e haverão entidades interessadas, outros órgãos de comunicação social, ou mesmo que não sejam de comunicação social, interessados em patrocinar, ou em pagar por esses conteúdos. Nós aqui por exemplo na Lusa definimos uma estratégia que me parece que é importante para Angola, mas é importante também para nós, ou seja, que é aumentar a nossa produção, claramente em Angola, quer de texto, quer de vídeo, e depois legendá-la em inglês, transformá-la em inglês e vendê-la a grandes operadores internacionais. Há um enorme interesse hoje em dia pelo que se passa em Angola, do ponto de vista político, económico, social, etc., mas quando nós disponibilizamos esses conteúdos em português, o New York Times diz-nos “nós precisamos disto noutra língua”. E portanto nós estamos a fazer um enorme esforço de aumentar a produção lá, de aumentar quer em número de pessoas, quer em material, que mandámos já para Angola, e com esse aumento de produção nós vamos traduzi-lo e sobretudo tentar colocá-lo nos grandes operadores internacionais anglo-saxónicos, mas também no eixo Macau-Pequim, onde eu irei na próxima semana. Irei a Macau, precisamente, porque penso que na China existe também um enorme interesse sobre o que se passa em Angola.

AL: Ou seja, as comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo acabam também por ser esta prioridade da sua gestão aqui na Lusa. Falo por exemplo do acordo com o fórum da Diáspora portuguesa?

NS: Nós fizemos um acordo com o fórum, temos uma diáspora, como se sabe; em Portugal, como se sabe, os cálculos que existem é de cerca de cinco milhões de portugueses fora de Portugal – portugueses ou luso-descendentes – e Portugal tem uma população à volta de 10 milhões. Portanto é só para ter uma ideia da importância enorme da comunidade portuguesa. Muitos destes elementos da comunidade atingiram posições de relevo nas sociedades onde se inserem; o acordo que nós fizemos é, não só disponibilizamos o nosso serviço de forma gratuita às comunidades portuguesas, mas o acordo que fizemos vai mais além, é incluir no nosso site, quer as actividades que as comunidades vão desenvolvendo no dia-a-dia – e nós isso não conseguimos acompanhar – quer a possibilidade de ter o contacto de todos os conselheiros portugueses espalhados pelo mundo para em qualquer situação os podermos contactar. E enfim, vamos tentar ver se existem outras formas de colaboração que possamos aprofundar.

 

 

AL: A Lusa assinou recentemente três protocolos de cooperação com instituições públicas angolanas. Dois com a Rádio Nacional de Angola ( RNA) , e um com a Televisão Pública de Angola (TPA), todos eles visam áreas como a da formação, troca de experiência e partilha de informação. Gostaríamos de perceber um bocado mais sobre estes acordos?

NS: Bom, estes acordos têm a ver, no caso da TPA têm a ver essencialmente com a área da formação, em particular de vídeo. É uma das áreas onde nós iremos trabalhar, no quadro da estratégia que eu referi há pouco.  É muito curioso e eu diria quase comovente que o actual presidente do conselho de administração da TPA , o José Guerreiro, que foi meu colega de curso de Economia da universidade de Luanda. Nós conhecemo-nos há muitos anos, tivemos várias, enfim, não direi desavenças políticas, mas desacordos políticos sobre os caminhos de Angola no passado. Hoje em dia acho que estamos muito próximos da matéria de avaliação da análise política em Angola e eu acho que eu é que estava certo, mas isso não interessa nada (risos). Mas foi com ele que assinei, foi muito gratificante e portanto vamos trabalhar com a TPA na área da formação. Com a Rádio Nacional de Angola são dois tipos de protocolos, também formação, que é uma das áreas onde a Lusa tem já uma tradição muito grande, mas outro tem a ver com o apoio à Rádio Nacional de Angola, por exemplo nas visitas do Presidente João Lourenço ao exterior para apoiar a Rádio Nacional de Angola, através do fornecimento de noticiários ou de meios técnicos ou outro tipo de coisas, porque a Rádio Nacional de Angola tem algumas debilidades em termos de equipamentos, de meios, etc., e portanto para não falhar nada pelo menos fica com esta rede de protecção que é a Lusa, para que as visitas do Presidente João Lourenço, que ao contrário do Presidente José Eduardo dos Santos sai muito para o exterior, e portanto precisa de um acompanhamento bastante maior dos meios de comunicação, e portanto nós estamos a fazer isso, a Rádio Nacional de Angola fez um protocolo connosco nessa área de 3 meses, já o renovou e portanto devem estar contentes e nós estamos muito contentes que eles estejam contentes (risos).

AL: E há uma pergunta que não pode escapar. E o acordo da Lusa com a sua homóloga angolana, a ANGOP?

NS: Bem, o acordo da Lusa com a minha homóloga angolana, com a nossa homóloga angolana ANGOP está um bocadinho preso por detalhes. É um acordo que tem também as duas componentes. Tem a componente da formação, e essa suponho que não haverá nenhum problema. Tem um problema de troca de informações. Nós fornecemos gratuitamente à ANGOP quase todo o nosso serviço e gostávamos de ter algum gesto idêntico, pelo menos de acesso à agenda da ANGOP do dia-a-dia para haver uma reciprocidade. Isso, até agora, por razões que nos escapam, não tem acontecido, mas eu acho que; já falei três ou quatro vezes com o doutor José Isaías, acho que as coisas se vão resolver, obviamente, e queremos muito que elas aconteçam, porque efectivamente quem é nosso gémeo siamês é a ANGOP, e não a TPA nem a Rádio Nacional, não é? E portanto, acho que vai acabar por se resolver.

AL: Nicolau, nesta visita a Angola conseguiu perceber que há já na sociedade angolana uma percepção do papel do jornalismo na afirmação da democracia? Tem acompanhado o jornalismo que se faz em Angola? Tem tido ideia daquilo que tem estado a acontecer?

NS: Bom, é muito curioso que existindo uma ideia, enfim, certos meios de que Angola durante o tempo de José Eduardo dos Santos quase que vivia numa ditadura, e que não podia haver vozes de oposição, era sempre interessante, na última vez que eu tinha ido lá tinha sido em 2008, suponho eu, antes destas últimas, e encontrar uma imprensa de fim de semana , limitada, não vendia muito, mas muito agressiva, muito contundente, muito… Enfim, não sei se era tudo verdade, se não era, mas o que é certo é que existia e era muito contundente, e portanto havia essa ideia de que não havia liberdade de expressão em Angola, não é verdade. Agora, o que se assiste hoje em dia, e hoje em dia as coisas também tornaram-se mais fáceis porque também, lá está, por meios virtuais recebo alguns jornais angolanos, O País, e outros, e vêem-se duas coisas, ou seja, um enorme aumento de qualidade, claramente na escrita, na preocupação com os temas, na orientação editorial, e depois também um grande cuidado do ponto de vista do design gráfico, de agradar, de ser um produto agradável ao leitor. E isso para mim é uma mostra evidente de aumento de qualidade. Na televisão acompanho menos, vejo alguns programas, enfim, eu acho que as televisões passam todas pelo mesmo, têm os programas de entretenimento, que a gente gosta mais ou menos, enfim, e depois tem os programas de informação, que são mais ou menos, enfim, eu suponho que está a haver uma abertura clara na TPA, segundo me dizem, não tenho acompanhado exactamente, mas em termos de pessoas que vão falar. Eu fui entrevistado, quando estive em Angola pela TV Zimbo, e achei de um enorme profissionalismo tudo o que vi na TV Zimbo, e penso que realmente os meios de comunicação em Angola estão numa fase boa, claramente, eu diria quase melhor  do que aquela que neste momento se atravessa em Portugal, porque acho que estão numa fase de crescimento, de expansão, enquanto que nós aqui estamos numa fase de regressão e de encolhimento.

AL: Duas questões sobre o mesmo tema mas numa vertente completamente diferente. Por exemplo, para Angola, sente que há uma maior abertura das instituições mesmo ligadas ao poder, e não só, da sociedade, em Angola, em relação aos órgãos de comunicação social portuguesa? Olha, uma SIC, já voltou a entrar, um Expresso, já é visto também de outra forma, o Correio da Manhã, sendo que já novos indícios,  já não há também no ar aqueles editoriais muito agressivos do Jornal de Angola com relação aos órgãos de comunicação em Portugal, e do outro lado também, sendo que no actual momento a imprensa portuguesa já faz abordagens com um outro impacto, com uma outra dimensão, com uma certa leveza, não tanta dureza do passado?

NS: Eu penso que sim. Penso que há claramente, e por mérito indiscutível de Angola do Presidente João Lourenço e das pessoas que apanho, há claramente uma outra imagem de Angola que se tem vindo a instalar, e não só em Portugal, tem-se vindo a instalar em todo o Mundo, e daí o interesse claro e notório de muitos órgãos de comunicação social internacionais, pelo que se está a passar em Angola, mas não só, para investidores também, que procuram saber o que está a acontecer, se há novas leis para investimento, etc. Eu diria que, enfim, o meu caso é que eu posso dar como exemplo, enfim, passando em modéstia, há dois ou três anos fui alvo de um editorial de um jornal de Angola onde era apelidado o vómito luso-angolano, e agora quando fui a Angola, fui não só recebido pelo director do Jornal de Angola como entrevistado pelo Jornal de Angola, como tive uma fotografia na primeira página e como nos altos e baixos saí a subir no Jornal de Angola. Portanto pelo menos claramente as coisas mudaram, pelo menos no Jornal de Angola mudaram claramente. Eu diria que, também da parte da Comunicação Social portuguesa, acho que há hoje em dia um olhar completamente diferente sobre Angola. É evidente que haverá sempre quem levante problemas, agora penso que, claramente há uma grande esperança neste novo caminho que Angola está a trilhar, um novo recomeço, quase que eu diria, isso leva a que encha de orgulho todos os que gostam de Angola, que passaram por lá ou que nasceram, mas que vivem em Portugal, porque Angola é um país demasiado precioso, demasiado importante para os portugueses para que nós não nos regozijemos com as coisas boas que ocorrem em Angola, mas que também não nos entristeçamos com aquilo que não corre bem em Angola e enfim, algumas divergências que eu tive, por exemplo, com o José Guerreiro, foi porque eu achei que ele confundia, em certa altura, confundia Angola com quem estava a governar os destinos de Angola. E Portugal não é o professor Marcelo Rebelo de Sousa, por mais que nós gostemos do professor Marcelo Rebelo de Sousa, nem o doutor António Costa, por mais que nós gostemos do doutor António Costa. Portugal está muito acima dos nossos representantes, estes estão, neste momento vão passar, em Angola houve uma altura que parecia que nunca iria acontecer outra situação senão a família José Eduardo dos Santos governar Angola, e portanto eu acho que os últimos anos foram particularmente penosos, para quem gosta de Angola quando se viu que o filho do Presidente era nomeado para o Fundo Soberano, a filha do Presidente era nomeada para presidente da Sonangol, isso para quem pensa que deve haver uma distinção clara entre quem governa e depois quem dirige as empresas, quem actua e que deve actuar do ponto de vista profissional, eu penso que esses momentos foram momentos muito difíceis, e que levaram a muita crítica aqui de Portugal e dos meios de comunicação portugueses em relação a Angola. Acho que hoje em dia, todos os sinais são, ao contrário disso…

 

 

AL: Era isso que também lhe queria perguntar, como é que olha para a governação hoje em Angola?

NS: Bom eu penso que, eu estou surpreendido, em primeiro lugar, com o ritmo das mudanças, ou talvez antes disso, eu estou surpreendido, porque havia muitas dúvidas se o Presidente João Lourenço não teria feito vários pactos com o Presidente José Eduardo dos Santos, de deixar as coisas na mesma como estavam, durante três anos ou dois anos, etc., não tocar em ninguém, não mexer em ninguém. Portanto, em primeiro lugar provou-se que o Presidente João Lourenço pensa pela sua cabeça e actua por si, em segundo lugar que não pactua e que tinha uma análise muito crítica sobre a situação que se vivia, o que eu acho que só abona a favor dele; em terceiro lugar a rapidez com que ele tem actuado em relação a uma série de sectores e de áreas; e em quarto lugar, à profundidade com que o tem feito. Se nós olharmos um pouco, e mesmo à distância de 7 mil km para o que se passa em Angola, eu diria que praticamente todos os apoiantes, principalmente do ponto de vista económico, militar, do Presidente José Eduardo dos Santos foram afastados, ou estão na penumbra neste momento, e portanto isto era impensável há dois anos. O Presidente João Lourenço leva um ano de mandato, portanto é extraordinário o que ele tem feito, é extraordinário as novas definições que ele fez, políticas, estratégicas a nível internacional, e é extraordinário o facto de ele ser hoje em dia, um presidente que está não só muito mais próximo da população angolana, como um presidente que é altamente cosmopolita e  que tem visitado um conjunto de capitais – internacionais, obviamente, tentando encontrar apoios para Angola que são necessários, porque Angola vive uma fase difícil, como muitos países vivem, uma situação que ele herdou, mas que está a tentar mudar. Portanto eu diria que o Presidente João Lourenço é neste momento um exemplo de que as democracias podem funcionar em África e que as pessoas fazem toda a diferença. E o Presidente João Lourenço está a fazer toda a diferença ao que se passou, eu não diria nos últimos 37-38 anos porque acho que é demais, porque houve fases muito boas do Presidente José Eduardo dos Santos, mas seguramente nos últimos 4-5 anos é radicalmente diferente.

AL: E esse combate, essa ideia do combate à corrupção, o nepotismo, a impunidade, acaba por ser isso. Estão a ter efeitos práticos, de certa forma acaba por ser uma estratégia acertada.

NS: Eu não tenho dúvida nenhuma sobre isso. Uma das coisas, das imagens que pesava mais negativamente sobre Angola era as sucessivas acusações de corrupção, de compadrio, de haver sempre alguém que tinha de receber uma percentagem dos negócios, etc. e hoje em dia isso está claramente afastado, e aliás o caso mais notável é o facto de o anterior ministro dos Transportes ter sido destituído e não sei se está mesmo detido neste momento. Portanto, ter sido afastada também a pessoa que estava à frente da Fundação José Eduardo dos Santos, enfim, eu acho que os sinais vão todos no sentido correcto, é que é impressionante. Uma pessoa até podia dizer, bom, até acertou umas vezes, errou outras. Eu penso que até agora, não errou de certeza tudo o que fez, e portanto espero que continue, desejo longevidade.

AL: Uma das exonerações do “Exonerador  Implacável, que eu creio ter visto na altura, o seu comentário que mais admirou na altura foi um mês depois da exoneração de Isabel dos Santos do cargo de PCA da Sonangol. Não esperava que fosse tão cedo?.

N.S.: Não, não esperava que fosse tão cedo, e porquê? Porque ao contrário de outras pessoas que rodeavam o Presidente José Eduardo dos Santos, a engenheira Isabel dos Santos tem uma reputação de competência nas áreas onde está. É evidente que eu sei bem, que algumas dessas áreas onde ela está, ela entrou porque tinha alguém por trás, que tinha um privilégio de nascimento, obviamente. Não tenho dúvidas sobre isso. Mas, se falar por exemplo com alguns dos gestores, empresários, aqui de Portugal, com quem ela tem relações, todos eles dizem que ela está a um nível ‘top’ europeu, mundial, etc. Portanto ela tem uma reputação de competência nas áreas onde se coloca. Eu penso que foi um enorme erro ela ter aceite a Sonangol, e não sei se a decisão não foi tomada um pouco por desespero, por não haver ninguém, e pelo Presidente José Eduardo dos Santos precisar de alguém de absoluta confiança para ir para a Sonangol. Como se sabe, era e penso que continua a ser a principal geradora de recursos para o estado angolano, para o orçamento angolano, etc. Mas penso que foi um enorme erro ela ter aceite, misturar os seus negócios privados, embora alguns com o beneplácito do Estado, meter-se numa área claramente pública. E portanto, eu diria que face a essa imagem que ela tinha, às alterações que tinha vindo a fazer dentro da Sonangol, ela era, depois do Presidente José Eduardo dos Santos, a pessoa mais poderosa em Angola, não tenho grande dúvida sobre isso. E, portanto o seu afastamento, ao fim de tão pouco tempo, foi um sinal inequívoco de que, em primeiro lugar o presidente João Lourenço não era um “ factótum” do Presidente José Eduardo dos Santos e que não ia ter contemplações com situações dúbias que pudessem indiciar casos de compadrio, de corrupção, etc. e portanto foi surpreendente mas foi um enorme sinal para toda a comunidade internacional. E eu suponho que foi a partir desse momento que o Presidente João Lourenço ganhou as suas “esporas de cavaleiro”, como se diz, e passou a ser olhado de outra maneira por todo o mundo.

AL: Qual pode ser o papel agora de Isabel dos Santos na governação de João Lourenço, uma vez que ainda é a empresária mais rica de Angola, é uma peça ainda importante no xadrez ou já não?

NS: Eu penso que a engenheira Isabel dos Santos nunca tinha manifestado ambições políticas. Eu penso que ela está virada para os seus negócios, e que será nessa base que irá continuar a desenvolver a sua actividade. Eu penso que se chegar à conclusão de que ela para gerir os seus negócios, não praticou actos ilegais; eu penso que é importante para Angola ter empresários que tenham capacidade de criar coisas, de ter empreendimentos, de dar emprego; eu suponho que os seus supermercados Candando dão emprego a muita gente, a Unitel, e por aí fora. Que é uma operadora de telecomunicações importantíssima em Angola, e eu penso que em relação a isto que a engenheira Isabel dos Santos tem de provar a ela própria e também às pessoas que olham para o seu trajecto, é se ela tem capacidade para operar em situações de concorrência normal do mercado sem ter uma rede por trás a defender os seus negócios. Mas eu penso que ela é capaz de fazer isso e suponho que o Presidente João Lourenço conseguirá conviver seguramente com isso, a não ser que ela entre em conflito com o Estado angolano e com ameaças de processos. Bom, aí as coisas poder-se-iam complicar.

 

 

AL: Nicolau, há nove anos que um chefe de estado angolano não visita Portugal. A última visita foi de José Eduardo dos Santos em março de 2009. E em novembro deste ano, dia 23 e 24 João Lourenço visita Portugal. A nível do meio jornalístico português, como é que está a ser vista? Qual é o impacto, e como está a ser comentada esta visita de João Lourenço, as vossas abordagens, a estratégia, como é que vocês olham para isto?

NS: Bom, com enorme expectativa e com enorme curiosidade. Efectivamente as relações anteriores foram esparsas, foram descontínuas no tempo e parecia que em Angola tudo era imutável, portanto vir há dois anos, ou um ano não fazia grande diferença. Hoje em dia não, hoje em dia há muita coisa para dizer; há aspectos que necessitam eventualmente de ser esclarecidos, o facto de o Presidente João Lourenço no seu discurso de posse não ter mencionado Portugal, embora depois já tenha respondido a perguntas sobre isso, foi um sinal; a questão de o engenheiro Manuel Vicente e do processo que existia foi outro sinal de determinação do Presidente João Lourenço em defender os interesses angolanos, mas eu suponho que existe uma enorme expectativa para tentar perceber efectivamente qual é o papel que o Presidente João Lourenço pensa que Portugal pode desenvolver em Angola. É um facto, tanto quanto se sabe, que nos últimos 6 meses ou no último ano foram trazidos de Angola muitos portugueses que trabalhavam lá, que as empresas entraram em dificuldades, deixaram de pagar, etc., mas apesar de tudo existem muitas empresas portuguesas a trabalhar em Angola, muitas empresas portuguesas a exportar para Angola, muitos portugueses a trabalhar em Angola, e eu penso que isso não vai desaparecer de um dia para o outro. Portanto, acho que dentro das dificuldades, dos problemas, das questões que pontualmente surgem, os portugueses gostam genuinamente de Angola, de estar e viver em Angola, e acho que os angolanos quando vêm à Europa será difícil também não passarem por Portugal, não irem ver um jogo de futebol de algum clube português, etc., portanto eu acho que nós temos traços culturais, históricos muito fundos e que não desaparecem por alguém decidir que agora vamos fazer de outra maneira. Portanto há uma expectativa sobre aquilo que o Presidente João Lourenço virá dizer, quer na área política, quer do ponto de vista empresarial, que eu penso que terá encontros também com empresários portugueses para tentar perceber melhor o seu pensamento, mas não antevejo que venha a ser passada uma mensagem de afastamento e hostilidade, pelo contrário, acho que alguns equívocos possam ter sido gerados por esse primeiro discurso inicial, que serão afastados.

E.: Nicolau, já estamos a entrar na recta final, mas eu gostaria de saber, depois de um momento do “irritante”, vem agora o momento do “agradante” e com um “embaraçante” pelo meio, o Nicolau esteve nessa visita. Qual foi o balanço desta visita de António Costa a Angola?

N.S.: Olhe, eu quando me apercebi que o Primeiro Ministro português ia estar em Angola e um deles era feriado Nacional eu fiz inclusive um contacto dizendo que me parecia algo surpreendente. Porquê? Porque sabe-se que tinha havido alguns problemas na marcação desta visita, que ela era aguardada com expectativa, que o líder da oposição entretanto tinha ido a Angola, e portanto parecia-me pouco o Primeiro Ministro ir a Angola propositadamente só dois dias, sendo que um dos quais era feriado nacional e que não haveria nenhum encontro com as autoridades angolanas, ou quase nenhum encontro. E portanto eu fiquei um pouco surpreendido com o timing, o tempo que se estaria lá, com as circunstâncias. Depois digamos que, no quadro dos acordos que foram anunciados me parece que a visita acabou por constituir um sucesso. Acho que as questões de dupla tributação é óbvio que são muito importantes, as questões da divida são importantes para os dois lados, a questão dos vistos, que é uma questão eterna, tentar resolver-se também é positivo, portanto pareceu-me que resultaram dali soluções que eu espero que agora sejam aplicadas e sigam em frente. Também se sabe, é histórico que o MPLA e o Partido Socialista em Portugal têm tido relações difíceis ao longo dos anos. E curiosamente o MPLA estará aliás eventualmente mais próximo ou dar-se-á melhor com o PSD, com sucessivos dirigentes do PSD do que com sucessivos dirigentes do PS. Eu espero que a habilidade, a capacidade diplomática do doutor António Costa e também do ponto de vista do Presidente João Lourenço, o seu pragmatismo também, que levem a que estes mal entendidos sejam ultrapassados, porque o que me parece importante são as relações Portugal-Angola e não as relações governo-governo. Isso é sempre transitório, as relações que permanecem, que são perenes, são as relações entre Portugal e Angola.

E.: Quero aqui também destacar o papel que tanto um como o outro, António Costa, Primeiro Ministro português e o próprio Presidente Marcelo Rebelo de Sousa tiveram nesta normalização das relações entre Angola e Portugal.

N.S.: Não tenho dúvidas nenhumas. Eu penso que existe claramente na sociedade portuguesa, a nível político, não estou a dizer a nível da comunicação social, a ideia absolutamente firme e transversal de que Angola é um país estratégico para Portugal em termos de afirmação internacional. Tanto mais importante quanto Angola pode ter um papel cada vez maior na África austral, não só na estabilização de regiões à sua volta, como por exemplo no quadro de CPLP. Nós estamos no segundo dia após as eleições em São Tomé e Príncipe, parece que está a haver alguns problemas, e Angola é fundamental para estabilizar este tipo de situações. E portanto eu diria que do ponto de vista estratégico de Portugal, do ponto de vista político, pensamento político, Angola é fundamental. E acho que esta nova imagem que vem associada ao Presidente João Lourenço também abre outros horizontes no modo como outros sectores da vida política portuguesa e da social e comunicacional portuguesa olham para angola.

 

 

AL: Nicolau, a terminar mesmo já com a Lusa: “a comunicação social portuguesa depende muito do serviço público que a Lusa presta aos órgãos de comunicação social”, disse em entrevista, depois da sua tomada de posse, este ano. É um claro sinal do peso e da responsabilidade do cargo que agora ocupa.

NS: Bom, eu não queria pôr as coisas desta maneira. É um sinal de que a Lusa hoje em dia é muitíssimo importante e é mais importante ainda do que era há dez anos para a comunicação social portuguesa. Eu tenho ideia de que há órgãos de comunicação social regionais, por exemplo, que dificilmente sobreviveriam se não houvesse um serviço noticioso diário da Lusa que alimentasse esses órgãos de comunicação social. Hoje em dia nós disponibilizamos não só texto, mas disponibilizamos por exemplo, áudios para as rádios, e as rádios regionais vivem muito dos áudios que a Lusa disponibiliza, mas também disponibilizamos vídeos para as televisões portuguesa, para todas as televisões portuguesas, de manhã, combinam com o nosso editor de multimédia aquilo que necessitam que a Lusa faça, para que eles integrem nos seus noticiários. Portanto a Lusa tem hoje um papel crucial na vitalidade da comunicação social portuguesa, na coesão social do país, porque há pontos do país onde, seguramente, se a Lusa não estivesse, não haveria noticias, e depois na afirmação de Portugal a nível internacional. Nós Lusa, por contrato de programa com o Estado temos obrigação de estar presentes em várias capitais a nível mundial e sobretudo nos países da chamada ‘lusofonia’, e isso é um noticiário que é importantíssimo, não só para os órgãos de comunicação social portugueses, mas inclusive para os poderes políticos de Portugal, saber o que se passa, o que está a acontecer, as transformações que se estão a dar, em Angola, em São Tomé e Príncipe, etc. Eu chamei a atenção do que ia acontecer em São Tomé e Príncipe à minha directora de Informação; infelizmente parece que se estão a confirmar alguns receios de que algumas coisas podiam não correr bem, e enfim nós estamos lá e estamos a dar uma cobertura muito aproximada do que se está a passar, e portanto a Lusa tem neste momento um papel crucial na comunicação social portuguesa e tem um papel crucial na coesão social do ponto de vista informativo do país.

AL: E como é que pretende contribuir para tornar a Lusa numa agência noticiosa adaptada aos novos desafios?

NS: Bom, pretendo precisamente não só através da definição de uma estratégia que passa por uma aposta clara em África. Em África, em matéria de produção noticiosa, quer em texto quer em vídeo, temos de aumentar isso. Nós fomos a Angola e iremos a outros países dizer que todos os contratos passam a ser feitos na moeda local, para evitar os problemas das divisas, e que todo o dinheiro que captarmos aí dos nossos clientes, será para reinvestir na nossa operação para aumentar a nossa operação. Nós não podemos estar em Angola apenas situados em Luanda, temos de estar no Lobito e em Benguela, precisamos de ter pelo menos uma pessoa aí, temos de aumentar isso. Temos de aumentar esse noticiário e temos de depois transformar esse noticiário em inglês, esses vídeos em inglês, com dobragem, legendagem, etc. Porquê? Porque como disse há um enorme interesse a nível internacional, quer de investidores, quer de órgãos de comunicação social, pelo que se passa em Angola. E esse interesse é do Ocidente, mas é o interesse também da China. Portanto nós iremos agora, para a semana a Macau, e depois eu irei a Pequim, para anunciar também o aumento da nossa operação em Macau e em Pequim e dizer-lhe que uma das nossas grandes apostas é precisamente em África, é precisamente em Angola, e que nós disponibilizaremos esse noticiário, sobretudo em inglês porque é mais fácil para eles terem acesso ao que se passa nesses países.

AL: Em termos gerais vai “reinventar” a casa?

NS: Bom, não diria que vou reinventar a casa, eu diria que isto são coisas de bom senso. Nós, como disse estamos a olhar para o mercado português estamos a ver como os nossos clientes em português no continente estão todos em situação de dificuldade, pedem-nos sempre para renegociar as avenças para baixo, nunca nos aparece nenhum a dizer que querem pagar mais pelas avenças (risos), e portanto nós temos de olhar para o negócio futuro. Nós recebemos cerca de 15 milhões de euros com IVA, portanto são à volta de 13 milhões do Estado, uma indeminização compensatória para cumprir este contrato de programa com o Estado e temos cerca de 4 milhões de receitas próprias, o que com IVA também dará à volta de 3 milhões e qualquer coisa. Temos de aumentar as receitas próprias, porque não estou a ver que o Estado português nos vá aumentar muito a indeminização compensatória. Portanto temos de aumentar as nossas receitas próprias. E para aumentar as receitas próprias nós temos de ir para sítios onde nós pensamos que podemos ter clientes interessados naquilo que fazemos. Eu penso que aqueles clientes que estão interessados e que têm dinheiro para pagar são clientes que estão interessados nas notícias, na informação que nós possamos produzir em África, em particular em Angola, são clientes sobretudo anglo-saxónicos, que estarão sobretudo nos Estados Unidos, na Europa, etc., mas também estarão na China.

 

 

AL: Nicolau, uma coisa que, não sei se é a realidade aqui, mas em Angola, uma vez que o trabalho de jornalismo de agencia é importante, mas torna-se invisível para quem o faz, e muitas vezes não é apelativo, porque as novas gerações preferem o jornalismo televisivo, radiofónico ou de imprensa, que dá esta visibilidade. Também consegue ser assim? Passa-se a mesma coisa em termos de saídas para o jornalismo de agência? É apelativo para as novas gerações?

NS: A Lusa é uma casa com uma cultura muito forte. E essa cultura passa pela humildade. Nós, todas as fotografias que publicamos são assinadas pelos fotógrafos da Lusa. Praticamente não assinamos nenhum texto que metemos na linha. Ora, para mim, como jornalista profissional desde 1980, não tenho nenhuma dúvida de que é necessário aumentar a notoriedade da agência e isso passa pelos jornalistas da Lusa passarem a assinar as suas peças. Hoje em dia o jornalismo mudou muito, nos últimos anos. Hoje em dia nós damos muito mais credibilidade a uma notícia assinada por um jornalista que nós conhecemos, que identificamos, sabemos que é sério, que é competente, do que se nos aparecer algo que não está assinado e que não sabemos de onde vem. Portanto uma das batalhas, dos debates – não direi batalhas-, que estamos a ter neste momento, e suponho que vai avançar é que, em matéria de textos que nós publicamos, sobretudo quando forem obviamente entrevistas, investigações próprias, reportagens, essas notícias sejam assinadas. Depois, vamos aumentar muito a produção em vídeo. E esse aumento da produção em vídeo levará a que apareça seguramente quem está a fazer a reportagem em vídeo. Portanto eu penso que seguramente os jornalistas da Lusa precisam de ser mais reconhecidos lá fora, e para isso precisam de assinar as peças. A Lusa tem excelentes jornalistas, que são muito conhecidos no meio do jornalismo mas são muito pouco conhecidos fora do meio. Essa é uma batalha que nós temos.

AL: Nicolau Santos muito obrigada e que continue sempre com a expressão que é sua “em prontidão informativa”.

 

Para a semana teremos outra grande entrevista. Fique atento!

 

 

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