Reencontro com a História

A História, a História completa, produto de várias fontes, é vista por certas pessoas como fantasma. Querem proibí-la porque têm medo dela. Há gente, por exemplo, a fim de impedir que se fale em acontecimentos muito marcantes das dominações coloniais ou das guerras mundiais porque, dizem, isso pode acirrar ânimos ou, mais exatamente, cria-lhes incômodo…eles lá sabem porquê. Desse lado, aliás, nada mais me espanta. Porém, que fossem necessárias décadas para começarmos a olhar Toda a História das lutas de libertação, eu nunca imaginei no decorrer dessas lutas.

Só estou a falar de História e não de posicionamentos politico-partidários, dos quais me afastei conforme disse no meu livro “Franco Atiradores”, concebido como relatório final de atividades nessa área.

E falo após ter ouvido no discurso do Presidente João Lourenço, sábado dia 8 de setembro, ele assumir-se como quinto presidente do seu partido. Ora, antes dele, só falavam em dois presidentes do MPLA. Agora entrou ele e com ele regressam dois dos primeiros anos, condenados até sábado à situação de “fantasmas”, nem sequer mencionados.

O problema é que a História tem um ponto comum com a Economia. Mais tarde ou mais cedo, aparece a fatura.

Por isso vim aqui deixar este bilhetinho, sublinhando que ao assumir-se como quinto presidente do seu partido, João Lourenço não acredita em fantasmas e abre caminho para desvendarmos todo o estado do conhecimento histórico que, todos somados, possuímos.

Ao reconhecer Ilídio Machado e Mário de Andrade entre os seus antecessores, promoveu o reencontro do MPLA com a História. O MPLA tem as suas raízes em grupos clandestinos dos anos 1950 talvez até de final dos 40 – que usaram diversas siglas e agruparam alguns dos dirigentes iniciais dele próprio. Não foi só o MPLA. A História da FNLA é indissociável das designações anteriores, UPA e UPNA.

Então, não tem sentido guerra de datas entre movimentos, frentes ou uniões, pois todos eles ou elas são produto de fases evolutivas e, muitas vezes (eu mesmo estive em situações dessas) quando nos dávamos conta, a organização já estava em funcionamento. Aplicar o formalismo notarial do tipo criação de empresas ou clubes a movimentos de resistência, só passa pela cabeça de quem não sabe o que significa essa resistência. Muito raras foram as redes anti-nazifascistas na França ocupada, capazes de localizarem datas de fundação.

O encontro com a História é que define a trajetória e quem fez o quê. Vou deixar para outros debates as funções, perfis ou alcance desta ou daquela pessoa, deste ou daquele grupo. Aqui interessam-me dois pontos: em termos históricos nacionais, figuras situadas nas raízes e no crescimento do tronco não são fantasmas; em termos estratégicos, a luta clandestina – onde Ilídio Machado exerceu liderança – foi constante no processo de libertação, tão importante como a ação guerrilheira rural. As duas formas de resistência completaram-se. Mesmo com Ilídio preso (lembro o dia em que António Cardoso, muito preocupado, me deu a noticia) e outros lideres no exílio ou no mato, a clandestinidade prosseguiu. Na década de 1960, a repressão colonial, organizou dois processos contra dezenas de patriotas (vários deles ainda vivos), além de frequentes prisões sem nem arremedo de julgamento. Tais prisões, acrescentadas aos insistentes informes e relatórios das forças de repressão (estão na Torre do Tombo, em Lisboa) confirmam como temiam de igual modo ações de guerrilha e grupos clandestinos de agitação urbana. Alguns destes grupos conseguiram vias de comunicação com a ação em meio rural e lideranças ou militantes no exterior, outros não. Mas, em qualquer dos casos, fizeram a sua parte da História, encontravam-se com ela todos os dias.

O reencontro foi agora estabelecido. Bastou uma frase aguardada há anos e vamos conhecer todos os caminhos da História com os diversos atores.

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