Reflexões 6: de Olof Palme às crianças subnutridas em África

1. Poucos dias passaram das exéquias de Savimbi e da vontade que os Angolanos têm em enterrar makas antigas e eis que chega mais uma situação ligada à UNITA, que, por parecer coincidência, faz-nos pensar que quando há este tipo de coincidências, até as coincidências tremem…

Depois das makas e do banho de multidão que a exéquias fúnebres de Savimbi registaram, bem como a forte presença de UNITA nesta exéquias, depois do anúncio do Congresso de um quase esquecido partido, chamado FNLA – sobre este partido, ver meu artigo aqui no VPN, em 8 de Maio –, surgem duas notícias, supostamente recentes, que querem colocar em causa estas duas instituições partidárias e oposicionistas nacionais.

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Sobre a FNLA aparece a notícia, publicada pel’ O Estado de São Paulo (ou “Estadão”), citado pelo semanário Novo Jornal, que o Brasil – também agora? coincidência de Lula estar preso e Bolsonaro parecer estar indiferente às questões africanas? – teria entrado na guerra-civil, que eclodiu em 1975, apoiando, com assessores e agentes dos serviços de segurança, aquele movimento contra o MPLA.

Todavia, não podemos esquecer que o Brasil foi, no “primeiro segundo” da declaração da Dipanda, o primeiro país a reconhecer a República Popular de Angola, liderada, precisamente, pelo MPLA.

Poderá ter tido, posteriormente, participação na luta contra a UNITA. No livro “Memórias de um Guerrilheiro”, de Alcides Sakala, página 3321, este faz referência aos aviões, de fabrico brasileiro, Tucanos (aviões ligeiros de caça e bombardeio), a sobrevoarem e bombardearem as tropas das FALA (numa recente conversa com um militar não angolano, foi-me referido que, há época, os Tucanos só seriam – eram – tripulados por pilotos brasileiros).

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E o próprio artigo do Estadão acaba por reconhecer que apesar do regime brasileiro assentar numa ditadura militar, o Presidente Ernesto Geisel e os seus companheiros, terão percebido que era do seu interesse apoiarem quem mais lhe poderia dar vantagens. Daí terem alterado as suas linhas de apoio para o MPLA, ainda que, segundo o texto do Estadão – que tem como base uma investigação da Mestre Gisele Lobato2, e investigadora auxiliar do CEI-IUL – alguns poucos dos assessores brasileiros terem estado até ao desfecho da Batalha de Kifangondo, onde, como se recorda, participaram angolanos da FNLA, de Revolta Leste – a maioria mais mercenário congoleses que angolanos – e mercenários de várias origens.

O outro caso, é de uma obra de Jan Stocklassa3, baseado numa investigação e dos “arquivos secretos” do jornalista sueco de investigação e escritor de novelas policiais Stieg Larson sobre a eventual participação da delegação da UNITA, em Estocolmo, na morte de Olof Palme.

Estranho que tantos anos depois da morte de Larson, Stocklassa surja com este livro, baseando-se só nas investigações daquele autor, e que levaram à conclusão de que a morte do antigo primeiro-ministro sueco, poderia estar relacionado pelo facto de “Olof Palme preparava-se para travar o negócio de armamento entre a África do Sul e o Irão e que envolvia empresários suecos”, começado pelo antigo diretor da CIA, William Casey, durante a presidência de Ronald Reagan.

Segundo Stocklassa, Palme, pelo “seu envolvimento contra o apartheid e, também, pelas suas tentativas para bloquear o negócio de armas” era um bom candidato para que um espião, no caso o sul-africano Craig Williamson, poder ter  terá organizado o atentado contra Olof Palme, aproveitando-se de “grupos de interesse”, onde se enquadravam, grupos de extrema-direita, e do facto do representante da UNITA na Suécia, Luís Antunes, um dos contactos de um dos líderes dos grupos de interesse, Anders Larsson, devido às suas eventuais ligações à CIA, o que poderia facilitar as manobras que teriam levado ao atentado contra Olof Palme..

Só que, como o próprio Stocklassa acaba por citar, Williamson, entre vários “crimes” de que foi acusado de ter participado, directa ou indirectamente, recusou sempre acolher como autor ou participante no atentado contra o antigo primeiro-ministro sueco.

Acresce que os serviços secretos suecos sempre apontaram como executantes do atentado, unicamente, agentes dos serviços secretos do regime do apartheid e Henning Mankell, considerado como o maior novelista de investigação criminal sueco, e que viveu – e vivia, à época – em Maputo – alternando com estadias em Estocolmo –, ter igualmente publicado uma obra nesse sentido, sem que, no entanto, tenha, alguma vez, o atestado.

Ainda assim, e por razões académicas, tenho curiosidade em ler este livro de Stocklassa.

Em qualquer dos casos, parece que estas duas notícias surgem pela inoportunidade da situação caótica em que se encontra a FNLA e pelas makas que houve com as exéquias que pareciam ter sido esquecidas comas mesmas e a agregação popular que tiveram; ou, por causa disto tudo, talvez não; como há dias um académico me escrevia, este dois factos, principalmente, este, só acontecem quando alguém, por necessidade de alteração da importância de algum facto político recente, faz desenvolver a  acção psicológica de propaganda política para “queimar algo que incomoda”…

2. Recentemente – ver meu artigo no VPN, de 29 de Abril – escrevi que a China queria alargar a sua Nova Rota da Seda (Beltand Road ou Cinturão da Rota da Seda ou Rota), em África, para Moçambique, Angola e São Tome Príncipe (STP).

No artigo referia, sobre STP que, e recordo, “para quem não estiver atento à políticas chinesas, espantar-se-á, de São Tomé e Príncipe (STP), dado que estes não têm um porto que acolha navios de grande calado” pelo que a presença em “STP significa que a China está disposta a construir um porto nesta república lusófona e dominar uma rota marítima importante no Atlântico Sul. E quem dominar esta rota, domina todo o eco-sistema geopolítico e geoestratégico do Golfo da Guiné e as ligações marítimas para a Europa e todo o continente americano, colocando estes numa completa subalternização à China.

Pois, como previ Beltand Road ou Nova Rota da Seda começa a já ter frutos para os lados das ilhas equato-atlânticas. Recente do portal MacauHub, citando o embaixador da China em STP, Weng Wei, o projecto de modernização e expansão do aeroporto internacional de São Tomé está a avançar e a viabilidade da construção de um porto está a ser analisada; ora, já em Março passado, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, já tinha adiantado ao seu homólogo são-tomense, que os chineses manifestavam disponibilidade para financiar aqueles dois projectos. Como já teorizei, os chineses seguem, “step by step” aquilo que já denominei da Teoria do Mahjong. E quando o Ocidente se aperceber estará subtilmente enredado na teia económica do que se prevê ser, a médio prazo, a maior economia do Mundo…

3. Interessante a recente notícia de que a Guiné Equatorial estaria disposta a construir, de raiz, uma refinaria em Cabinda e investir no sector do gás angolano. Está oferta a Angola traz água no bico. Que tecnologia tem a família Obiang para nós oferecer? Ou será que estarão a ser testas-de-ferro de alguém ou “investidores” que não quer se dar a conhecer? Como se já não bastasse a nossa já ancestral “doença holandês” ainda vêm os equato-guineenses quere aumentar essa dependência. Muitas questões…

4. Recente estudo elaborado pelo Fórum Africano para as Políticas da Infância (ACPF, em inglês), apresentado em Addis Abeba, mostram que as preocupações com a fome em África continuam a ser um enorme problema com repercussões nas nossas crianças.

Segundo este relatório, uma em cada três crianças africanas, algo como cerca de 60 milhões de crianças, é subnutrida ou sofre de raquitismo e muitas acabam por falecer devido à falta de alimentos, sendo que a situação, mesmo com algum crescimento económico que se verifica na maior parte dos países africanos, tende “a não melhorar devido a decisões políticas erradas”.

Segundo este relatório, se nada for feito para inverter “a indiferença política, má governação e inépcia na gestão económica (…) de forma célere e eficaz” é quase certo que, em 2050, África terá cerca de mil milhões de crianças subnutridas ou famintas.

Seria bom que muitos dos nossos líderes africanos esquecessem, por alguns momentos, se e quando devem alterar as constituições dos seus países para se perpectuarem no Poder, e dessem uma boa fatia dos seus Orçamentos de Estado ao combate à fome. Pois como alerta o documento da ACPF, se nada for feito, mais 17% dos respectivos PIB serão fortemente afectados com as nefastas consequências para o desenvolvimento dos nossos País.

Referências:

1 SAKALA, Alcides (2006), “Memórias de um Guerrilheiro” (1ª edição). Lisboa, edições D. Quixote.

2 LOBATO, Gisele Christini de Sousa – “O Brasil e a independência de Angola (1975): política externa oficial e diplomacia militar paralela”; Lisboa: ISCTE-IUL, 2015. Dissertação de mestrado. Disponível em http://hdl.handle.net/10071/11175;

3 STOCJLASSA, Jan (2019) “Stieg Larsson – Os Arquivos secretos e a sua alucinante caça ao assassino de Olof Palm”, Lisboa, editora Planeta.

* Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL(CEI-IUL) e investigação para Pós-Doutorado pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto**

** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado

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