Um livro que é um arrojado desafio

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Jonuel Gonçalves é um autor angolano prolixo, bem referenciado pelas suas obras de carácter político, económico e sociológico e obras de ficção. Além disso, é cronista e comentador de estações radiofónicas. O nome que usa esconde o seu próprio, sendo assim conhecido, principalmente no Brasil onde é professor universitário. Sempre irrequieto, correu e corre mundo, relacionando-se com muitos intelectuais dos mais variados países e pensamento. Publicou agora um livro com o título E SE ANGOLA TIVESSE PROCLAMADO A INDEPENDÊNCIA EM 1959?

 

A obra, como ele diz, é um exercício sobre possibilidades, que hoje se usa em estudos de carácter militar e histórico. Recorda autores como R Cowley, Pierre Singaravélou e Quentin Deluermoz.

 

O arrojo do título corresponde à audaciosa descrição de possíveis acções que teriam  levado à derrota do colonialismo português. O autor, embora então muito jovem, viveu a turbulência política dos finais da década de 50 do passado século em Angola – quando pululavam os grupos nacionalistas clandestinos e se abateu a repressão da polícia política portuguesa, a PIDE – conheceu e conviveu com alguns nacionalistas.

Portanto, as suas «especulações» partem de conhecimento concreto de vários factores que caracterizavam a situação política em Angola, nomeadamente a actividade nacionalista clandestina e o aparelho repressivo colonial.

 

Jonuel Gonçalves faz a análise da debilidade do aparelho colonial de repressão: exército diminuto, mal armado e impreparado (onde a enorme maioria dos efectivos era constituída pelas denominadas companhias indígenas); forças policiais reduzidas; meios de comunicação fracos. Daí parte para um cenário em que os nacionalistas decidem uma acção armada para tomar o controle de Luanda, proclamarem a independência e nomearem um governo nacional.

 

O autor prevê uma série de reacções do poder colonial, dos diferentes sectores da população, dos vários sectores nacionalistas no país e no exílio, dos diferentes países da comunidade internacional, sobretudo dos vizinhos de Angola.

 

Jonuel Gonçalves envolve-nos num acelerado e complexo desenrolar de acções de toda a ordem: política, militar, diplomática, organizativa, gestionária. Atribui tarefas, missões e cargos a conhecidos indivíduos da luta nacionalista angolana. Mergulhamos numa elaborada trama de eventos e comportamentos, através de descrição muito impressiva, e «vemos» desenrolar o filme da concretização de um «se», de uma possibilidade.

 

Para melhor compreensão das possibilidades evocadas no livro,  recordo que, naquela época, a acção orgânica e prática nacionalista era bem mais expressiva em Angola, sobretudo em Luanda, do que no Exterior. O eixo da luta estava no interior do país.

 

No quadro da legalidade então existente, havia intensa actividade cultural pró-nacionalista: jornais,  debates, sessões de leitura de poesia, exibições de música urbana angolana. Em simultâneo multiplicavam-se grupos clandestinos que faziam reuniões e panfletos que eram distribuídos com mil cautelas. No Exterior, em Portugal, havia discreta actividade pró-nacionalista entre estudantes das colónias portuguesas, sobretudo angolanos; noutros países da Europa, intelectuais angolanos denunciavam o colonialismo português; no Congo sob dominação belga, muitos angolanos aí emigrados ou exilados procuravam organizar-se politicamente e estabeleciam contactos com alguns dos grupos existentes no Norte de Angola e Luanda.

 

Depois das insurreições armadas de 1961, o eixo do combate nacionalista transferiu-se para o Exterior, passando aí a existir os comandos da luta, as bases logísticas para o desenvolvimento da guerra de libertação nacional e as plataformas de actividade diplomática em prol da nossa luta e da angariação de apoios internacionais. Quando se dá a revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974, que vem possibilitar o rápido acesso de Angola à independência, a acção nacionalista é totalmente conduzida do Exterior, contrariamente ao que sucedia nos finais dos anos 50.

 

Esta obra, E SE ANGOLA TIVESSE PROCLAMADO A INDEPENDÊNCIA EM 1959?, independentemente das diferentes reflexões  que suscita,  tem ainda o mérito de mostrar como o contexto angolano em 1959 era bem diferente do que existia em 1974 e que o processo da nossa luta pela independência não foi tão linear como as histórias oficiais e oficiosas propalam.

 

O livro também pode incentivar os nossos académicos, estrategas e políticos a fazerem cenários baseados em múltiplas possibilidades, um estimulante exercício para suscitar confrontos de ideias, tão necessários ao progresso de Angola.

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