RNA faz jornalismo ou assessoria de imprensa?

O Termómetro da Imprensa começa, na edição de hoje, a sua análise sobre o desempenho da imprensa angolana no período 6 – 13 de Março, com uma uma nota super negativa para a Rádio Nacional de Angola (RNA) no espaço “sábado 10 e 10” e para o jornalista Santos Vilola, editor-chefe do Jornal de Angola . Por estas razões, abrimos o TI com o negativo.

 

O Negativo

 

A primeira nota negativa vai para o programa “sábado 10 e 10” da Rádio Nacional de Angola (RNA), apresentado por Paula Simons. Foi a terceira edição do novo programa da grelha da RNA, que substituiu o “Tendências e Debates”. Na terceira edição do novo programa, ficou provado que a Rádio Nacional de Angola regrediu, em termos de produção de conteúdos jornalísticos, com a extinção do programa “Tendências e Debates” – que dava voz a vários especialistas, membros do Executivo e políticos das várias forças representadas no Parlamento – para dar lugar a um programa que é de “Grande Entrevista” e ao mesmo tempo de promoção de opiniões estranhas no fim do programa, sem se perceber bem o que o novo programa da RNA pretende.

 

Paralelamente ao facto de se ter regredido no serviço público da RNA, ao sábado, é um programa que mostra não ter rigor em termos da sua concepção, não obstante se convide altas figuras do Executivo para se abordar um determinado tema actual – e questiona-se os critérios usados para se convidar membros do Executivo versus interesse público sobre o tema escolhido –, mas que, em rigor, não se acrescenta nada de novo no jornalismo angolano.

 

Outrossim, a sua estrutura não se enquadra em nenhum programa jornalístico de rádios conceituadas no mundo nem num jornalismo moderno. É ainda mais grave quando é um programa concebido e apresentado pela administradora para a área de conteúdos de uma rádio pública. James Garnett em “Communicating for Results in Government” fala sobre a problemática de alguns órgãos de comunicação social, em países com sistemas autoritários, se sentirem tentados em estabelecer “pactos” com a  necessidade permanente de se promover figuras do Governo para se fazer uma campanha eleitoral disfarçada em interesse público em períodos não eleitorais.

 

Qual o interesse a priorizar num jornalismo sério: o dar voz a quem já costuma ter voz diariamente – dirigentes nomeados pelo Titular do Poder Executivo –, dar voz a pessoas que estão a governar e que pretendem manter-se no poder, mesmo que estejam a mentir, ou o de satisfazer realmente o interesse público? O que o público precisa de saber neste momento?

 

No sábado passado, Paula Simons entrevistou o vice-procurador-geral da República Mota Liz no programa designado “sábado 10 e 10”. O tema terá sido o fenómeno da corrupção e suas consequências. Terá sido, pois não se percebeu se a entrevista pretendia mesmo trazer novidades no que respeita ao combate à corrupção. Mota Liz não deu propriamente uma entrevista – e pressupõe-se que uma entrevista é feita por perguntas variadas, incluindo perguntas incómodas, já que Mota Liz não é uma figura nova na PGR – ou seja, não foi competentemente questionado sobre várias contradições que se verifica no papel do órgão que representa (a Procuradoria Geral da República).

 

Paula Simons ajudou-o a fazer um monólogo sobre a corrupção, suas consequências e um eventual perigo de sentimento de impunidade e aparentes violações da ética e deontologia profissional por parte de membros (e ex-membros!) do Executivo, mas não conseguiu falar sobre o posicionamento da PGR perante investigações mediáticas, como a recente abertura de inquérito que a “sua” instituição publicitou na imprensa para apurar o que terá acontecido na Sonangol.

 

Portanto, ocupou-se um espaço público nacional, numa rádio que é paga por todos os contribuintes angolanos, para se publicitar meras intenções e palavreados de uma “Justiça do Executivo” – que não mostra resultados concretos sobre a investigação que faz, fora de “peixes miúdos” – como uma sequência de meras promessas do que o partido no poder fez recentemente na campanha eleitoral do ano passado.

 

Não se fez, mais uma vez, jornalismo sério no novo espaço da Rádio Nacional de Angola. Fez-se, na verdade, a especialidade de Paula Simons nos últimos tempos: assessoria de imprensa para formar opinião pública a favor do Executivo e não jornalismo. Professores que estudam o jornalismo falam sobre esta tendência das “assessorias” nos órgãos de comunicação social controlados por governos no poder e consequências directas perigarem o desenvolvimento das sociedades, com uma regressão do jornalismo para um mass media  que publicita quem pretende estar sempre no poder.

 

A RNA está a ser usada, ao sábado das 10 às 12h, pela administradora para a área de conteúdos, Paula Simons, para fazer propaganda directa para enaltecer quem está no poder, com monólogos pré-concebidos. E faz questão de ser ela a dar voz ao monólogo para mostrar fidelidade à propaganda clara para o MPLA. E mais uma vez questiona-se: a administradora de conteúdos pode conduzir uma “Grande Entrevista” idealizada por si? Até que ponto vai ter uma análise imparcial sobre o desfecho da entrevista? Promover-se monólogos numa rádio pública é grave para um país que pretende consolidar o Estado Democrático e de Direito, o pluralismo de ideias, e que diz pretender respeitar o rigor, o interesse público, a imparcialidade e isenção na produção de conteúdos, como refere a Lei de Imprensa angolana.

 

A segunda nota negativa vai para o editor-chefe de Política, Santos Vilola, do Jornal de Angola. O Termómetro da Imprensa já tinha feito uma análise, na sua primeira edição, sobre a inclinação danosa e ilegal contra um jornalismo isento que se pretende para o país, por parte de Santos Vilola, que “promoveu” uma “Grande Entrevista” ao jornalista Sousa Jamba com a clara intenção de desviar o interesse público dos angolanos para pseudo-culpas a Jonas Savimbi e à UNITA, pelo facto de o país estar numa queda livre em termos de estabilidade política, económica e social, quando qualquer cidadão intelectualmente honesto sabe que o maior causador dos problemas que o país enfrenta reside em práticas danosas promovidas pelo partido no poder (MPLA), já que os outros nunca tiveram oportunidade de governar.

 

O chefe da editoria Política do jornal pago por todos os contribuintes angolanos, Santos Vilola, e o seu Jornal de Angola voltam a atacar a UNITA com o artigo de opinião de quarta-feira, 7, com o título “Roteiro da incoerência”, em que forma uma opinião pública a desfavor do presidente do grupo parlamentar da UNITA – acusando-o de não ser um político sério – Adalberto Costa Júnior, pelo simples facto de ter solicitado uma entrevista com o líder parlamentar da UNITA, sem ter tido sucesso, já que, segundo conta no artigo, o político não teve tempo para responder a perguntas dirigidas a si por meio de um mail enviado pelo jornalista.

 

Vilola diz no artigo sobre o posicionamento da UNITA relacionado com a efectivação das autarquias locais que o deputado “não só não cumpriu com a sua palavra, como perdeu a oportunidade de esclarecer que espécie de gradualismo propôs o seu partido em 2010. Portanto, perdeu o meu respeito e prejudicou o seu partido.”

 

Mas em que parte do mundo que faz um jornalismo sério é que uma fonte que não teve tempo para responder a perguntas de um jornalista “perde” oportunidade de esclarecer alguma coisa? Quem disse que as fontes são obrigadas a responder a perguntas no timing que o jornalista quer e ponto final parágrafo?

 

Será que Santos Vilola estará a pensar que o Jornal de Angola é sua propriedade privada por ser editor-chefe de Política? E por que um editor-chefe de Política elabora um artigo de opinião de uma secção em que o mesmo é o principal decisor sobre os ângulos de abordagem dos conteúdos políticos que se dá? Onde fica a sua isenção na elaboração de notícias se já diz publicamente que “perdeu o respeito pelo presidente do grupo parlamentar da UNITA” só por não ter conseguido responder a perguntas num período combinado? Será um caso único no jornalismo mundial?

 

O chefe de conteúdos sobre os pronunciamentos de figuras políticas do país no jornal público diz isto publicamente e a céu aberto e no mesmo jornal? Em que parte do mundo é que acontece isto? Onde fica a ética e deontologia profissional de Santos Vilola?  Por que não elabora também opinião sobre a não cedência de entrevistas por parte de figuras do MPLA, como é o caso de José Eduardo dos Santos, por exemplo? Adalberto Costa Júnior não é sério e quem é sério? José Eduardo dos Santos? João Lourenço? Por que só a UNITA é que tem de esclarecer o seu posicionamento sobre as autarquias se quem governa e diz pretender implementar as autarquias é o MPLA? Por que só se procura aparentes contradições de discursos de políticos da oposição, com destaque para a UNITA, no JA? E o MPLA não tem contradições? Por que o Jornal de Angola não noticia contradições do MPLA? É este serviço de comunicação social que melhorou com João Lourenço ou só se mudou o rosto de Dos Santos para se culpabilizar eternamente a UNITA, na comunicação social pública, da incompetência de gestão do país por parte do MPLA? O MPLA não pode nem deve usar os órgãos de comunicação social públicos para criar bode expiatório com o sentido de branquear a sua incompetência de gestão do país.

 

O “jornalista” escreve “O que me deixou estarrecido é o facto de o deputado se apresentar sempre como um idealista republicano, um homem com uma determinação inabalável. Mas, afinal, é também, o mais comum dos mortais, com essa “qualidade especial” de não cumprir com a palavra dada. Como tem o meu número, já sei que vai ligar para mim, mas alerto que não vou atender a uma chamada sequer.”

Mas um responsável editorial de um jornal pago por todos os angolanos – onde militantes da UNITA estão incluídos – usa um jornal público para passar recados deste baixo nível de opinião, como se fosse um jornal de sua propriedade? Mesmo que fosse um jornal de sua propriedade tinha de cumprir a Lei de Imprensa. A Lei de Imprensa serve para todos. Que tipo de profissional é este? São estes discursos que o ministro da Comunicação Social está a ensinar nos seminários de capacitação profissional que está a promover no país? São estes discursos que Victor Silva, o presidente do Conselho de Administração das Edições Novembro, está a passar aos seus colaboradores? É este o caminho certo que se deseja para a comunicação social angolana?

Ao continuar assim, a Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA) terá de sancionar o Jornal de Angola pela violação sistemática da Constituição e Lei de Imprensa, com todas as suas implicações civis e criminais.

Ao continuar assim, a Comissão de Carteira e Ética terá de retirar a carteira profissional a Santos Vilola por prestrar um serviço público lesivo ao Estado, sem nenhum rigor, e que promove ódio e discriminação entre angolanos, filhos da mesma pátria, só por pertecerem a forças políticas que não são de quem governa.

Santos Vilola tem cometido atropelos graves à lei e parece já ser “orientação superior”. Não é normal que o mesmo jornalista sénior faça entrevistas para falar mal de Savimbi, mesmo já estando morto, e artigos de opinião que só falem mal da UNITA, só por ter votado contra o Orçamento Geral do Estado (OGE) 2018., um direito que lhe cabe no Parlamento. Ninguém é obrigado a votar a favor de um documento com o qual não se concorda.

O Termómetro da Imprensa “ignorou” o seu artigo de opinião que falava mal da UNITA por ter votado contra o OGE 2018 para não ser confundido com “análise parcial contra pessoas”, uma vez que, na edição anterior, já tinha falado do seu posicionamento na entrevista que mostrou alegados “assassinatos de Savimbi”. Mas agora que provou existir má-fé, pelos antecendentes e recorrência aos ataques à UNITA, é preciso que Santos Vilola seja sancionado para servir de exemplo a outros jornalistas que, eventualmente, tenham a mesma conduta. É preciso moralizar a classe e a sociedade.

Num país normal, com um jornalismo sério, Santos Vilola já estaria exonerado do cargo que tem, pois demonstra não ter idoneidade para ser editor-chefe de Política de um jornal com a responsabilidade do Jornal de Angola. E se o PCA do Jornal de Angola e o ministro da Comunicação Social continuarem a fingir que não estão a ver os atropelos graves à Constituição e Lei de Imprensa de Santos Vilola não deverão ser dignos dos cargos que ostentam.

E se João Lourenço não verificar e punir os “organizadores” destes atropelos constantes e sistemáticos contra a UNITA por parte do Jornal de Angola, por meio de Santos Vilola, não merecerá ser respeitado como Presidente de todos os angolanos. É preciso moralizar a sociedade, sob pena de se viver numa selva em que não há regras nem disciplina para ninguém.

O Termómetro da Imprensa apela a uma reacção urgente das autoridades angolanas, que não podem ficar impávidas e serenas perante tais atropelos que atentam contra a consolidação de um Estado Democrático e de Direito. É preciso evoluir. Não se pode regridir nos aspectos em que o país já conquistou evolução com sacrifícios de muitas vidas.

A terceira nota negativa vai para a reportagem que a TV Zimbo exibiu no seu jornal de sábado, 10 de Março, às 20h, que dava conta de uma actividade realizada pelo partido político UNITA. Na referida reportagem, o editor de imagem seleccionou planos de corte (imagens) que mostravam cadeiras vazias, quando as imagens foram gravadas antes de a actividade começar. Entrevistou-se, inclusive, o porta-voz da UNITA, Alcides Sakala, antes de se dar início ao acto.

 

É uma prática recorrente da TV Zimbo e TPA, quando mostram actividades de partidos na oposição. No fim da peça, percebeu-se que havia outras imagens com espaços preenchidos, mas que foram timidamente usadas. A TV Zimbo incorreu numa prática que viola a Lei de Imprensa. Não editou a peça de forma isenta e imparcial, formou uma opinião pública a desfavor do que aconteceu realmente na actividade do maior partido na oposição. Tem sido uma prática recorrente e espera-se que a Entidade Reguladora da Comunicação Social Angolana (ERCA) sancione as televisões que editam imagens de forma ilegal e discriminatória, com o pagamento de multas ao Estado.

 

A quarta nota negativa vai para a reportagem da Televisão Pública de Angola (TPA), no domingo, 11 de Março, no telejornal, que falaria, supostamente, dos principais problemas actuais nos discursos dos jornalistas, razão que terá levado o ministro da comunicação social e responsáveis dos órgãos de comunicação social públicos à província de Malanje para uma formação dirigida a jornalistas daquela zona.

 

É uma reportagem que mostrou exactamente aquilo que não se faz num jornalismo sério. Se a peça visava falar dos principais problemas dos discursos dos jornalistas, como apontava a chamada do pivô Alexandre Cose, o que era suposto ser destacado, em primeira instância, é a descrição dos problemas concretos nos discursos dos jornalistas dos órgãos públicos. A peça começa por mostrar uma viagem de comboio – com risos e gargalhadas e um eventual vinho verde à mistura – com depoimentos que visaram enaltecer a viagem de comboio do que dizer o quê da notícia. Foi um “bom” exemplo do que não se deve fazer em televisão (séria).

 

A jornalista da TPA mostrou não dominar as técnicas do uso da pirâmide invertida na elaboração de uma reportagem. Os dirigentes da comunicação social não foram a Malanje por causa da possibilidade de se viajar de comboio, logo não faz sentido mostrar a viagem de comboio como prioridade da história (notícia). O que se recomenda é que se comece com o que é mais importante na notícia. O comboio não tinha mais valor noticioso do que o que se pretende que se mude na comunicação social – se de facto se pretende mudar alguma coisa! A peça foi elaborada de forma amadora, sem nenhum rigor. As culpas devem também ser atribuídas aos editores de conteúdos da TPA, que devem ensinar como se elabora uma reportagem em televisão.

 

Na entrevista feita ao ministro João Melo, não se disse rigorosamente nada sobre os motivos que levaram a realização de uma formação para jornalistas a Malanje. João Melo fala de uma mera necessidade de formação contínua aos jornalistas, o que não difere das antigas formações contínuas a que os jornalistas de órgãos públicos foram submetidos pelo antigo ministro da comunicação social, José Luís de Matos. E portanto não há nada de novo para ser notícia de um telejornal, da maneira como foi feita a peça. Se não há nada de novo, não há notícia. Fez-se populismo. Não se fez jornalismo.

 

Era necessário que o ministro dissesse de forma clara quais os problemas concretos que identificou nos discursos de jornalistas e o que pretende mudar na sua gestão para que os governados consigam decifrar o antes e depois da comunicação social angolana. Tinha de estar claro no seu discurso. Tinha de ser questionado o que pretende. Era isto que podia ser uma eventual notícia. E era isto que devia abrir a peça e não risos e gargalhadas por se fazer uma mera viagem de comboio. Fez-se uma peça sem nenhum rigor do que se recomenda em televisão; ou seja, a própria peça mostrou o que não se deve fazer num jornalismo sério. Ironicamente, o que não se deve fazer foi exactamente o que se fez numa matéria que diz ser necessário mudar de discursos jornalísticos. É um “grande” exemplo do que um jornalismo sério, numa televisão séria, não deve fazer.

 

A quinta nota negativa vai para a TPA e TV Zimbo que continuam a promover populismo no jornalismo, com a promoção de opiniões desajustadas e sem nenhum rigor técnico por parte de comentadores-residentes que são submetidos a comentar matérias que não são de seu domínio científico.

 

A TV Zimbo prestou, neste aspecto, pior serviço que a TPA, já que João Paulo Nganga e Gildo Matias José defenderam o óbvio e a mesma coisa; ou seja, não houve contraditório nas opiniões. Foi um monólogo a dois!  Não faz sentido haver dois comentadores que defendem a mesma coisa. Na fase em que o país vive, ter dois comentadores que defendem a mesma coisa, que têm a mesma visão sobre os fenómenos, é tudo menos um jornalismo sério. Se servia antes, hoje já não serve.

 

A TPA, embora também tenha comentadores-residentes para comentar tudo e mais alguma coisa – o que é um erro! – falhou menos, pois Vicente Pinto de Andrade e Manuel Fernandes pertencem a forças políticas diferentes: MPLA e CASA-CE. Não defendem exactamente a mesma coisa. Fez mais sentido ouvir duas opiniões diferentes, mesmo sem ser profundas, do que ouvir um monólogo a dois na TV Zimbo. Prestaram, as duas televisões, mais uma vez, um mau serviço público. Exemplificaram, mais uma vez, o que os manuais de jornalismo não recomendam. Os manuais de jornalismo recomendam que cada matéria deve ser comentada por quem a estudou ou por quem tem experiência vivida num determinado fenómeno em análise. E quanto mais houver opiniões contraditórias melhor para a promoção do pluralismo de ideias, consagrado, também, na Constituição e na Lei de Imprensa.

 

A sexta nota negativa vai para os órgãos públicos e privados que não souberam dar tratamento jornalístico – como mandam as regras – ao ciclo de palestras promovido pelo Sindicato dos Jornalistas Angolanos (SJA). As palestras aconteceram na segunda, 5, e terça-feira, 6, na União dos Escritores Angolanos, marcadas por pouca adesão de jornalistas.

 

Os poucos jornalistas que foram cobrir o acto noticiaram o óbvio. Falaram dos temas e dos prelectores, mas não mencionaram o que de facto foi notícia: o pouco interesse de formação manifestado pelos jornalistas angolanos. Num jornalismo sério, a notícia não era o organizador nem os prelectores. A notícia era o nível de absentismo de jornalistas numa actividade dirigida à classe. Como se abordou questões da ética e deontologia profissional, o rigor, a imparcialidade, a equidistância política de um jornalistas para a produção de conteúdos, o poder político versus liberdade de comunicação, liberdade de informação e liberdade de imprensa, qual a relação entre o conteúdo das palestras e a pouca adesão dos jornalistas, se, supostamente, seriam os jornalistas (sérios) os mais interessados em se cumprir o que diz a lei?

 

A notícia é o anormal. Não é normal haver absentismo tão acentuado de jornalistas numa formação grátis dirigida aos próprios jornalistas que têm (ou deviam ter) a missão de comunicar o que se passa no país. A ausência de jornalistas na referida actividade até dava direito à abertura de jornalismo de investigação numa redacção séria. É um sinal claro de que a classe não goza de saúde.

 

Os poucos órgãos que falaram da actividade fizeram uma abordagem óbvia: resumo do que se disse na actividade. Jornalismo não é reportar o óbvio. Notícia não é o óbvio. A rádio MFM, na quarta-feira, 7 de Março, um dia depois da última actividade – e talvez motivada pelo facto de o jornalista Carlos Alberto ter elaborado um artigo de opinião que dava conta de que muitos colegas não apareceram na actividade e que o secretário de Estado para a Comunicação Celso Malavoloneke teria elogiado a iniciativa do SJA, o Termómetro da Imprensa e a Oficina da Imprensa –, com o secretário-geral Teixeira Cândido, ao telefone, a fazer um resumo do que os prelectores disseram.

 

A pivô, Amélia de Aguiar, até fez questão de ler o que o seu editor escreveu a dizer que era um resumo do que aconteceu. Se o editor da MFM pensasse fora da caixa, uma vez que a MFM não se fez presente na actividade, faria uma abordagem crítica do que aconteceu com base no artigo de Carlos Alberto, elaborado um dia antes e partilhado com responsáveis da MFM. Teria cruzado dados para fazer uma reportagem com alguma profundidade. A notícia foi o nível de absentismo de jornalistas, incluindo jornalistas da própria MFM. Para angolês ver, já que ficaram a saber da presença do secretário de Estado, fizeram qualquer coisa para não se dizer que não se falou nada sobre o assunto.

 

O mesmo aconteceu com a TPA e TV Zimbo. Fizeram um pequeno balanço do que aconteceu. Foram meros papagaios do que a organização do evento e prelectores disseram. A Palanca TV teve uma abordagem mais bem conseguida ao buscar várias reacções dos poucos jornalistas que lá estiveram. Só faltou dizer a notícia: absentismo dos jornalistas quando se pretende falar da imparcialidade, rigor, isenção, ética e deontologia profissional, incompatibilidades, etc. Provou-se que os jornalistas angolanos não estão interessados em cumprir a Constituição e Lei de Imprensa. E os órgãos de comunicação social não conseguem enxergar o que é notícia de facto em qualquer parte do mundo.

 

A oitava nota negativa vai para o jornal “O País” que não conseguiu produzir uma matéria de investigação que mostrasse os problemas internos do MPLA, na senda do que fez com a CASA-CE na semana anterior à passada. Se o jornal “O País” não fizer manchete com uma matéria de investigação que mostre problemas internos do MPLA, da mesma forma que já fez com a UNITA e CASA-CE, mostrará que é um jornal que só serve de propaganda do partido que governa. Não seria bom que todos os leitores soubessem, à partida, que o único jornal diário que concorre com o Jornal de Angola faz o mesmo ou pior que o jornal público: só mostra o lado negativo da oposição e faz propaganda para o MPLA. Mostrará que é um jornal que não pode ser levado a sério.

 

O Termómetro da Imprensa volta a lançar o desafio para este jornal fazer o mesmo que fez com as forças da oposição para dar tratamento igual a todas as forças políticas. O Termómetro da Imprensa ainda continua a dar o benefício da dúvida aos principais gestores de conteúdos do jornal “O País”. Na próxima edição, o TI vai mostrar mais evidências sobre a inclinação ou não de “O País”. Até agora mostra estar a trabalhar para o MPLA e não para um jornalismo isento.

 

O Positivo

 

  • Abertura do jornal da RNA de quarta-feira, 7, às 20h, dando conta de uma denúncia do grupo parlamentar da UNITA que revelou o cultivo de cinco (5) hectares de liamba no Uíge e exploração ilegal de madeira, protagonizado por um alegado empresário angolano. O editor Estêvão Borges fez, mais uma vez, uma boa interpretação do valor noticioso do “seu” jornal. É anormal. É algo novo. Tem grande interesse público. É notícia para abrir um jornal que pretende que seja considerado sério. No entanto, peca por ser uma notícia veiculada pela UNITA. O facto de ter sido veiculada por meio de um relatório-síntese de um partido na oposição demonstra que os órgãos de comunicação social públicos não estão atentos aos fenómenos que afligem a população local. Significa que os órgãos públicos não estão a fazer jornalismo de investigação. Significa que as autoridades de investigação (Serviços de Investigação Criminal e Serviços de Inteligência e Segurança de Estado) não estão a fazer o seu trabalho. Significa que, se a UNITA não existisse, os angolanos nunca saberiam deste facto. É grave para a classe jornalística no Uíge e para as autoridades que têm salário do Estado para investigar crimes e responsabilizar os autores. Significa que se pode pensar haver outros fenómenos a decorrer no Uíge e noutras províncias do país, que não estão a merecer um trabalho de jornalismo de investigação. A UNITA passou um certificado de incompetência aos jornalistas dos órgãos públicos no Uíge. Estêvão Borges, da redacção central da RNA, foi, mais uma vez, imparcial no tratamento desta matéria. Merece os parabéns do Termómetro da Imprensa. É a segunda vez que o TI nota alguma imparcialidade por parte deste editor da RNA. Está a prestar um bom serviço púbico.
  • A grande entrevista do Correio Angolense assinada por Severino Carlos e Francisco Paulo, com o título: Maurílio Luiele “ex-presidente continua a ter a batuta na mão e a comandar a orquestra”. É uma entrevista temática muito bem feita, que mostra a alegada existência de bicefalia entre João Lourenço e José Eduardo dos Santos. Os jornalistas do Correio Angolense tiveram um grande sentido de oportunidade ao ir buscar uma voz de um deputado da UNITA, que critica o que acha estar mal e elogia o que acha estar bem. Uma entrevista equilibrada, com perguntas diversificadas tanto a favor como contra o Executivo de João Lourenço e a favor e contra o MPLA. É uma entrevista que pode servir de estudo do bem fazer jornalismo. Perguntas muito bem elaboradas e até com sentido pedagógico. Os estudantes de jornalismo, comunicação social e ciências da comunicação devem observar como se faz uma entrevista imparcial e seguir o exemplo de como se faz bem. Severino Carlos e Francisco Paulo estão de parabéns pela aula de jornalismo que deram.
  • Reportagem da Rádio Mais, no jornal de sexta-feira, 9, que deu conta da superlotação da morgue do hospital central do Huambo e que provocou o abandono de oito cadáveres (cinco recém-nascidos e três adultos) à porta da referia unidade sanitária. É anormal haver uma morgue superlotada. Significa que há muitos angolanos a morrer no Huambo que até já não há espaço para “guardar” cadáveres. É notícia em qualquer parte do mundo. No entanto, a reportagem peca por também noticiar o óbvio. O repórter pôs um responsável do hospital a dizer que os cidadãos não podem abandonar os cadáveres na morgue, mas não teve um sentido crítico da situação. Não é normal morrer tanta gente ao ponto de superlotar uma morgue de um hospital central e até provocar abandono de cadáveres à porta do hospital. A Rádio Mais tem uma soberana oportunidade para fazer jornalismo de investigação com esta matéria. O repórter investigativo tem de suplantar a mera transcrição de factos negativos. O olho crítico do jornalista tem de funcionar. As outras rádios podem explorar este facto para fazer jornalismo investigativo também. Para quem quer fazer jornalismo de investigação – o que o jornalismo angolano precisa –, o que se recomenda nestes casos é “fugir” das fontes oficiais e óbvias, numa primeira abordagem. O olho do repórter é fundamental para se desenvolver jornalismo de investigação. A notícia não está, muitas vezes, nas fontes oficiais. É preciso haver um cruzamento de informações para se chegar ao quê da notícia investigativa. E um repórter investigativo tem de ter mesmo um lado de investigador policial. Tem de ver coisas onde ninguém vê. Tem de explorar detalhes que todos os outros jornalistas desprezam. Se o repórter tem dificuldade de entender o fenómeno que investiga, o que se aconselha é partilhar e colher ideias com seus colegas na redacção. E, mesmo que o seu chefe directo e seus colegas não percebam o seu sentido de investigação, não deve desistir. É preciso ser persistente para se construir uma grande reportagem de investigação. Aconselha-se que o repórter deva ter especialistas de cada área de conhecimento científico para o ajudarem a perceber os fenómenos com profundidade, ou ele próprio especializar-se numa área em que pretende desenvolver jornalismo de investigação. Já não faz muito sentido fazer-se perguntas óbvias aos entrevistados. Já não faz muito sentido noticiar-se um facto negativo sem haver reportagens bem estruturadas e pensadas com rigor, que expliquem as causas dos fenómenos negativos. Mais do que apresentar o óbvio, o repórter tem de ajudar a sociedade a pensar para além do que muita gente pensa/pensou. O repórter tem de atingir o botão de um interruptor que pouca gente vê. O TI deixa aqui algumas luzes e desafios para a Rádio Mais e outras rádios concorrentes que pretendam desenvolver jornalismo de investigação neste caso de mortes em excesso na província do Huambo. Há gato. É preciso descobrir o gato. Alguém está a esconder algo grave.
  • A Grande Entrevista que a Rádio Ecclésia realizou na quarta-feira, 7, com o jornalista Rafael Marques de Morais. Entra no positivo não por ter sido muito bem conduzida por Walter Cristóvão – aliás, Rafael Morais fez um monólogo também; não lhe foi questionado algumas contradições que pesam sobre si – mas pelo grande sentido de oportunidade, uma vez que a semana passada é antecedida por uma semana marcada por denúncias de Carlos Saturnino contra Isabel dos Santos. Sabe-se que Rafael Marques foi o primeiro a escrever sobre alegados desvios de dinheiro de Isabel dos Santos na Sonangol e portanto fazia todo o sentido que se o ouvisse em viva voz numa rádio em Angola. Só foi pena que a Rádio Nacional de Angola e outras rádios não tenham aproveitado as suas “bocas” para se fazer notícia. Está aqui mais um exemplo de que a imprensa angolana ainda não aproveita as boas iniciativas dos concorrentes. As rádios, televisões e jornais preferem “penalizar” os seus ouvintes, telespectadores e leitores com a não menção de uma matéria de grande interesse público, porquanto não existe o sentido de missão que um órgão de comunicação social deve ter acima de egos e preconceitos. Os jornalistas angolanos preferem fingir que não leram, não viram nem ouviram uma boa reportagem, entrevista ou artigo de opinião devido aos egos. Contam-se os jornalistas e órgãos de comunicação social capazes de fazer menção de bons trabalhos dos outros. Os jornalistas dos órgãos públicos estão na liderança deste aspecto negativo: não retomar o que os privados fazem. Existe esta interpretação porque muitos jornalistas angolanos não conseguem perceber que a partir de uma matéria de um órgão concorrente se pode desenvolver jornalismo de investigação e até chegar mais longe que quem produziu a matéria inicial. Não percebem que a iniciativa de um órgão não diz necessariamente haver uma melhor abordagem de um fenómeno. Isto acontece porque poucos jornalistas em Angola pensam fora da caixa. Como pensam (quase) igual, ninguém consegue ir buscar uma boa iniciativa do outro. Os privados também têm dificuldade de ir buscar boas peças da RNA. É um desafio para a comunicação social angolana.
  • O artigo assinado por Borralho Ndomba no Novo Jornal de 9 de Março. É um artigo que mostra uma dança de cadeiras na Justiça angolana. O artigo mostra a visão de um especialista em direito a dar conta de que não se pode esperar mudanças na Justiça angolana pelo facto de ter havido uma mera troca de cadeiras dos antigos juízes conselheiros presidentes do Tribunal Constitucional e Tribunal Supremo. A troca de cadeiras dos dois principais responsáveis do Tribunal Constitucional e Tribunal Supremo dá azo a um jornalismo de investigação. Não é normal. O Termómetro da Imprensa aconselha o Novo Jornal a desenvolver jornalismo investigativo para apurar o que está atrás da troca de cadeiras na Justiça e denunciá-lo numa grande reportagem. Há gato. O NJ precisa de ir mais longe. Os outros jornais também devem investigar sobre esta matéria de grande interesse público. Temos ou não Justiça credível? A troca de cadeiras representa o quê para os desafios futuros do país? Vamos ter novamente eleições polémicas em 2022? Há fraude já montada para favorecer o MPLA?
  • Outra nota positiva vai para os órgãos de comunicação social públicos e privados que não se deixaram levar pelos apelos de Isabel dos Santos nas redes sociais. Isabel dos Santos, se quiser falar para a imprensa angolana, deve convocar uma conferência de imprensa em que estejam todos os órgãos de comunicação social angolanos e estrangeiros interessados, e não estar a dizer que espera pelo convite da RNA ou TPA.  Ou fala para todos e seja submetida a perguntas variadas ou continua a falar para a imprensa portuguesa, ignorando o trabalho dos jornalistas angolanos.
  • O debate realizado pela Rádio Mais no domingo, 11, em que a existência de 30 mil angolanos a viver abaixo da linha de pobreza na Quiçama foi tema de análise por parte de comentadores. A situação da Quiçama está a ser bem abordada pela Rádio Mais, sob o ponto de vista de interesse público. O recomendável é que a RNA, TPA e Jornal de Angola, como órgãos públicos, fizessem jornalismo de investigação para explicar o que se passa no maior município da capital de Angola. A Rádio Mais está a ter uma melhor interpretação da importância de se privilegiar o interesse público, embora não faça peças com rigor técnico recomendável.

 

No próximo Termómetro da Imprensa, vai-se dar mais dicas sobre os passos que cada órgão pode dar para se conseguir fazer jornalismo de investigação e melhor aproveitamento das peças. O jornalismo de investigação é o futuro certo para a comunicação social angolana. Acima de apenas criticar ou elogiar, o Termómetro apresenta soluções para a evolução da comunicação social angolana.

 

São os aspectos mais negativos e os mais positivos da semana passada na imprensa angolana e as possíveis soluções para se evoluir. O Termómetro da Imprensa elogia o que estiver bem, critica o que estiver mal e aponta soluções para todos. Estaremos juntos na próxima terça-feira para medir mais temperaturas da imprensa angolana! Até lá!

 

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