Saber ser e saber estar

“Deixei de estar ministro. Vou ser o que de facto sou: Jornalista, escritor e professor. Um abraço a todos.” Foi desta forma que João Melo reagiu no Twitter a sua demissão do cargo de ministro da Comunicação Social da República de Angola. A publicação surpreendeu porque não é muito comum entre nós os governantes comentarem as suas nomeações ou exonerações, levou a questão de “estar” na política e “ser” na vida.

Independentemente das razões da sua exoneração, acho que um político deve ter elevação e nobreza na hora da saída. Um político é um servidor público e como tal deve ter um espírito e sentido de missão. E a questão do “ser” e “estar” que João Melo coloca é interessante e ajuda a clarificar certas situações. “Estar ministro” é uma situação temporária, pois ministro não é profissão, é uma função. A “profissão” deve estar acima da “função”. Tal como ser escritor não é profissão, é vocação. João Melo anunciou que voltará aos ofícios de jornalista e professor e manterá a vocação de escritor. Infelizmente entre nós há quem não tenha outra forma de ser e de estar na vida, e faz da política uma profissão e da permanência nos cargos uma fixação. O poder é um perigoso afrodisíaco e facilmente se ganha gosto por ele. Esta faculdade de mandar e ser obedecido cria nas pessoas uma grande dependência e certas ilusões. Ter poder ou estar ligado ao poder é o objectivo de vida para muitos.

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É muito comum ouvirmos casos entre angolanos de governantes que recorrem às forças ocultas para permanecerem nos cargos, de outros que acabam tendo AVCs quando são informados da sua exoneração, recentemente houve o caso de uma ministra que alegadamente terá tentado colocar fim a vida quando tomou conhecimento da sua exoneração. Mas há mínimos éticos que o Executivo de João Lourenço precisa de adoptar nestas situações e evitar um procedimento que vem do passado, pois se da mesma forma que um cidadão é informado/convidado para exercer um cargo no Governo não custa fazer um pequeno esforço e ter a elegância de avisar de forma antecipada da sua dispensa. Um servidor público, que se dedica e abdica de momentos da sua vida pessoal/familiar, que exerce cargos em representação do Executivo, vem tomar conhecimento da sua exoneração pela comunicação social é deselegante.

Em Portugal, Pedro Passos Coelho, deixou de ser primeiro-ministro (em Portugal, o primeiro-ministro é o chefe do Governo) e foi dar aulas numa instituição de ensino superior. A líder demissionária do CDS/PP, Assunção Cristas, já tem confirmado o seu regresso à Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, de onde saiu para ingressar numa carreira política. É comum por cá, os cidadãos saídos das diferentes áreas do saber, meterem-se na política para fazer currículo, criar network, ganhar influência (mas também há aqui os esquemas, os tais jobs for the boys), mas em regra lidam bem com uma vida fora da política.

Hoje muitos jovens andam na política e nem querem saber de regras estatutárias, da ética e da deontologia. O importante é usar esta posição para atingir cargos governativos, pois se passa a ideia de que estes cargos trazem benesses e certa influência, além da garantia de um bom futuro. Daí que as pessoas se submetam a certas humilhações e “engulam sapos” para permanecer nos cargos. É preciso que se explique aos jovens que se está na política para servir e não para se sre servido.

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Há mais vida para além da política e admiro as pessoas que têm a facilidade de se libertar das amarras e entranhas do mundo da política. As máquinas político-partidárias são obsoletas, burocráticas e manipuladoras, absorvem as pessoas e limitam-nas no sentido de ficarem com a ideia de que não há mais mundo para além daquele. Tenho muitos amigos que “estão” na política e que não são felizes, não têm vida familiar e vivem com o medo da “eminente exoneração”, sendo o maior medo de muitos não ter vida ou futuro que não seja na política. Em Angola há uma sobrevalorização do papel do político e do exercício de cargos políticos, o que é mau e tende a não valorizar outras profissões. É uma ilusão, uma ideia errada. Um bom servidor público não precisa de necessariamente estar ligado ou sujeito aos ditâmes das máquinas partidárias, certos caprichos ou interesses de grupos.

Foi só na hora da saída, que João Melo, percebeu que vale mais “sendo” escritor, jornalista e professor, do que “estando” ministro. E nisso concordo com ele: sempre gostei mais do João Melo escritor do que do João Melo ministro. É o mesmo sentido que tenho em relação a grande parte dos que “são” escritores e “estão” em cargos públicos. Depois do livro O Dia em que o Pato Donald Comeu pela Primeira Vez a Margarida, João Melo tem tempo suficiente para escrever o livro: “O dia em que o escritor João Melo se meteu pela última vez na política.” Ficou o exemplo, a lição e a clarificação entre o “ser” e o “estar” na política. Pois na política é preciso saber “estar” e na vida é preciso saber “ser”. Infelizmente João Melo só descobriu isso ao sair, que os seus colegas percebam isso ao entrar. Há mais vida para além da política!

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