Saudades de um verão que ainda não acabou

A condição de migrante, sabe quem a experimenta, retira-nos, muitas vezes, a dimensão humana e/ou afectiva das coisas. A vida agitada que vivemos em busca dos objectos que, nalguns casos, terão provocaram o abandono da pátria que nos pariu, leva-nos a abdicar do sossego próprio para, através de muito sacrifício físico e mental, prosperar. Conquanto, num paralelismo justo, surgem às férias – de Verão. É nesse período que nos permitimos tragar algum descanso e explorar nossas disposições interativas e até espirituais. Este tempo de sol autoriza-nos a redescobrir, dentro de nós mesmos, o ser embebido pelos voluptuosos tecidos migratórios.

Para a minha pequena família o verão tem uma estreita ligação com a capital portuguesa, Lisboa (distante que estamos, esta cidade nos aproxima da nossa terra devido à sua arquitetura, o clima e, porque não, a sua gente). reatamos laços, redesenhamos traços e reavivamos abraços. É também por estás paragens que encontramos alguns parentes do antigamente, os amigos de kandengue e as malambas de muita boa gente.

Este verão, a exemplo de vários outros, foi especial. Trouxe consigo sentimentos, momentos e gentes muito boas de se estar com. Voltei a abraçar o meu mano Idalézio – ou Ti-zerinho, alcunha que lhe serviu nos tempos de criança devido à abstinência de golos que experimentava nos vários jogos em que jogava como ponta-de-lança – não o via há vários anos, por altura do nosso último encontro estava com apenas 14 anos de idade. Hoje o Ti-zerinho está um homem. E para a nossa felicidade, a sua área de atuação profissional passa bem longe do futebol.

O verão não é mesquinho, portanto, não gosta de oferecer pouco àqueles que de si muito esperam. Consequentemente, tive o prazer de assistir o lançamento do mais recente livro do meu mano Salambende Mucari, Riscos e Rabisco, um livro que consumiu dois dos 14 dias de férias de que desfrutei e, como esperava, valeu a pena o ter lido. Deliciei-me com a prosa do amigo. Pois a dinâmica que imprime em seus versos, espelha de forma singular à alegria com que o autor pinta seus textos. Por isso, quanto terminei o livro vi-me obrigado a enviar uma mensagem de felicitação àquele mano que, na assinatura que colocou no meu livro, avisou-me “ tu és o próximo.

Entre sóis que acastanhavam-me à pele e ventos que me arrebitavam os pelos, conheci pessoas incríveis, pessoas que se verão obrigadas a conviver comigo para todo o quanto que durar o tempo. Pessoas com as quais me identifico, pois elas acreditam que com o trabalho que desenvolvem podem mudar todo o universo se as permitirem.

Reencontrei a Tia Lourença e a tradição manteve-se, sempre que vamos para Lisboa, eu e o meu mano Neosande – com quem costumo partilhar boa se não a maior parte das minhas férias anuais – temos de ir à casa da tia degustar dos quitutes da terra que ela muito bem sabe “duzir”, e desta vez não foi diferente, o Funje de Muamba de galinha rija serviu de batismo no nosso primeiro almoço. No segundo, o Funje fez-se acompanhar de uma carne seca e salgada banhada em molhos e verduras. O tinto do vinho também jogou o seu papel no paladar mas são as conversas da kota mais o carinho com que sempre nos recebe que parecem ajudar na digestão. Essa tia também gosta muito de mimar os sobrinhos, pá.

Enfim, já sinto saudades destas férias que ontem terminaram e ainda mais falta sinto deste verão que se prolonga. Um verão que no auge de sua ousadia, ousou provocar tensão onde o amor repousara, distúrbio onde o sossego dormira e paixão quando o coração recusara.

Os tempos bons apenas pecam por sua duração, são quase sempre muito curtos. Desta forma, compelido pelas circunstâncias, retenho comigo vontades, queres e desejos. Entre os queres fica a vontade de realizar o almoço planeado com os amigos Daniel Neves e Armindo. Entre às vontades fica aquela de prolongar os dias de férias e alegrias. Finalmente, entre os desejos reavivamos aquele de que o próximo Verão seja tão bom ou melhor que este que, apesar de estender-se até um pouco depois do final deste mês de Agosto, para aquele que vos escreve está terminado e é hora de voltar à “labuta”.

Até o próximo verão!…

Deixe o seu comentário