Savimbi ressuscita na imprensa

Afinal não se foram os tempos em que o monstro de Angola – Bela! – era  o causador de todas as desgraças do país. Ainda me lembro do meu tempo, enquanto miúdo, em que (quase) todos os jornais falados e escritos faziam a “patriótica” questão de negritar Savimbi, nos seus textos, como o mandatário-mor do linchamento de postes de iluminação eléctrica, o que impedia a visita permanente de luz nas (res)idências dos angolanos, de Cabinda ao Cunene.

Jonas Malheiro Savimbi sai, na era da “correcção do que sempre esteve mal” – do  túmulo de igrejas “santistas” e “jambistas”! – para fazer uma “restauração” da história, e desta vez não o faz à cabeça de José Eduardo dos Santos. Desta vez regressa à cabeça de João Lourenço, o Presidente da República de Angola, que confiou os destinos da imprensa a jornalistas seniores que, no seu entender, garantiriam a tão propalada “correcção” ao nível de um sector que se viu em queda livre durante os 38 anos de JES.

O autor do pensamento “primeiro o angolano” foi motivo de manchete da edição n.º 15172 do Jornal de Angola, de 12 de Fevereiro de 2018, para se mostrar publicamente que o falecido “monstro do costume”, e “serial killer” na primeira posição, num ranking acima de “Jack, o estripador”, “era um homem cheio de contradições” – para não variar os adjectivos monstruais ao alegado inimigo de Angola dos tempos em que o vento nada levou.

O típico raciocínio “imprenssista” do jornal público, pago pelos contribuintes angolanos, sem distinção “savimbista” – pelo menos em teoria na Constituição da República de Angola (CRA) –, mostra, claramente, mais um atropelo à Constituição, no direito de igualdade perante à lei e mediante a lei (a não discriminação estabelecida nos artigos 22.º e 23.º) e à Lei de Imprensa, Lei n.º1/17 de 23 de Janeiro, artigo 10.º (Interesse Público), no ponto 1. nas alíneas a), b), c) e e), que orientam que as notícias devem ser elaboradas respeitando a consolidação do Estado angolano para “reforçar a unidade” (…) informar o público com verdade, independência, objectividade, isenção e imparcialidade (…) e promover o respeito pelos “valores éticos e sociais da pessoa e da família”.  Ora, não se consegue compreender a razão objectiva de um jornal público ter trazido, nesta altura de necessidade de união de forças de todos os angolanos, sem excepção, para tirar o país do abismo, uma história, com uma versão unilateral, em que o entrevistador e o entrevistado (ambos jornalistas) ignoram a Constituição e Lei de Imprensa, para além de questões éticas e deontológicas, que se exigem no exercício do jornalismo – num país normal.

A referida “notícia” do Jornal de Angola, para além de não satisfazer o “Interesse Público”, não traz nada de novo. Temos aqui duas variáveis que refutam a ideia de que estamos perante uma “informação jornalística”, porquanto, há muito que os angolanos ouvem, vêem e lêem – sempre no  “ouvi dizer”! – que Savimbi terá sido o assassino implacável da história de Angola, em que seus familiares não terão fugido à alegada chacina, e  o causador de todos os males aos angolanos. Por outro lado, o visado já não se encontra vivo para que, eventualmente, pudesse ter direito ao “direito de resposta” face a acusações, que, na verdade, não constituem nada de novo. A pergunta mantém-se: por que razão se foi buscar uma alegada notícia para ressuscitar Savimbi, se hoje, em Angola, os então irmãos desavindos já fizeram as pazes, partilham, em paz, a mesma pátria que é de todos sem excepção?!

Para além de não ser notícia, no meu entender, a entrevista, feita pelo jornalista Santos Vilola, com categoria de editor-chefe do JA, não respeitou princípios básicos para a elaboração de uma entrevista, que seria destaque de um jornal (sério). O entrevistador, Santos Vilola, trata o entrevistado, Sousa Jamba, por “tu” e por “você” ao mesmo tempo: “vens” (tu) a Angola…; “estás” (tu) a preparar um livro…; como é que “sente” (você) quando chega (você) a Angola …, o que demonstra ter havido pouco rigor técnico para que tal “notícia” fosse extraída de uma entrevista (séria), como manda a ciência. Outrossim, a entrevista está mais virada para uma conversa de bar, sem qualquer rigor técnico,  entre colegas da mesma profissão, com interesses alheios ao da profissão, o que também pode servir de análise de desempenho tanto para o entrevistador quanto para o entrevistado, que, à partida, deviam dominar as variáveis que concorrem para um trabalho isento, imparcial, com Interesse Público e com respeito à ética e deontologia profissional.   

Este raciocínio grotesco, na entrevista, tão acusadoramente “típico-alibista”, faz-me chegar à conclusão de que o Jornal de Angola só podia, para não variar, fazer capa política de “contradições jornalísticas” com uma figura que não se pode defender, mesmo que pretenda ressuscitar, constituindo um claro atropelo à Constituição e Lei de Imprensa, e nunca, por sinal, procurar “contradições” com figuras vivas da nossa política, com assuntos que mais merecem “interesse público”, como é o caso de se saber justificações da então governação de José Eduardo dos Santos, ex-Presidente da República, e actual presidente do MPLA, que, claramente, nos dias de hoje, mostra que não foi a tão Bela do monstro, como se dizia. Aliás, podemos lembrar que os recentes pronunciamentos de uma figura incontornável do MPLA (Ambrósio Lukoki), com duras críticas à governação de Dos Santos, manifestados em conferência de imprensa, não tiveram o mesmo destaque no Jornal de Angola, o que, de per si, demonstra estarmos perante um jornal inclinado, que continua a distorcer a opinião pública.

Talvez existam algumas perguntas genuinamente profundas e significativas que permanecerão para sempre nas nossas mentes – fora do alcance das ciências que concorrem para o bom exercício jornalístico –, para percebermos as reais razões de se fazer ressuscitar, no Jornal de Angola, Jonas Savimbi, o monstro do costume, numa altura em que a chama popular de esperança, a todos os níveis, a João Lourenço se apaga, à medida que os seus 100 primeiros dias de governação, com alguma expectativa, se distanciam.

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