Secas e Cheias, Lixo e Cheias

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Há dois adágios, em português, dizendo, mais ou menos, isto que “que não há mal que sempre dure, nem bem que perdure” ou “que não há fome que não dê em fartura”. É o que parece se passar em Angola, nesta altura…

Há já uns anos – por muito poucos, são sempre demais, – que o Sul de Angola, nomeadamente nas províncias do Cunene, do Cuando-Cubango, ou da Huíla, pena com uma persistente seca com as nefastas consequências para as pessoas e para os animais.

A solidariedade que, quer do País, quer de fora, não tem sido suficiente para minorar a grave situação. As respectivas administrações – locais e provinciais, e, porque não dizê-lo, Central, – nada parece ter tudo feito para aliviar este problema que, não só não é de agora, como – como em toda a natureza – é cíclico.

Falta de protecção de cacimbas, existência e prática de furos indiscriminados, não construção de pequenas represas e, ou, de barragens agrícolas e para criação de reservatórios artificiais de água, são exemplos inacabados de desídia administrativa.

A própria seca que afecta Angola, também está a atingir o rio Zambeze, que passa por Moxico e Cuando-Cubango, ao ponto das cataratas do Victoria Falls mais não ser que um fio de água. De tal forma que, por certo, se faria a centena e meia de metros de largura das cataratas a vau…

Não só se deve à falta de água – problemas ambientai – como, também, para excesso de barragens que, segundo uns, seriam para regularizar o caudal, segundo outros para obtenção de electricidade e, ou, servir de reservatórios de água. Só que uma coisa é um rio nacional, outra, bem diferente, é ser um rio internacional…

São muitos os analistas que afirmam que a próxima – e efectiva – guerra mundial se deverá à falta e água. Basta ver o que se passa entre Portugal e Espanha, com os rios transnacionais do Tejo e Guadiana, entre Jordânia, Israel e Palestina, por causa do Rio Jordão, ou, mais recentemente, o que se passa com o Nilo, entre a Etiópia, Sudão e Egipto não só por causa da grande barragem etíope que está, ou em vias de, a ser construída na Etiópia, e – ainda não se fala, mas vai ser, por certo, objecto de inúmeras questões e manifestações – a construção da central nuclear na Etiópia – o único rio com capacidade para arrefecimento, só pode ser o Nilo…

Pois se uns sentem a falta do precioso líquido – o nosso organismo é constituído por cerca de 60 a 70 por cento de água – outros há que padecem de inundações que, ainda que seja resultante de acções da Natureza, são, como acontecem, pouco admissíveis de ocorrer.

Por exemplo, e porque me toca particularmente como filho desta Cidade, parece que a cidade do Lobito virou Veneza. Por recente foto e notícia do Jornal de Angola, é uma pergunta, uma observação, que se pode colocar…

Onde está, o que fez ou anda a fazer a Administração local para limpar sarjetas, caneiros e acesso ao mar para as águas pluviais? Querem novas enxurradas ou novas catástrofes como as ocorridas não há muito tempo? Talvez devessem ir (re)ver a História quando em 1966, 68 ou 1969 o Liro, a Canata, ficaram submersas por causa das águas que vieram dos morros e as centenas de vítimas que isso causou.

Talvez a Administração do Lobito devesse estudar o que, e o quanto ,isso serviu de exemplo para não mais ter acontecido algo similar nas décadas seguintes.

Nunca me recordo do Bairro da Luz – São João, sim, de vez em quando, e por causa do Cassequel – de ter sido alvo de uma cheia como a que a notícia indica. E também havia zonas lodosa e pluviais próximas, até ao aeroporto, e, ou, era circulada pelos canais da Cassequel. Nem depois da independência se soube de tais inundações.

O que anda a fazer a Administração do Lobito?
Ser-me-ia fácil rogar ao seu actual mais ilustre filho, o Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço, que lá interviesse. Mas isso seria visto – e de certa forma, compreendo, – como procurar benefícios para a sua, a NOSSA, Cidade. 

Esta situação é, de todo, inadmissível!
Mais ainda quando circulam nas páginas sociais inúmeras fotografias do Lobito, nomeadamente em zonas ditas nobres, onde o lixo é a parta “mais fotogénica”!

Ora lixo e inundações podem ser sinal de inúmeras e graves doenças para os munícipes…

E, por exemplo, uma das áreas que é referida na notícia do Jornal de Angola, em 2009 estava a ser totalmente reabilitada, e no seu “subsolo” estava a ser feita não uma conduta em aros, mas uma autêntica via sob a avenida. Ora como é possível eu ler, e cito «Na avenida que dá acesso ao Bar/Africano e o Obelisco, os carros e motociclos quase que são “engolidos” pela água, pelo

que os ocupantes são obrigados a abandonar os veículos». E esta via foi inaugurada, à época com razão, com pompa e circunstância…

Esta situação é, totalmente, inadmissível! É uma questão de falta de tratamento das condutas dos esgotos, das sargetas. Ou seja, é todo um saneamento básico deficiente!

Há que extrair responsabilidades, doa a quem doer. Ao Administrador da Cidade, ao Governador Provincial, seja a quem for…

Mas também o Presidente tem responsabilidades, mesmo que indirectas, nos administradores que são colocados nos municípios, dado que é o Presidente que nomeia o Governadores Provinciais e estes a maioria, se não mesmo a totalidade, dos administradores.

Se, como é referido na peça do Jornal de Angola, o administrador municipal do Lobito, Nelson Joaquim da Conceição, afirma que «a Administração não possui verbas para dar solução a essa problemática», então o Governador Provincial – responsável directo – porque parece que nada faz, ou terá feito, seja no Lobito, em Benguela, Catumbela, Baía-Farta, Caimbambo, ou outras localidades da Província de Benguela, que seja chamado à responsabilidade e que o Mais Alto Magistrado da República saiba ler o que deve fazer.

Esta inundações, bem como a deficiente atitude dos responsáveis locais com a seca, ou com o inadmissível acumular de lixos, não deixam de ser situações que, no mínimo, são, absolutamente, inadmissíveis!

* Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL(CEI-IUL) e investigação para Pós-Doutorado pela Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto; Investigador associado do CINAMIL**

** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado

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