Significativas Rupturas

O gesto de João Lourenço de receber representantes de organizações da sociedade civil e activistas significa decisivas rupturas do presidente com concepções e práticas anteriores e traz encorajamentos para o futuro.

A prática instituída no MPLA desde a luta de libertação, e consolidada na Angola já independente, era a de intolerância para quem, das suas fileiras, tivesse ideias diferentes das ditadas pela direcção partidária. Era uma intolerância que podia levar a prisões e execuções, como tragicamente sucedeu. Essa intolerância estendeu-se, é claro, a adversários políticos, até ao seu extermínio, muitas vezes, como o provam a história do país independente.

Apesar de instaurado formalmente o regime pluripartidário em 1992, fruto dos acordos de Bicesse para o fim da guerra civil, o partido governamental e o executivo actuavam no sentido de limitar o exercício das garantias e liberdades dos cidadãos, situação que se agravou nos últimos anos, até à tomada de posse do novo presidente. Os elementos mais visíveis desta postura do poder político eram os rancorosos editoriais do Jornal de Angola e a perseguição a activistas jovens que viriam a ser cognominados de “revus”, acabando no seu encarceramento.

O que vimos agora?

O novo presidente recebeu no palácio presidencial activistas que o seu antecessor mandara prender por ridícula alegação de “tentativa de golpe de estado”; recebeu representantes de organizações que criticavam e criticam actuações e políticas governamentais; recebeu Rafael Marques que tanto tem denunciado a cleptocracia e atropelos de direitos humanos.

Assim, João Lourenço rompeu pública e solenemente com as concepções e práticas que têm enformado o MPLA; rompeu com a prática governativa de perseguição e calúnia de quem pensa diferente; rompeu acintosamente com a postura repressiva que tinha sido a do seu antecessor. Ao mesmo tempo, o gesto do presidente reabilitava perante a opinião pública quem fora perseguido.

Foram rupturas muito significativas que indicam a categórica rejeição dum caminho trilhado até agora e apontam para uma nova via: a do diálogo com a sociedade civil, sua auscultação, a sua solicitação para que colabore na resolução dos problemas nacionais.

Penso que foi um momento histórico angolano, quer pelas rupturas efectuadas, quer pelas perspectivas que abre.


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