Stieg Larsson indica envolvimento da UNITA no assassínio de Olof Palme

O escritor sueco Jan Stocklassa, autor de um livro sobre a morte do antigo primeiro-ministro da Suécia Olof Palme, disse à Lusa que o crime pode ser resolvido “em breve”, e que tem uma forte suspeita sobre a identidade do assassino.

“Tenho uma firme convicção sobre quem matou Olof Palme, mas não o posso afirmar. Afinal cabe à polícia apresentar as provas”, disse à Lusa Jan Stocklassa autor do livro “Stieg Larsson – Os arquivos secretos e a sua alucinante caça ao assassino de Olof Palme”, que chega às livrarias portuguesas na terça-feira.

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Olof Palme, primeiro-ministro sueco, foi assassinado a tiro em Estocolmo na noite de 28 de fevereiro de 1986 por um desconhecido, permanecendo o crime sem resolução e a ser investigado pelas autoridades suecas.

O livro “Stieg Larsson – Os arquivos secretos e a sua alucinante caça ao assassino de Olof Palme”, de Jan Stocklassa (editora Planeta, 468 páginas), foi traduzido para o português por Eulália Pyrrait e encontra-se nas livrarias a partir de terça-feira. O livro tem como ponto de partida os arquivos pessoais do famoso escritor sueco Stieg Larsson que, além de denunciar durante vários anos as atividades dos grupos de extrema-direita na Suécia, investigou a morte do antigo primeiro-ministro. 
O triângulo magnicida: UNITA, apartheid, neo-nazis suecos
Larsson, jornalista e romancista, autor da saga “Millenium”, que morreu em 2002, investigou, nos anos 1980, as supostas ligações entre o representante da UNITA em Estocolmo e os movimentos de extrema-direita nórdicos, diz Stocklassa.

De acordo com a teoria exposta por Stocklassa, Olof Palme preparava-se para travar o negócio de armamento entre a África do Sul e o Irão e que envolvia empresários suecos.

O movimento de armas e pólvora da África do Sul estava, segundo o livro de Stocklassa, enquadrado no esquema Irão/Contras montado pelo norte-americano William Casey, diretor da CIA durante a presidência de Ronald Reagan.

“Os sul-africanos tinham razões para censurar Palme, primeiro devido ao seu envolvimento contra o `apartheid` e também, se se tivesse verificado, pelas suas tentativas para bloquear o negócio de armas”, escreve o autor.

Neste contexto, o espião sul-africano Craig Williamson terá organizado o atentado contra Olof Palme utilizando “grupos de assistência” com base em Estocolmo, nomeadamente através de Anders Larsson e da “rede” do “intermediário” sueco Bertin Wedin que penetrava os grupos de extremistas.

“A teoria determina o grupo de planeamento, comando operacional e o grupo de assistência operacional, em que se enquadra Luís Antunes, representante na Suécia da guerrilha angolana UNITA, contacto de Anders Larsson”, escreve Stocklassa.

O sul africano Craig Williamson, que entre outros coordenou o ataque contra Joe Slovo do Congresso Nacional Africano (ANC), em Maputo, Moçambique, nega em entrevista ao autor do livro a participação no assassinato de Olof Palme.

“Acusaram-me de muitas coisas. Disseram que estava por trás do homicídio de Palme, da queda do avião de Samora Machel, do atentado de Lockerbie. Nada disso faz sentido. Nunca estive envolvido no assassínio de Olof Palme”, disse Crag Williamson a Jan Stocklassa.

No livro, o autor traça igualmente o perfil de Stieg Larsson, como ilustrador na agência de notícias sueca TT, e depois como fundador do jornal onde denunciava e investigava as atividades dos movimentos de extrema-direita dos países nórdicos, referindo as relações da UNITA sobretudo com Anderss Larsson figura central na “teia formada pela extrema-direita sueca”.

“UNITA: Movimento de guerrilha angolano apoiado pelos Estados Unidos, tem um gabinete em Estocolmo e ligações à CIA. O seu representante, Luís Antunes, surge em várias das organizações anteriormente citadas. Anders Larsson procurou aí uma posição depois de ter abandonado o Comité do Báltico”, refere a longa lista elaborada por Stieg Larsson sobre organizações e individualidades com ligações à extrema-direita.

As listas “arquivadas em duas caixas de cartão” por Stieg Larsson são acompanhadas de descrições sucintas: uma para pessoas, a segunda para organizações, a terceira com endereços de Estocolmo.

Os documentos, notas e artigos de jornal arquivados por Stieg Larsson são datados do final da Guerra Fria e da Guerra Civil em Angola, sendo que Jan Stocklassa, em concreto, sobre o antigo representante da UNITA em Estocolmo, não confronta a atual direção do partido angolano.

Em entrevista à Lusa, o autor admite contactar a UNITA no contexto de um futuro livro sobre o mesmo tema.

As barreiras de silêncio, as investigações falhadas, as negações e as metáforas são referidas no livro em que o autor ao reproduzir a entrevista ao antigo mercenário Wedin destaca também a provável relação (não provada) entre o assassinato de Olof Palme e o atentado líbio que derrubou o voo Pan Am 103 sobre a Escócia, em Lockerbie, em 1988, porque a bordo se encontrava Brent Carlsson, um colaborador do primeiro-ministro, que “sabia tudo” sobre o crime de Estocolmo.

Segundo Wedin, “o alvo do ataque terrorista teria sido Brent Carlsson e um dos motivos era o facto de ele saber quem tinha assassinado Palme e porquê”, refere.
As falhas da investigação policialStocklassa, que diz manter contactos regulares com a polícia sueca no quadro da investigação do assassinato de Olof Palme, destaca que, no mês passado, foi detetado um ‘walkie-talkie’ que terá sido utilizado pelo comando que organizou o crime.

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“Há um mês aconteceu um desenvolvimento muito interessante, quando contactei uma pessoa que tinha um ‘walkie-talkie’ que foi encontrado dois dias após o assassinato. Provou-se que era verdade. Quatro jovens que passeavam pela rua encontraram o `walkie-talkie` na rota de fuga do assassino”, explica Stocklassa, acrescentando que, na altura, “os jovens” não entregaram o aparelho de comunicação à polícia.

“Um amigo tinha-me contado esta história há um par de anos e agora conseguimos contactar as pessoas. É uma história muito credível e eu acredito 100% nela. Persuadi a pessoa que mantinha o ‘walkie-talkie’ a falar com a polícia, e agora a polícia está a investigar e talvez possa conseguir alguma coisa com o número de série e a marca do `walkie-talkie`”, afirma.

Da mesma forma, Stocklassa diz ser possível localizar o revólver que terá sido utilizado para matar Olof Palme, e que – segundo os dados que recolheu – pode estar “escondido” num cofre na Suécia.

“Eu penso que é possível localizar a arma. O assassino levou a arma com ele. Era um revólver de grandes dimensões. O normal teria sido o assassino desfazer-se da arma, mas eu penso que ele a levou como um troféu. As pessoas que mataram Olof Palme consideram que ele traiu a sociedade sueca e por isso quiseram guardar a arma que mudou a História da Suécia”, defende Stocklassa.

O autor do livro sublinha que as autoridades “não conseguiram resolver o crime durante os últimos 33 anos” por “incompetência”, e que quer ajudar a resolver o assassinato entrevistando pessoas que nunca tinham sido abordadas pelos investigadores no passado. “Acredito que o crime pode ser resolvido sem grandes dificuldades, dentro dos próximos dois anos”, diz.

“Desconhecia que Stieg Larsson, o nosso mais famoso escritor de novelas policias, esteve perto de conseguir resolver um dos mais misteriosos assassinatos de sempre”, sublinha Stocklassa que acedeu aos arquivos através da companheira de Larsson, Eva Gabrielsson.

O livro, explica o autor, “é a versão reduzida” que enviou para os procuradores judiciais de Estocolmo que lhe pediram para consultar o manuscrito, antes de ter sido publicado na Suécia, em 2017.

“Espero que este livro sirva de prova na investigação criminal”, diz Stocklassa acrescentando que também se preocupou em traçar um perfil do antigo primeiro-ministro, assassinado em 1986.

“Eu admiro Olof Palme pelo que conseguiu alcançar na política internacional. Era um político extremamente inteligente, mas muitas pessoas encaravam-no com ceticismo na Suécia. Era extremamente competente e talvez a Suécia fosse, na altura, demasiado pequena para valorizar a sua grandeza. Tinha muitos problemas políticos internos, mas no estrangeiro fez muito, sobretudo contra o colonialismo, e tomou posições firmes contra as superpotências. Fez muito”, conclui o autor que elabora também sobre o possível envolvimento do regime do ‘apartheid’ sul-africano na morte do primeiro-ministro.

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