Temos novo Presidente, mas o que teremos pela frente?

Investido hoje no cargo de presidente de Angola, João Lourenço sucede a um presidente que tardiamente abandonou o poder: José Eduardo dos Santos.

Na realidade, o presidente cessante poderia ter realizado uma saída gloriosa aproveitando a aura da vitória militar sobre a UNITA e o efeito das condições magnânimas de integração oferecidas aos seus dirigentes combatentes, o início de um processo de reconciliação nacional e de reconstrução do país. Todavia, todo este enorme capital político foi desbaratado com a sua decisão de mudar a constituição vigente e substituí-la pela de 2010, que lhe conferiu um poder reforçado, quase absoluto.

Poderíamos ter admitido ter sido isso um mero erro político, mas os factos vieram comprovar que se tratava de um projecto pessoal de poder, confirmado no culto da personalidade, na ostentação das cerimónias oficiais, na distância física que, em palanque, o colocava perante os seus ministros ou os deputados na Assembleia Nacional. Acrescente-se a não autonomia do poder legislativo e judicial face à presidência da república. Junte-se a isto as nomeações ou exonerações arbitrárias de dirigentes que fez nos vários sectores da governação ou das empresas públicas, a ampliação dos privilégios e favores concedidos a membros da sua corte política ou familiar e a intolerância face a contestatários.

Foi empalidecendo a sua aura e só o artificialismo da poderosa e servil máquina da comunicação social estatal encobria esse facto evidente assim como as consequências da adopção de políticas económicas e sociais erradas, dos privilégios e riquezas exorbitantes de uma clique rodeando o poder, a par da pobreza que atinge a maioria da população.

O abaixamento dos preços de venda do petróleo veio pôr a nu todas as fragilidades da economia angolana, revelou os erros da governação, agravou as condições de vida das populações. O endeusamento da figura de José Eduardo dos Santos não era suficiente para contrariar o descontentamento de largos sectores da população, incluindo meios afectos ao MPLA. A doença do presidente cessante e estes factos conjugaram-se para que ele, finalmente, decidisse abandonar o poder. E, assim, temos um novo presidente, saído das eleições de 23 de Agosto passado.

O general João Lourenço, que hoje toma posse, tem pela frente árduas tarefas. Uma, e muito importante, é livrar-se paulatinamente do espartilho à sua acção organizativa e governativa criado pelo seu antecessor em decretos de última hora. E há muitas outras, mas refiro só algumas: tomar conhecimento da verdadeira situação das finanças públicas, adoptar uma política que, de facto, seja orientada para a diversificação da economia, na qual os empresários angolanos deverão ter papel de destaque; fazer actuar o governo nos sectores sociais mais carenciados; criar nos cidadãos a tranquilidade e vontade de participação, através de efectiva aplicação dos direitos e liberdades.

Sou de opinião que, a par destes desafios, há duas tarefas políticas essenciais para mobilizar os cidadãos e fazê-los participar empenhadamente na reconstrução nacional e na elevação do bem-estar da população angolana. São tarefas de grande importância estratégica que o presidente João Lourenço  tem pela frente: 1.modificar o actual quadro  institucional que atrofia a vida do país; 2. preparar a implantação do poder local para que as eleições autárquicas se realizem a meio do seu mandato.

Ao novo presidente da república desejo os maiores sucessos ao serviço do povo angolano.

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