Um elegio à verticalidade

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(uma espécie de leitura do discípulo de um mestre que lhe treinou a partir ELOGIO À DITADURA DE XENOFONTE)

Com a realização das eleições dá-se, de facto, o encerramento de um ciclo e início de outro. O processo ainda não encerrou como tal, imensas coisas a lamentar, instituições em debandada, com clara noção que “isto agora é que vai doer” ou a fazer “jurisprudência de tabloide”. Antes disto, houve bastantes manifestações de agradecimentos, por isso, venho juntar a minha voz a tantas outras que explícita ou implícita o fizeram. Quero agradecer, não às centenas de milhares de “Kotas” que na fase de penetração, ocupação e colonização efectiva, no fim da sua adolescência e/ou no vigor da sua juventude, saíram da zona de conforto das respectivas famílias, da escola, dos amigos e abraçaram a causa da liberdade e da autodeterminação dos povos de Angola.

Quero render o meu tributo aos atletas da liberdade que do Maqui, Mwangai ou Nzeto, das florestas de Maiombe, das matas do Mbaza Kongo, nas chanas do leste, nas ruelas dos kimbos nas cidades, nos corredores dos liceus e nas avenidas do ocidente preferiram o combate (guerrilha ou intelectual) à covardia.

Quero dizer muito obrigado aos que acima citei e que, após a independência, continuaram firmes no ideal de fazer uma Angola melhor, inspirando outras gerações e trabalhando e pugnando pelo mesmo ideal de outrora!

Gratidão profunda a todos estes que não se embriagaram com o doce vinho da corrupção, não engordaram física e financeiramente à custa de uma forçada dieta infringida ao povo e que um dia juraram defender com vida. Por isso mesmo não assumiram o monopólio de sectores como a saúde por saberem que não tinham capacidade o gerir e, por isso, e por isso, não logrando ao povo pelo qual se bateram;

Eterna gratidão às centenas de anónimos, que nos idos correram risco de vida para garantir dignidade ao angolano e apesar da independência, não esfregaram na cara de ninguém este rótulo e continuaram igualmente a viver de forma digna assistindo ao saque desenfreado dos bens públicos. Não reclamaram, nem em privado nem público, para si ou para os seus um quinhão da riqueza de todo, ao contrário do que os outros fizeram num monstruoso e descarado abandono da precariedade e da pobreza para à “martelada” somarem incontáveis dígitos ao património pessoal e familiar.

Admiro-vos e, por isso, respeito-vos. Por continuardes a educar os vossos filhos com rectidão e no respeito pela coisa de todos, estimulando-os ao estudo, à competência e ao trabalho leal, honesto e justo que antecede o sucesso. Admiro-vos mais ainda por que, mesmo que sabendo que as Escolas nacionais não está em condições de competir com as estrangeiras, mantivestes os vossos filhos nestas escolas dando-lhes e acrescendo-lhes dignidade. Admiro-vos por continuardes a valorizar os quadros destas escolas e universidades e os colocardes num patamar igual ou superior ao dos estrangeiros, sem, no entanto os menosprezardes, acreditando que, como disse um nacionalista um dia “é nacional, tem qualidade e nós gostamos”. Tendo sabido dosear, na proporção do necessário, com quadros estrangeiros verdadeiramente comprometidos com Angola e seu povo, sem no entanto fazerdes a descriminação salarial negativa. Não aceitando pagar mais ao estrangeiro pelo simples facto de este ser estrangeiro ou menos ao nacional pelo simples facto de este ser nacional.

Rendo tributo a Vós que, depois de anos de luta a fio por uma Angola de todos (angolanos e estrageiros), e também – acreditais que há estrangeiros que amam mais Angola que muitos angolanos) e não exigis que o quadro nacional normal tenha competências e habilidades que as escolas existentes no país não têm nem proporcionam.

Tenho por Vós imensa e profunda gratidão, pois não manietastes a justiça, nem colocastes a comunicação social no “cafrique”, cônscios que sois que um país a sério faz-se com instituições fortes e por isso lutastes pela liberdade, igualdade e independência, logo não pactuastes que na Angola independente se cometessem actos idênticos ou piores.

Enfim, a todos os atletas da liberdade, quais guerrilheiros da razão que ao longo do tempo não se deixaram convencer nem embriagar pelo material, fútil e superficial, quais jovens sonhadores e kotas íntegros, coerentes e convictos, que como o vinho, se tornaram melhores com tempo em propósitos e princípios, pois não fizestes de Angola um privilégio apenas de alguns, não pactuastes com a corrupção, gangsterismo, vassalagem, monopolizações, nem acrescentastes mais peso no já carregado fardo do povo do qual também fazeis parte, a Vós rendo tributo, aos outros digo apenas: «a árvore ao ser podada observa com tristeza que o cabo do machado é de madeira» …

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