Um povo especial no país da era espacial

Há uns bons anos, o Presidente José Eduardo dos Santos dizia que os angolanos era um povo especial. Lembro-me que na altura o discurso foi exaltado e quase elevado ao honroso estatuto de doutrina, por um certo grupo de pessoas. Eram os tais tempos da inquestionável visão estratégica do líder. Houve também alguns sectores da sociedade que consideraram o discurso irrealista, chegando até a encarar tal discurso com uma certa dose de ironia.Na realidade nós somos um povo que tem uma grande especialidade : ser especial ! Talvez seja esta uma das nossas grandes especialidades : mostrar aos outros que somos especiais. Somos uma povo especial, somos uma espécie de especiaria cara e rara que dá sabor ao pitéu.De tão especiais que somos, se fossemos pitéu seríamos uma explosiva mistura de caril, canela e pimenta.Somos especiais, caros e raros.
A mania das grandezas, o culto das hierarquias, os títulos, estatuto e poder são o resultado desta “especialidade ” que emana deste povo também “especial ” que por obra e graça de uma governação também ela tida por “divina” se diz ou se sente agora a viver numa “era espacial”. O culto das hierarquia, dos títulos funcionam connosco de uma forma muito especial .Basta ver a forma como se comportam muitos governantes, líderes políticos, dirigentes, gestores públicos, diplomatas no seu dia-a-dia. É tudo Dr. Fulano pra aqui, Dr.Sicrano pra ali. É Sua Excelência disso, Sua Excelência daquilo. Por isso dizem que até o cão de um chefe também goza do estatuto de chefia.São canídeos tal bem eles especiais
O culto das hierarquias e dos títulos entre nós não é um produto cultural inconsciente ou inconsequente. Ele é propositado, pensado e arquitectado, para os seus cultores visa manter distâncias entre os diferentes níveis. Para eles é importante que a seguinte mensagem passe: estamos todos juntos, mas não estamos todos misturados. O fenómeno Bajús que foi criado, promovido e apadrinhado durante a  governação do Presidente José Eduardo dos Santos, foi um exemplo deste culto de hierarquias e de títulos. A necessidade de uns em alimentar o ego, manter o culto à personalidade fez que do outro lado surgissem uma espécie de ” aprendizes de Goebbels”, que numa desastrosa imitação do ministro da Propaganda Nazista, tal feitos vendedores de banha de cabro procuravam “vender” ao povo do seu líder como o “salvador da pátria perdida”. Tudo pela necessidade de subir na hierarquia, ganhar um título e ter uns cobres no bolso. Eles próprios são resultado de evolução atípica e negativa da espécie, passaram por um estranho processo de transformação histórico-antropológica em que começaram como engraxadores, passaram para lambe-botas, lambe cús e até chegarem a bajús. Sem norte e sem perceberem os “wind of changes” que se aproximavam foram vendo o seu líder capitular perante um paciente, legítimo e até democrático “Desembarque na Normandia” de João Lourenço e toda a sua armada, sendo que com as calças novas que estão a ser costuradas para se usar em setembro, só lhe resta agora o título de “órfãos da bicefalia”.
Gostamos do bom e do melhor, mas nem é tanto pelo prazer de usufruir. É mais pelo gozo de ostentar, de mostrar que “estamos podendo”. Quando nem escolas de formação em condições temos, com clubes no primeiro escalão do nosso futebol a desistirem da competição por alegada incapacidade financeira, fomos na aventura de organizar um campeonato africano de futebol (CAN). Foram construídos, inaugurados com pompa e circunstância estádios construídos de raíz. Estádios que hoje vieram a revelar-se verdadeiros elefantes brancos, tendo como exemplos os estádios de Cabinda,Benguela e Huíla que hoje estão praticamente ao abandono.Sendo que até hoje não foram apresentadas publicamente as contas do tal CAN (se o país teve lucros ou prejuízos até hoje ninguém sabe).A megalomania (e também o gosto pela micha), levou-nos até a construir aeroportos ali onde nem tinham hipóteses de funcionar como tal. Imponentes estruturas tal qual gigantes de barro são os aeroportos no Cuanza Norte, no Luau e o de Benguela nem como alternativa ao de Luanda serve. Nos tempos das vacas gordas, o nosso país era o anfitrião de grande parte dos eventos, reuniões e cimeiras em África. Era importante mostrar ao mundo que “Angola estava na moda”, eram também os grandes concertos com artistas já esquecidos internacionalmente mas que em Angola era pagos à peso de ouro, até ao papel ridículo de importadores de prostitutas brasileiras em segunda mão passamos. No Rio de Janeiro, São Paulo, Lisboa, Paris, Joanesburgo, Singapura e Xangai, o cliente angolano subiu na hierarquia e teve novo status, não tanto porque “trabalhava bem” mas porque pagava bem os serviços. Pagava até além da conta.
Houve um período em que nos meios políticos e diplomáticos angolanos chegou a proibir-se a utilização da palavra Crise. Falar de Crise? Assumir a tal crise “que já estávamos com ela”? Nem pensar! Éramos os maiores nas compras no Colombo, na avenida da Liberdade, avenida Paulista, em Copacabana, Joanesburgo e Windhoek.Era tanto o luxo e as manias da tal ostentação que até jactos privados saiam de Luanda para levar alguns abençoados membros deste povo especial a assistir derbys ou clássicos do SLB nos camarotes VIP do estádio da Luz.Mais uma vez, o culto da hierarquia imperava no seio de angolanos que repastelados nas suas cadeiras com um bem apresentado protocolo e sempre bem acompanhados, servidos do melhor vinho e do bom pitéu iam apreciando o jogo, sem olhar para o seu irmão angolano que estava nas bancadas laterais, lá no meio do povo a apreciar todo o espectáculo. O mesmo irmão angolano que na diáspora, ia lendo com preocupação as notícias sobre milhares de crianças fora do sistema de ensino por falta de escolas ou professores, ou até pessoas morrerem em hospitais por falta de uma aspirina ou de uma vacina.
Entre grandezas e mais grandezas, somos um povo que tão especial agora resolveu entrar na era espacial.A história de um satélite perdido algures no espaço, que revela o quanto certos políticos andam perdidos no tempo e no espaço. Desde dezembro do ano passado e até a confirmação oficial em finais de abril deste ano, que já sabíamos que o tal satélite era um “nado-morto”. A nossa mania de chico-espertismo é impressionante, sendo que existem entre nós dois tipos de “chico -espertos” : O esperto e o burro.O esperto é aquele com quem perdemos algum tempo até nos apercebemos da proposta descabida que nos foi feita. Com o tipo burro, antes de acabar, já o topamos. Este último é por norma mais arrogante porque pensa que os outros são menos inteligentes do que ele. Angola deve ser um dos maiores reservatórios mundiais de chico-espertos ( deve disputar com Portugal, Brasil e a RDC),somos ricos e especiais neste tipo de Inteligência Rara.
Temos mais de 300 milhões de dólares para lançar um satélite ao espaço, andar numa de Star Wars, e não temos tranquilizantes para neutralizar um elefante que aparece no perímetro da barragem de Cambambe. Abater, esquartejar e dividir a carne do animal ainda é a melhor solução.Temos hoje funcionários de uma empresa de telecomunicações, a Movicel em greve e a reclamarem seguro de saúde, subsídios de transporte e alimentação, bem como melhores condições salariais. A situação do músico gospel Miguel Buila nos prémios AMA só revela a nossa indiferença para com questões de acessibilidade e inclusão, quando até já existe uma lei aprovada em 2015. Este caso mostra que o nosso problema não está só nas tais barreiras arquitectónicas mas sim numas certas barreiras mentais, culturais e sociais que vamos criando ao longo dos tempos. Não é mesmo só um problema de leis mas também de consciência e atitude.Gostamos de criar barreiras à quem é diferente ou pensa diferente de nós. Criamos barreiras aqueles que não são formatados e preenchem os requisitos de “yes man”. É o marido que barra a ascensão social da mulher com o medo de ser ultrapassado, é o chefe que barra o seu subordinado quando lhe anuncia que vai fazer um mestrado ou doutoramento . Lidamos mal com o sucesso alheio e tentamos barrar quando se trata de promover o mérito, competência e excelência alheios.A velha história dos caranguejos no balde e de que achamos que quando estamos lá em cima os outros não podem lá chegar.
Howard Garden, o psicólogo norte-americano autor da teoria das Inteligências Múltiplas que nos anos 80 cunhou nove tipos de inteligência: lógico-matemática, linguística, musical, espacial, corporal- cinestéstica, intrapessoal, interpessoal, naturalista e existencial .Se visitasse o nosso país e estivesse em contacto com muita dessa nossa malta, iria certamente identificar uma Inteligência Rara de um povo especial, que vive num país que agora se diz ser também estar na era espacial. Somos agora um povo especial e espacial. Ganhamos mais umas especialidades.

1 comments

Conclusão: somos um povo especialmente boelo, que não tem noção da realidade objetiva nem futuruista… a nós cabe-nos comer hoje, dormir e acodar amanhã que do resto está tudo bem…

Já os governantes, parece-me até que nunca viajaram para os países que hoje são constituem grandes exemplos de superação a todos os níveis… nunca reproduzem nada, parecendo até que só copiar é crime.
Está tudo de patas pro ar, estamos a declinar cada vez mais… o nosso carro já perdeu os travões a bué… enfim, até fico cansado de falar do assunto.

Abrigado pela matéria.

Deixe o seu comentário