Uma Angola que acontece (e faz acontecer) na Feira do Livro de Lisboa

Quando parece que se afirma a ideia de que já ninguém compra livros, de que as livrarias são uma espécie em extinção, eis que surge a Feira do Livro de Lisboa  (FLL) para dar aquele impulso, aquela ideia de que o livro está vivo, de que existe uma cultura do livro e pelo livro. Gosto deste movimento em torno do livro e a FLL acaba por ser um destino obrigatório e que recomendo sempre. Percorro os stands das principais editoras, vou aos lançamentos e falo com escritores. Também passo muito tempo com alfarrabistas que todos os anos me surpreendem com livros raros e baratos. Procuro sempre livros de autores angolanos, destaco e defendo cada vez mais aquilo que chamo uma presença angolana no certame. Este ano tive pela primeira vez os meus livros lá na FLL e foi com agrado que pude verificar a presença de vários autores nossos.

Em Portugal, compraram-se 11,7 milhões de livros em 2018, um número que não inclui os manuais escolares. Dois anos antes, tinham sido publicados pouco mais de 16,5 mil novos títulos. Os quase 12 milhões de unidades totalizaram uma receita de 147 milhões de euros. Em média, cada português compra pouco mais de um livro por ano, e cerca de 40% dos portugueses lêem pelo menos um livro no mesmo período. Aproximadamente 15% das receitas das editoras portuguesas devem-se a exportações de livros para toda a Europa, uma das maiores taxas entre os países europeus. As superfícies jogam um papel determinante na distribuição do livro aqui em Portugal, pois dos cerca de mil pontos de venda de livros espalhadas por todo o país, cerca de 600 são em supermercados. Portugal tem hoje festivais literários promovidos por câmaras municipais e juntas de freguesia que são eventos importantes para promover o livro e impulsionar as vendas. Vou notando também uma interessante e pouco divulgada/noticiada presença literária angolana nestes festivais. 
A Feira do Livro de Lisboa teve a sua primeira edição em 1930 e é a maior de todas, seja em termos de editoras, autores, público ou vendas. A edição de 2017 foi a tal em que se bateram todos os recordes: 500 mil visitantes e 400 mil livros vendidos. Os portugueses gastam 1,1%  do seu orçamento anual para comprar livros (os eslovacos destinam 2,2%, os alemães 1,6%, os polacos 1,3%, os franceses 1,2%), não estando no chamado top 10 dos países em que os habitantes destinam aos livros uma grande fatia do seu orçamento anual.

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Notável o trabalho da editora Perfil Criativo do Ricardo Rodrigues que este ano conseguiu colocar via Promobooks vários títulos de autores angolanos. A Guerra & Paz do Manuel Fonseca continua a marcar presença na FLL e a promover autores angolanos, a Mercado de Letras da Claudia Peixoto também faz parte deste importante trabalho de divulgação de autores angolanos, Tinta da China, Vega, sem fazer das grandes editoras como a Leya, Chiado e Porto Editora. Mas acima de tudo gostei de ver a literatura angolana representada este anos pelas pequenas editoras que, cada vez mais, vão conseguindo espaço para fazer o seu trabalho. Destaco também as sessões de autógrafos de José Manuel Pinho com o seu : Mister Bardas — Crónicas de um Bon Vivant; Elsa Barber com: Regras Básicas de Convivência no Ambiente Escolar; Adolfo Maria com: Angola — A hora da Mudança; Luís Quitumba com: Raio de Luz são algumas das presenças que surpreendem nesta edição da FLL. Há autores consagrados como Luandino Vieira, José Eduardo Agualusa, Pepetela, Ondjaki que são já uma presença habitual que muito honra e prestigia o país, daí que seja importante quando vão surgindo novos autores em cena.

Era também importante que, tal como o Brasil e a região autónoma dos Açores, que vão surgindo no evento com stands próprios de promoção e divulgação cultural, era interessante, urgente e importante uma presença angolana a este nível. Defendo não só a presença de autores angolanos, de um espaço cultural angolano na feira, mas também uma presença de leitores angolanos por lá. Que no período de 29 de Maio a 16 de Junho, aqueles nossos compatriotas que visitam Lisboa em férias, em lazer ou até no cumprimento de deveres não fiquem apenas pelo Centro Comercial Colombo, pela Baixa Pombalina ou pela diversão nocturna. É preciso que alterem as suas rotinas, passem pelo Parque Eduardo VII e constatem o trabalho de Angola e de angolanos que está presente no maior evento literário de Portugal. A nossa literatura precisa  disso e os autores agradecem. Pois há uma Angola que também acontece nesta edição da Feira do Livro de Lisboa.

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