Bairro angolano vive entre a pesca e um cemitério de navios encalhados

No bairro de Sarico, a uma hora da capital angolana, Luanda, a vida faz-se da pesca entre uma dezena de carcaças de navios abandonados, encalhados na praia de Santiago, uma baía onde reina o que resta do velho “Joaquim Kapango”.

Construído em 1980 e com 104 metros de comprimento, este antigo e imponente navio cargueiro da Marinha Mercante angolana, que recebeu o nome de um dos heróis da luta pela independência nacional, confunde-se com a história daquele bairro, no município do Dande, província do Bengo, ou não estivesse ali encalhado há cerca de 30 anos, juntamente com o petróleo “Karl Max” e tantos outros.

Um cenário que mistura o aspeto apocalíptico de navios abandonados que, ao longo dos anos, foram literalmente parar à praia, corroídos pelo tempo e pelo salitre da água do mar, e a vida diária de quem nunca conheceu outra realidade.

Como Rui Manuel, de 29 anos, um dos pescadores artesanais de Sarico.

“Quando os navios estavam abandonados lá no porto [de Luanda], transferiam os navios para aqui, como lixo. Onde eles deixam, dependendo da ventania, os navios vêm para cá e encalham”, conta.

“Nascemos com eles, crescemos com eles”, atira ainda, enquanto os colegas puxam do mar, a força de braços, a pesca do dia, por entre os navios encalhados na praia.

Toda a vida pescador, Rui Manuel recorda que ainda hoje escala os velhos navios para, juntamente com os amigos, divertir-se a bordo.

Uma espécie de comandante de um navio pirata: “Até mesmo assim ainda vou, para brincar. Mas tem sítios que está mal e não dá para ir”.

Manuel Fonseca, de 38 anos, vive da mesma arte, a pesca “banda banda”, em que oito homens levam uma manhã para recolher as duas pontas de uma rede e com ela todo o peixe e marisco que vem pelo meio.

Chegou há nove anos ao bairro de Sarico e nunca conheceu outra realidade além de pescar por entre um verdadeiro cemitério de navios encalhados.

“É bonito sim, claro”, conta, antes de regressar à pesca, num dia que ficou aquém das expetativas.

“Vamos um pouco tristes, pouco peixe”, desabafa.

A isto, e enquanto a “pesca não sai”, assiste Rufina Bimbi, 44 anos. Tem quatro filhos e marido para alimentar em casa, de onde saiu, do bairro Kifangondo, ao nascer do sol, depois de ter apanhado cana-de-açúcar na sua lavra.

Enquanto os mais novos puxam as redes, Rufina espera na areia, junto aos “navios fantasma”, para fazer negócio.

“Venho trocar cana pelo peixe. Para comer e para vender. Levo qualquer peixe”, explica, em conversa com a Lusa, acrescentando que cada cana pode custar 100 kwanzas (50 cêntimos de euro).

Em 2004, um despacho conjunto dos ministros das Finanças e dos Transportes ainda criou uma comissão técnica para dar tratamento e acautelar os aspetos legais referentes ao abate e venda dos navios Joaquim Kapango, Ludonge e N’gola, no âmbito da liquidação da então empresa pública Angonave.

Contudo, a realidade da praia de Santiago em nada se alterou.

Que o digam os primos Clementino Lourenço, de 22 anos, e Filipe Garcia, de 29 anos, ambos pescadores do bairro de Sarico.

“Fazíamos brincadeiras, subíamos ao navio, tirávamos os pássaros e levamos alumínio, para termos alguns valores”, recorda Filipe, sobre os passatempos dos mais novos daquele bairro.

Uma ideia de pronto confirmada por Clementino: “Não tínhamos onde nos divertir por cá, e aqui vínhamos brincar com as meninas e correr”.

Por Sarico, outros contam ainda histórias que, décadas depois, já formam uma espécie de lendas locais, sobre navios encalhados propositadamente naquela praia, a cerca de 30 quilómetros de Luanda, abandonados depois de levadas armas para terra, durante a guerra civil entre 1975 e 2002.

Hoje, a calma praia de Santiago, e a sua silhueta de navios abandonados, é ainda desconhecida de muitos, para satisfação de quem mora no bairro de Sarico e que ali tem uma espécie de recreio na água à disposição.

Fonte: Lusa

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