Uma visita na rota da mudança

O presidente João Lourenço acaba de realizar uma visita a Portugal no quadro de estreitamento das relações entre os dois países e visando obter uma adequada colaboração portuguesa no alavancar da economia angolana e sua diversificação.

Há todos os sinais de que foi um êxito esta visita de estado do presidente angolano, que se traduziu na assinatura de acordos de cooperação, plena distensão política e diplomática, diálogo com a diáspora, empatia geral.

Tal sucesso deve-se o facto de ambas as partes: angolana e portuguesa se terem bem preparado e saberem ao que vinham. A delegação de Angola tinha bem definido o que esperava obter para sectores económicos, sociais e reorganização do Estado. Da parte de Portugal havia a convicção de que a cooperação com Angola não poderia ser a que existia nos anteriores moldes (fazer ali negócios e negociatas), mas, sim, tentar responder às necessidades objectivas de Angola, tanto mais que a presidência angolana tem uma postura bem diferente da anterior, quer quanto à moralização do Estado, às opções económicas e à democratização do país.

Nos seus discursos, durante esta visita, o presidente angolano disse claramente que, mais que comerciar, vender produtos, interessava que empresários portugueses criassem em Angola unidades produtivas nos mais variados sectores, capazes de produzir para o consumo nacional e, até, para possível exportação para países vizinhos. Salientou que Portugal tem o know how adequado a esta fase angolana, quer para o desenvolvimento económico, quer para apoio na saúde, educação, e outros sectores. Por outro lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros português declarou aos jornalistas que a delegação angolana trouxera um volumoso caderno de encargos.

João Lourenço esteve com membros da diáspora (cerca de trezentas pessoas), tendo ouvido sete delegações que apresentaram reivindicações ou sugestões sobre doentes em tratamento em Portugal, problemas dos estudantes e outros relacionados com a obtenção de documentos ou apoio institucional, direito de voto dos cidadãos na diáspora e a sua representatividade através de deputados aqui eleitos. Quanto a este último ponto, o presidente disse que a actual Constituição não prevê isso, teria de ser alterada; acrescentou que isso é possível (ela própria o prevê) desde que se ache necessário.

Esta visita insere-se num projecto de mudança e num rumo traçado pelo presidente João Lourenço desde a sua tomada de posse. Com determinação, ele procura a realização dos objectivos que enunciou.

Contudo, se a grande maioria dos angolanos está confiante numa efectiva mudança em Angola, há outros que se mantêm cépticos, alegando que o presidente é um homem vindo do sistema que conduziu Angola a esta situação económica e social e com deficit democrático.

Penso que é necessário abordarmos esta questão procurando olhar para a dinâmica que foi criada. O modo para vermos se é possível a mudança, se ela já está ou não em marcha, é avaliarmos o que a nova presidência fez neste primeiro ano do seu mandato. Relevo as várias medidas tomadas para a moralização do Estado; as opções económicas (tão diferentes das anteriores); as medidas para uma comunicação social mais interventiva, próxima dos problemas nacionais, não bajuladora; o comportamento das forças policiais; o apelo à sociedade civil para que intervenha; os passos dados para uma efectiva reconciliação nacional: desde a reabilitação de personalidades esquecidas ou banidas ao reconhecimento dos «excessos» praticados pela ditadura instalada com a Independência.

É inegável que hoje, em Angola, há uma respiração política que não existia há pouco mais de um ano, fruto da postura do novo presidente que rompeu com práticas do passado. Neste novo ambiente, compete à sociedade civil propor, exigir e dar a sua colaboração para a resolução dos imensos problemas que o país enfrenta. E temos muitos para resolver: desde os económicos e sociais aos de maior democratização da vida nacional. Penso que o momento é de grande esperança na mudança.

Deixe o seu comentário